Incêndios na Amazónia

Perdas na Amazónia poderão ser "irreparáveis", diz especialista

Bruno Kelly

Especialista ouvido pela BBC garante que seriam necessários, no mínimo, 20 anos para recuperar as zonas afetadas pelos incêndios.

Jerónimo Sansevero, professor do Departamento de Ciências Ambientais do Instituto de Florestas da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, explica à BBC que no pior dos cenários a floresta não voltará a regenerar-se.

"Estamos perante uma perda irreparável. Nunca tivemos uma perda tão alta nas últimas três décadas"

Mas há uma luz ao fundo do túnel. Este especialista acredita que seriam necessários, no mínimo 20 anos. Depende do impacto causado na vegetação original.

Este ano, a Amzónia está a arder como nunca se viu. O número de incêndios no Brasil cresceu 70%, em comparação com o ano passado.

Desde janeiro, o país registou quase 70 mil focos de incêndio, sendo a Amazónia, o bioma (conjunto de ecossistemas) mais afetado.

Porque arde a Amazónia?

Esta é a altura de queimadas no Brasil, mas adensam-se as suspeitas de que grande parte dos incêndios têm mão criminosa e as baterias são apontadas aos agricultores interessados na desflorestação.

Roldan Muradian, especialista em Ciências do Ambiente, entrevistado pela jornalista da SIC, Ivani Flora, explica que este aumento das queimadas não é de agora. Começou com o Presidente Temer, tendo 2018 sido um ano de recordes.

Muradian lembra ainda que o que está a acontecer, no Brasil, "reflete a ideia de que a floresta vista como impedimento ao desenvolvimento económico".

Conciliar a economia com a ecologia é "o desafio". E não se pode dizer que seja terreno desconhecido para os brasileiros.

Entre 2002 e 2014, lembra o professor da Universidade Federal Fluminense, registou-se uma queda na desflorestação e, ao mesmo tempo, crescimento económico no país. A expansão da área plantada da soja e aumento das cabeças de gado. Roldan Muradian defende por isso que "o futuro do capitalismo não está no desmatamento, mas no bioconhecimento e na informação".

Entretanto, Jair Bolsonaro aponta o dedo às Organizações Não Governamentais de incendiarem o território para prejudicar o Governo. O Presidente brasileiro não apresentou provas, mas diz que este tipo de crime existe.

Enquanto se procuram culpados, o pulmão do mundo continua a arder. Já passaram duas semanas.

A Amazónia já perdeu uma área superior ao território da Alemanha e os números são alarmantes.

De acordo com o Inpe, órgão do Governo brasileiro que levanta os dados sobre a desflorestação e queimadas no país, 2019 regista mais 83% de focos de incêndio que 2018.

O impacto está a ser tal, que na passada segunda-feira a cidade de São Paulo escureceu, durante o dia.

Eram 15h00 quando uma densa nuvem de fumo cobriu a cidade. Roldan Muradian acredita que "houve um plano para que, no mesmo dia e à mesma hora, o fogo fosse ateado". Só isso explica a nuvem que pairou sobre a cidade.