Histórias de 28mm

No meu primeiro grande jogo dei um vermelho ao jogador mais alto do Benfica

Rui Caria

Rui Caria

Rui Caria

Repórter de imagem/ Fotojornalista

Aos 85 anos, António Espanhol diz ser o último de uma geração de árbitros que figurou no futebol dos anos 60 e 70 em Portugal.

António Espanhol distribuiu igualmente os vinte anos de arbitragem pela segunda e pela primeira divisão do futebol Nacional, como eram conhecidas na altura.

"Passei a árbitro de primeira categoria em 1969 e fui árbitro do ano na época de 69/70. Fiquei na primeira divisão até 1980, até ao fim". Relembra o antigo árbitro; um homem que nunca teve carro próprio mas teve a ajuda e dedicação de um amigo taxista com quem tinha um acordo de transporte sempre que havia jogo.

Rui Caria

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As memórias que guarda em recortes de jornais da época ajudam-no a lembrar-se de outros tempos preenchidos com centenas de histórias do mundo do futebol. A maior parte delas, boas histórias, ou pelo menos, com finais felizes.

Lembro-me de as ouvir ainda em criança e lembro-me mais ainda dos modestos brinquedos que trazia quando ia "apitar" ao estrangeiro. Nessa altura não poderia imaginar que estaria a escrever uma crónica sobre o meu pai.

Mas aqui estou a falar do árbitro que guarda em várias gavetas lá de casa as centenas de recortes de jornais, uma ou duas bolas de futebol penduradas numa "decoração futebolística" que se espalha pelas estantes entre fotografias de outros tempos que recorda, invariavelmente, em jantares com a família e os amigos.

Rui Caria

O António Espanhol "de Leiria", como era conhecido no meio, dedicou grande parte da sua vida a outra paixão: o folclore. "Sempre dancei em ranchos folclóricos, ajudava na preparação física para os jogos". Assegura o dançarino e ensaiador dos muitos grupos de folclore nazareno por onde passou.

Ao dia oito de cada mês de Fevereiro celebra mais um ano de uma vida cheia, este simpatizante do Sporting Club de Portugal, que fala com saudades dos grandes jogadores que o fizeram correr em campo, como o Eusébio, o Vitor Baptista ou o Teófilo Cubillas.

"Todos tinham respeito por nós. Um dia, no meu primeiro grande jogo, um Benfica/Farense em 1970, dei um vermelho ao jogador mais alto que o Benfica tinha, o Malta da Silva. Dois meses depois, noutro jogo, estava o futebolista à minha espera à porta do balneário; quando lá cheguei pediu-me desculpa. Os jogadores também sabiam reconhecer os erros."

Rui Caria

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Mas não é só dos jogadores que se lembra bem, também dos colegas fala com respeito e elevação. Nomes como; Saldanha Ribeiro ou Garrido estão bem nítidos na memória deste árbitro da associação de futebol de Leiria.

O nazareno recorda também a importância de nunca se ter deixado aliciar. "Às vezes havia uns convites para uns lanches ou jantares, nessas alturas, não ter carro era uma vantagem. O meu táxi está à minha espera... era sempre uma forma de me pôr a andar."

Rui Caria

Hoje, diz-se triste com o futebol porque apesar da tecnologia continua a ver os mesmos erros na arbitragem. Mas é quem o vê a ver um jogo que percebe que a paixão nunca se apagará.

O início da década de oitenta marcou o fim das corridas pelos relvados, e apesar da carreira ter acabado, as memórias trazem ao discurso a vibração e o brilho de outros tempos como se estivessem a acontecer agora.