Incêndios na Amazónia

"O pior ainda está para vir", diz especialista sobre a Amazónia

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A Amazónia brasileira perdeu, nos primeiros 26 dias de agosto, mais de 1.100 quilómetros quadrados de área.

Só para se ter uma ideia da área ardida, imagine o equivalente a dois Algarves e junte-lhe a Área Metropolitana de Lisboa. E isto, só na Amazónia brasileira.

Tasso Azevedo, engenheiro florestal e ambientalista, ouvido pelo jornal "O Globo", garante: "O pior ainda está para vir".

A época de queima ainda não terminou e a maior parte das áreas consumidas pelas chamas, até agora, são zonas desmatadas em abril, maio e junho, explica o especialista.

Além disso, o desmatamento não parou. Entre julho e agosto os sistemas de monitorização do Governo detetaram um grande aumento na destruição da floresta, de acordo com o Globo, e essas zonas ainda não foram incendiadas.

"O que estamos a enfrentar é uma crise genuína que pode se tornar uma tragédia anunciada com incêndios muito maiores do que os que estamos vendo agora, se não forem imediatamente interrompidos", escreve Tasso Azevedo. Termina, pedindo medidas urgentes para reduzir os danos.

É expectável, por isso, que os incêndios na Amazónia brasileira se intensifiquem, nas próximas semanas, apesar do executivo de Bolsonaro garantir que a situação está controlada.

Governo brasileiro regista diminuição de focos de incêndio

Segundo dados do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazónia, o Censipam, Rondônia, Amapá, Pará e Maranhão eram os estados brasileiros com maior número de focos de incêndio, e onde o fogo lavrava com maior intensidade, principalmente, entre domingo e segunda-feira.

Contudo, numa medição realizada na terça-feira, o mapa de focos de incêndio indicou uma redução, principalmente em Rondônia, onde houve um maior emprego de reforços no efetivo de combate ao fogo, segundo informaram os agentes.

O responsável do Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais do Ibama, Gabriel Zacharia, afirmou que as áreas que registam maior número de incêndios estão fora do espaço protegido pelo Governo federal.

"As áreas protegidas de conservação e áreas indígenas vão sempre ter menos incêndios, porque são as que estão mais preservadas", disse Gabriel Zacharia.

O técnico do Ibama frisou que mesmo com "bons resultados os esforços precisam de continuar".

80 mil incêndios só no Brasil, desde o início do ano

De acordo com dados do MapBiomas, um projeto que envolve universidades, empresas de tecnologia e ONGs, usado para mapear e monitorizar a cobertura e uso da terra no Brasil, o país perdeu 89 milhões de hectares de terra nos últimos 33 anos. A agropecuária ganhou terreno. Atualmente ocupa 31% do país.

Escreve o Globo que, entre 1985 a 2018, o Brasil perdeu 89 milhões de hectares de áreas naturais e ganhou 86 milhões de hectares de área destinada à agropecuária.

A área ocupada por pastagens no Brasil parou de crescer a partir de 2005, já as de agricultura estão em crescimento e até aceleraram nos últimos anos.

Os especialistas dizem que está em curso um processo de transformação de áreas de pastagem em áreas de agricultura.

"A pastagem avança sobre a floresta, e a agricultura, sobre a pastagem. Mas, na Amazónia, a pastagem continua a crescer, com abandono de áreas e baixa produtividade. Temos cerca de uma vaca por hectare ou mata transformada em pasto do tamanho de um campo de futebol na Floresta Amazônica. É uma produtividade baixíssima e um péssimo uso da terra."

Ativistas escrevem uma carta aberta a Bolsonaro

Quatrocentos membros da agência ambiental brasileira, Ibama, publicaram uma carta aberta sobre o estado da proteção ambiental. Apontam baterias às políticas do Governo e à forma como está a "abrir a Amazónia ao desenvolvimento".

Acusam ainda Bolsonaro de prejudicar a própria agência ao reduzir, em 24%, o número de fiscais do órgão entre 2018 e 2019.

Falam em "colapso da gestão ambiental federal" que estimula os "crimes ambientais dentro e fora da Amazónia".

Denunciam ainda que o Grupo Especializado de Fiscalização do Ibama não foi enviado para a Amazónia uma vez em 2019.

Entretanto, os governadores dos estados afetados pelos incêndios reuniram-se com Bolsonaro.

O Presidente brasileiro optou por atacar os ambientalistas e ativistas indígenas, que acusa de serem um travão para o desenvolvimento económico, em vez de apresentar soluções para combater os fogos.

Está também prevista uma reunião com outros líderes sul-americanos na vizinha Colômbia dentro de uma semana para elaborar um plano para proteger a floresta amazónica, não só no Brasil, mas também no Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana e Suriname.

Esta quarta-feira, 18 marcas globais de moda, incluindo Timberland, Vans e The North Face, suspenderam as compras de couro do Brasil.