Livrai-nos da guerra

"É uma coisa doida"

"É uma coisa doida"

O testemunho dos intervenientes na Grande Reportagem Livrai-nos da Guerra.

Até à década de 1980, o santuário de Fátima recebia placas em pedra como ex-votos que afixava na Capelinha das Aparições. As obras então efetuadas para a construção do atual alpendre, acabaram com essa tradição e as placas são agora peças de museu.

Entre essas placas estão algumas de ex-combatentes ou familiares. Uma refere-se a João Raio, da Várzea de Sintra, oriundo de uma família ligada ao negócio da pedra mármore. Foi colocada na Capelinha a pedido da mãe, agradecendo o facto de o filho não ter sido mobilizado para a guerra em Angola:
"MILAGRE DE N. SENHORA DE FÁTIMA DA DESMOBILIZAÇÃO DE JOÃO J. SOARES R. RAIO VÁRZEA DE SINTRA 20-7-1968".


João desconhecia esta iniciativa da mãe Deolinda. A SIC levou-o a Fátima para ver, pela primeira vez, a placa em pedra que regista a devoção da mãe e o respetivo agradecimento. Na iminência da partida para Angola, a mãe procurou nos quartéis da mesma especialidade quem o substituisse na mobilização.

Quando já não esperava encontrar alguém, apareceu um soldado açoreano que ocupou o lugar. Um "milagre", entendeu a mãe de João, devota de N. Sra de Fátima. "Foi milagre e sorte, as duas coisas", diz João, que vai ocasionalmente a Fátima, admitindo agora ter mais uma razão para ir. "É uma coisa doida", desabafa com a voz embargada pela emoção.