Livrai-nos da guerra

"Fui para a guerra cristão, lá passei a agnóstico e quando vim era ateu"

5.ª feira no Jornal da Noite

O testemunho dos intervenientes na Grande Reportagem Livrai-nos da Guerra

Ex-presidente da Associação de Deficientes das Forças Armadas, António Calvinho critica a Igreja nos anos da guerra colonial. Acusa-a de "cumplicidade" com o regime e a guerra. António Calvinho perdeu uma perna no rebentamento de uma mina, em Moçambique, onde fez duas comissões.

Soltou a raiva na escrita. No livro Trinta Facadas de Raiva reúne trinta textos que refletem o estado de alma, como o poema "A treze de maio (...)":
"A treze de maio Na cova da guerra Eram todos soldados (...) A treze de maio Noutra cova Outra gente Da mesma gente Arrastava o corpo e a alma Sangrava dos pés Da longa caminhada Oferecendo-se em holocausto Para que os barcos continuassem a descarregar cadáveres".


O ex-combatente recorda o fatídico dia em que foi mutilado e conta a travessia que fez, na guerra, da crença à descrença: "Fui para a guerra com algum conteúdo cristão, católico. Lá passei a agnóstico e quando vim era ateu".


Respeitava os soldados que rezavam o terço para atenuar o medo, mas considera que a fé, particularmente "o papel de Nossa Senhora de Fátima, devia ser o de ir junto dos políticos para que entrassem em diálogo". Provavelmente, deduz, "o núcleo duro do fascismo não deixou" e "a Igreja abafava os que criticavam a guerra".


O historiador António Matos Ferreira distingue em Fátima a vertente institucional e política da devocional e experiêncial: "A dimensão sacrificial e reparadora que existe no contexto do santuário de Fátima não é para haver mais guerra, é para haver menos guerra".