Histórias de 28mm

"Poderia passar aqui o resto da vida a cozinhar e a fazer estas pessoas felizes"

Rui Caria

Rui Caria

Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

Uma História 28MM de Rui Caria sobre a fajã do Ginjal.

A meio da encosta Sul da Ilha de São Jorge, nos Açores, revela-se, por entre a densa vegetação, uma pequena adega branca de janelas incertas, mas mais ou menos iguais. A pequena casa em pedra, com mais de cem anos, continua firme naquele terreno rude. Longe da vista, de lá, apenas se avista o mar imenso, e quando as nuvens deixam, da vizinha Ilha do Pico, aparece, como se brotasse do mar, a montanha mais alta do país.

Rui Caria

À vista impressionante juntam-se cheiros e sabores da mais típica gastronomia jorgense pelas mãos da Dona Rosa.

"Aprendi com a minha avó e com a minha mãe. Elas cozinhavam nesta casinha para quem aqui passava. Os poucos turistas que faziam estes trilhos, quando ainda nem haviam aviões, provavam sempre a comida delas". Refere a Dona Rosa enquanto corta, em fatias generosas, um espesso pudim de queijo de São Jorge.

Rui Caria

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As conversas à roda da mesa farta são, invariavelmente, sobre a história desta família que sempre quis dar algo a quem passava naquela fraga de piso incerto. Era quase sempre aos caminhantes que percorriam esta pequena fajã, que, tanto a avó como a mãe da Dona Rosa, ofereciam queijo, figos e outros petiscos caseiros para ajudar na caminhada de vários quilómetros.

A Dona Rosa, de 50 anos, mantém a chama desta tradição familiar bem acesa e todos os que ali passam podem sempre contar com algo para comer e beber. Os pratos de hoje nada têm a ver com a oferta de há uns anos, quando tinha o cuidado de comprar um pequeno queijo e um pedaço de pão de cada vez que subia à fajã para trabalhar as terras, esperando sempre a passagem de alguns turistas.

Hoje, a larga oferta das tradicionais iguarias da ilha é toda caseira; os vegetais vêm todos do pedaço de terra que circunda a pequena adega na fajã, e as carnes são do negócio de gado que a família possui.

Rui Caria

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"Poderia passar aqui o resto da vida a cozinhar e a fazer estas pessoas felizes". Diz a Dona Rosa, emocionada pelas recordações de momentos únicos passados à volta da mesa com gente que por ali passa.

"Os turistas que aqui vêm deixam sempre alguma coisa, deixam o que querem; é sinal que gostam".

Rui Caria

Chegar àquele recanto é em si uma aventura. A fajã do Ginjal, uma das 75 que existem nesta ilha do grupo central, tem acesso a pé ou de carro a partir da Fajã de São João.

A condução pelo estreito trilho não é para todos os corações. Se de um lado do caminho temos a parede da montanha que dá algum conforto, do outro não temos nada senão o mar a algumas centenas de metros da porta do carro, numa escarpa que parece não ter fim.

A experiência de conhecer a Dona Rosa e o marido, o José, provar os petiscos cozinhados em lume de paixão e espreitar por uma varanda de onde se confundem os azuis do mar e do céu, vale o eventual cansaço da caminhada a este lugar mágico capaz de mudar a nossa percepção de tempo e espaço.