Histórias de 28mm

"Não estou assustado, sei que vai tudo correr bem e só penso em ajudar"

Rui Caria

Rui Caria

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Repórter de imagem/ Fotojornalista

Tratar da alimentação dos doentes internados e dos trabalhadores do hospital de Santo Espírito de Angra do Heroísmo, em tempos de pandemia, tem sido mais fácil do que seria de esperar.

"Estou aqui a trabalhar há apenas um mês; cheguei na mesma altura do coronavírus, e como o hospital tem menos movimento está a ser mais fácil para mim, que ainda me estou a habituar a esta cozinha". Explica o Ricardo Sousa, 40 anos de idade e cozinheiro há cerca de vinte, desde que aprendeu o ofício no exército.

Rui Caria

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O açoriano, natural da Praia da Vitória, não é o único cozinheiro deste hospital, mas é o mais recente neste serviço. Confessa que não é fácil aprender os códigos de cores, afixados em folhas pelas paredes da cozinha, que permitem distribuir rigorosamente as dietas por cada doente. Mas com o tempo, garante que vai conseguir sabê-los de cor.

Começou em meados de março, na mesma altura em que se registaram as primeiras infeções nos Açores. Em condições normais, o Ricardo trataria apenas de cozinhar para os doentes do hospital; agora, em época de pandemia e com os constrangimentos na instituição, este chef, cozinha também para o refeitório assegurando as refeições dos trabalhadores.

Rui Caria

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São onze sopas, todos os dias; sopa geral, para o pessoal do hospital e para alguns doentes sem dieta específica, sopa para diabéticos, a inteira e a mole, sopa de carne, de cenoura, e o menu continua até àquela que chama mais a atenção; a sopa de caldo, feita, apenas, com água de cozer o frango. Pode bem ser esta sopa a responsável pela má fama dada à comida de hospital.

"A culpa não é nossa, as pessoas não gostam mas tem de ser assim. Só fazemos o que nos é indicado pelos técnicos de saúde". Refere Telma Gonçalves, gerente da empresa concessionária da cozinha deste hospital açoriano.

Rui Caria

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Servem por dia menos de duzentas refeições, número que contrasta com as cerca de 600 que serviam antes da pandemia ter atingido a o arquipélago. Tudo foi reduzido na cozinha deste hospital. Com menos doentes internados e com menos profissionais de saúde a trabalharem em simultâneo, também o pessoal da cozinha partiu para o trabalho rotativo, estando agora apenas 10 pessoas a trabalhar.

Ainda assim, o cuidado e a atenção não diminuíram; o empratamento de cada refeição, para cada doente, é verificado várias vezes e por pessoas diferentes antes dos pratos serem colocados nuns carrinhos especiais, capazes de manterem a temperatura dos alimentos durante a viagem pelos longos corredores, desde a cozinha até aos quartos.

Rui Caria

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"Pensamos sempre mais na família, nestas alturas de maior perigo para todos, mas não estou assustado, sei que vai tudo correr bem e só penso em ajudar, em ir fazendo a minha parte, por isso, sinto-me bem aqui". Diz o Ricardo enquanto passa um fio de azeite por cima das coxas de frango que mais tarde, irá levar ao forno.

Todos os dias às sete da manhã começa a preparação do almoço, e assim que é servido começa a preparar-se o jantar, numa rotina que se repete indefinidamente, sem grande margem para erros. São também estes, os trabalhadores que pouco aparecem, que garantem o funcionamento de uma máquina que nunca pára porque nunca pode parar, sobretudo, neste tempo de medo e ansiedade.

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