Livrai-nos da guerra

"Livrai-nos da guerra"

José Fernandes

Pela primeira vez, uma equipa de jornalistas entrou num mundo com cerca de oito milhões de mensagens.

Pela primeira vez, uma equipa de jornalistas entrou neste mundo que inclui já cerca de oito milhões de mensagens. No Santuário de Fátima, é designado por “Correio de Nossa Senhora” e compõe-se por cartas, postais e outros documentos escritos das mais variadas formas e tamanhos, como folhas de hotéis, bilhetes de transportes, papel de carta, cartões de visita, pagelas ou desenhos coloridos por crianças nas escolas.

Numa das mensagens, a autora pede: “Senhora, livrai-nos da guerra”. A guerra está presente desde o primeiro momento dos acontecimentos de Fátima: em plena Grande Guerra 1914-18, logo no primeiro diálogo contado pelos videntes, uma das perguntas é “quando acaba a guerra?” Ao longo do século, o fenómeno ligado ao santuário mariano atravessa-se com a questão da guerra. E intensifica-se sobretudo durante o conflito no antigo ultramar.

A guerra interferiu com as vidas dos videntes e com os quotidianos de milhões de portugueses. E durante o conflito nas então colónias portuguesas, o aproveitamento político de Fátima contrastou com algumas vozes que, a partir do catolicismo, contestavam o regime e uma atitude predominante de silêncio cúmplice por parte dos responsáveis da Igreja Católica.

Numa investigação inédita SIC/Expresso, jornalistas consultaram 50 mil mensagens deste espólio do arquivo de Fátima. Nelas se revelam muitos anseios do quotidiano, alguns deles surpreendentes e de foro muito íntimo e dramático.

No meio dos pedidos, surge a devoção traduzida numa relação muito próxima com aquela que se invoca como “mãe”, “mãezinha” ou “querida mãe do céu”. Quando se fala da guerra, é para pedir que os soldados não sejam mobilizados para o teatro de operações, que não fiquem feridos, que regressem sãos e salvos.

Muitas vezes, a oração dos crentes assume o discurso comum na época: a luta contra os terroristas ou o comunismo, Portugal como lugar de salvaguarda da fé...Em alguns casos, ousa-se pedir apenas “livrai-nos da guerra” ou que “vença quem tem razão”. Encontra-se também correspondência de pessoas exiladas e famílias separadas pelo regime.

De tudo isso falam estas cartas, bem como alguns testemunhos recolhidos durante a investigação junto de ex-combatentes e outras pessoas que viveram os acontecimentos.

Nestes dois episódios (em maio haverá um terceiro), a Grande Reportagem “Livrai-nos da Guerra” procura mostrar essa documentação, colocando historiadores, psiquiatras, teólogos, arquivistas e outrosinvestigadoresa analisar as mensagens e reflectindo sobre os factores políticos, sociais, psíquicos e religiosos presentes neste acervo.

Como elo de ligação entre especialistas e cartas a N. Sra de Fátima, os referidos ex-combatentes contam histórias da guerra e da devoção em cenário de guerra, emocionantes e por vezes dolorosas, revelando o papel inquestionável do fenómeno de Fátima na história do Portugal contemporâneo.

José Fernandes

Ficha técnica

Jornalistas: António Marujo e Joaquim Franco

Repórteres de imagem: João Venda e Pedro Castanheira, com Carlos Catarino e Jorge Miguel Guerreiro

Edição de imagem: Andres Gutierrez

Grafismo: Renato Mendonça

Produção: Diana Matias

Coordenação: Amélia Moura Ramos

Esta reportagem teve o apoio de uma bolsa de investigação jornalística atribuída pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2018-19.