Livrai-nos da guerra

"Se morrer que se lixe"

"Se morrer que se lixe"

O testemunho dos intervenientes na Grande Reportagem "Livrai-nos da Guerra".

Diz a lenda que a devoção local se deve a Egas Moniz, ao serviço de D. Afonso Henriques. A desavença familiar no dealbar da nação antecipava uma batalha sangrenta. O futuro rei estaria acolhido ali perto e Egas Moniz, para evitar um confronto entre pessoas do mesmo sangue, terá prometido a Nossa Senhora uma ermida no monte da Franqueira. Não houve batalha e a ermida foi construída para cumprir a promessa.

A imagem de Nossa Senhora do Rosário do Monte da Franqueira, que ocupa hoje a peanha por detrás do altar-mor, é do século XVIII. Mas é à imagem da Senhora de Fátima, numa das paredes laterais, que se dirigem os ex-combatentes de Barcelos. Por iniciativa de um capelão militar, esta escultura em madeira acompanhou o 4º pelotão da Companhia de Artilharia Ligeira 1766, Batalhão 1925, estacionado no quartel de Lumbala, leste de Angola, entre 1967 e 1969.

Quando acabaram a comissão, os 16 homens de Barcelos - metade do pelotão - que integravam o contingente trouxeram a imagem de volta. São várias as histórias de imagens religiosas que acompanharam militares na guerra ou de igrejas construídas em África, dedicadas à Senhora de Fátima. "Era uma fé incalculável, era a nossa protetora, tinhamos ali uma mãe que nos protegia e isso foi importante para nós", lembra o ex-combatente David Vilaça.

O capelão ainda hoje se junta à companhia nos almoços anuais, antecedidos sempre por uma missa. "Pelas conversas que tinha com eles na guerra, tenho para mim que confiavam mais na proteção da mãe, Nossa Senhora, do que na G3 ou na FN, as armas que tinham", diz o padre Agostinho Brígido, acrescentando: "Não era fanatismo, era convicção de que Nossa Senhora é mãe" espiritual e protege.

"Somos católicos e tínhamos aquela devoção", explica Joaquim Simões. Este ex-combatente chegou a pensar que não regressaria vivo a Barcelos. Revela que "houve uma altura em que dizia: «Se morrer que se lixe»". A mulher com quem Joaquim casou, semanas antes de seguir para Angola, ficou em casa dos pais: "Em Angola lembrava-me muito dela... foi duro".