Histórias de 28mm

"Nunca pensei trabalhar com madeiras, muito menos fazer pranchas de surf"

Rui Caria

Rui Caria

Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

Uma História 28MM de Rui Caria

O cheiro a madeira sai alguns metros da oficina que tem na antiga garagem de casa. O Luciano Correia, de 52 anos, trabalhou grande parte da sua vida na base das Lajes, mas o despedimento, há cerca de 19 anos, fez com que ele descobrisse um novo caminho; um caminho que nunca esperou percorrer.

"Se me dissessem há 19 anos, que um dia iria trabalhar como restaurador de peças em madeira, eu diria que era impossível. Não sabia nada do assunto".

Rui Caria

Não sabia mas aprendeu. Primeiro, numa escola de ensino especial onde trabalhou depois da saída da base. Mais tarde, foi no museu de Angra do Heroísmo, onde durante cerca de um ano trabalhou e aprendeu a tomar o gosto pela arte, sobretudo, pelas antigas peças de mobiliário.

Estudou o mais que conseguiu. Leu, e lê, livros sobre o assunto e parece ter nascido para moldar a madeira. O restauro de peças de mobiliário é cada vez mais procurado, mas por outro lado, há cada vez menos pessoas nesta profissão; o que faz com que tenha a oficina cada vez mais cheia de cadeiras, pipas para vinho, jarros de madeira, mesinhas de cabeceira, mesas e muitas outras peças de mobília que lhe chegam para o rejuvenescimento que as suas mãos garantem.

"Às vezes não durmo a pensar numa solução para as gavetas daquela cómoda que não resistiram ao caruncho. De repente, a meio da noite, aparece a solução. E isso é espectacular".

Rui Caria

A descoberta deste jeito, que diz ser preciso ter, para "mexer" nas madeiras, fez com que o Luciano se aventurasse em novos mares. "Um amigo tirou-me o juízo para fazer uma prancha de surf de madeira. Não pensei que fosse possível".

Foram muitas semanas, meses, até ter uma solução de prancha em madeira que não fosse só bonita, mas que funcionasse. Chegou a fechar a oficina, como fazia várias vezes, na reparação de outras peças, para procurar inspiração.

Era quase sempre com os passeios na praia que aconteciam as epifanias. Corria para a oficina e punha em prática a centelha que tinha recebido. Nem sempre resultava em mais do que frustração, mas nunca desistiu, e um dia já estava a ver um surfista a testar a sua obra.

Ficou fascinado com a apreciação do amigo. A prancha não só era perfeitamente funcional, como, por ser em madeira, tinha um comportamento semelhante a um barco, segundo o surfista.

Rui Caria

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As madeiras usadas nas outras cinco pranchas criadas pelo Luciano, na sua oficina da Vila Nova, na Ilha Terceira, foram escolhidas pelas suas características de leveza e facilidade de manuseamento. A madeira da criptoméria e o bambu conferem leveza a estas pranchas e são fáceis de encontrar na ilha.

A fórmula tem vindo a ser melhorada e este restaurador já teve algumas encomendas destas pranchas personalizadas.

"Nunca pensei trabalhar com madeiras, muito menos fazer pranchas de surf. Mas surfar... isso é que não sabia que alguma vez fosse fazer, mas agora que experimentei, estou a começar a gostar".

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