Incêndios na Amazónia

ONG brasileiras dizem que incêndios "refletem irresponsabilidade de Bolsonaro"

Bruno Kelly

Declarações surgem depois de Bolsonaro ter dito que as ONG podem ser responsáveis pelos incêndios na Amazónia.

A coordenação do Observatório do Clima, coligação de cerca de 50 organizações não-governamentais (ONG) brasileiras em prol do ambiente, afirmou esta quarta-feira que o "recorde de queimadas no país reflete a irresponsabilidade do Presidente Jair Bolsonaro".

"O fogo reflete a irresponsabilidade do Presidente com o bioma (conjunto de ecossistemas) que é património de todos os brasileiros, com a saúde da população da Amazónia e com o clima do planeta, cujas alterações alimentam a destruição da floresta e são por ela alimentadas, num círculo vicioso", declarou o grupo em comunicado.

"As queimadas são apenas o sintoma mais visível da antipolítica ambiental do Governo de Jair Bolsonaro e do seu ministro do Meio Ambiente, o ímprobo Ricardo Salles, que turbinou o aumento da taxa de desflorestação no último ano", acrescentou a aliança de ONG.

As declarações do Observatório do Clima surgem horas depois de o chefe de Estado brasileiro, Jair Bolsonaro, ter dito que as ONG podem ser responsáveis pelos incêndios florestais que estão a ocorrer na região da Amazónia.

"O crime existe e nós temos de fazer o possível para que esse crime não aumente, mas nós tirámos dinheiros de ONG. Das transferências de fora, 40% iam para as ONG. Não tem mais. (...) De forma que esse pessoal está a sentir a falta do dinheiro", disse Bolsonaro, à saída do Palácio da Alvorada, em Brasília.

O Presidente brasileiro adiantou que considerava estranho os incêndios deflagrarem em diversas áreas da Amazónia e, por isso, acredita que poderiam fazer parte de um alegado plano orquestrado para prejudicá-lo, embora não tenha apresentado qualquer prova para fundamentar as suas suspeitas.

"Então, pode estar a haver, não estou a afirmar, ação criminosa desses 'ongueiros' [pessoas que trabalham em ONG] para chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o Governo do Brasil. Essa é a guerra que nós enfrentamos", acrescentou o chefe de Estado.

Jair Bolsonaro voltou a afirmar que as ONG que atuam na proteção do ambiente no Brasil estão ao serviço de "interesses estrangeiros".

O Observatório do Clima frisa que desde que assumiram os seus mandatos, Bolsonaro e Salles têm "desmontado as estruturas de governança ambiental e os órgãos de fiscalização".

Extinção de órgãos responsáveis por planos de controlo da desflorestação na Amazónia, cortes de verbas dedicadas à proteção ambiental, redução de ações de fiscalização e a suspensão do Fundo Amazónia foram alguns dos exemplos citados pelo grupo de ONG.

"A combinação de autoritarismo e fanatismo ideológico do Presidente e do seu ministro transformam em fumaça não apenas as árvores da Amazónia e a reputação do Brasil, mas também o bem-estar de uma população que o Governo federal deveria proteger e o nosso acesso a mercados internacionais e a investimentos", conclui o Observatório do Clima num comunicado publicado no seu 'site'.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, com base em imagens de satélite, indicam que as queimadas no Brasil aumentaram 82% de janeiro a agosto deste ano, em comparação com o mesmo período de 2018.

Na segunda-feira, uma nuvem de fumo produzida por queimadas no Paraguai, Bolívia e também na região amazónica dentro do território do Brasil transformou o dia em noite na cidade de São Paulo, onde o céu pareceu escurecer pouco depois das 15:00 locais.

Lusa