Match Point

Portugal tem muito talento! E o resto?

Opinião

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Às terças e sextas o futebol marca presença maioritária no Match Point, mas o Desporto em geral terá sempre aqui o seu espaço. Na opinião escrita de José Manuel Freitas.

Afinal, o denominado “grupo da morte” do Europeu, com três fortíssimos candidatos a conquistar a competição foi o “grupo do flop” e, por este ou aquele motivo, portugueses, franceses e alemães já estão a caminho de férias, sucessivamente afastados, o que deixa muito claro que estas seleções, possuidoras de futebolistas talentosos, dos melhores da atualidade, são obrigadas, se pretendem manter estatuto, a arrepiar caminho. E arrepiar caminho é mesmo mudar de vida, de estratégia, de dinâmicas, se bem que a França, que ostenta o título mundial, será das três a que continua no caminho correto, mesmo que troque Deschamps por Zidane.

Para dar corpo à ideia de a “morte” se transformou em “flop”, basta atentar nestes pormaiores: Portugal, que defendia o título, saiu da competição com um mísero triunfo frente à Hungria e sete golos encaixados, quando uma das matrizes desta equipa era sofrer poucos golos, como o provam os 46 sofridos em 60 jogos oficiais; a França, apontada quase que unanimemente (nos quais me incluo) como o único selecionado favorito à vitória final, apenas conseguiu levar de vencida a Alemanha, com um autogolo, num dos mais sonolentos jogos da prova e quando parecia estar a caminho dos “quartos”, deixou-se “adormecer” à sombra do 3-1 conseguido (Pogba pode ter marcado o golo deste Euro…) e fez as malas nos penalties; finalmente a “mannschaft”, que venceu os lusos e ao fazê-lo de forma tão esclarecedora parecia encaminhada para o triunfo – e para a famosa máxima dos 11 contra 11… -, mas uma bem oleada máquina inglesa (sempre aqui defendi a Inglaterra como potencial vencedora da prova e cada vez me convenço mais dessa hipótese) mandou em definitivo para a reforma o antiquado Joachim Low, que em 15 anos a liderar uma das maiores potências do futebol apenas venceu o Mundial do Brasil. Portanto, o futebol é cada vez mais domínio dos que juntam talento e capacidade de sofrimento à ousadia.

FUTURO AINDA PODE, E DEVE, SER PORTUGUÊS!

A participação portuguesa na prova roçou a desilusão. Só não o foi em toda a sua extensão, porque no meio de tudo aquilo que merece crítica, ainda aconteceram coisas positivas, a principal das quais a reação da equipa ao desaire frente aos germânicos, inexplicável pela forma como se verificou, mas percetível face à ideia de jogo que se cristalizou na equipa, e que deixou a ideia de que sim, a equipa podia chegar longe e confirmar credenciais. A juntar a isso, até esta altura, CR7 é o melhor marcador da prova, ele que conseguiu igualar Ali Daei e tem tudo para colocar esta classificação individual num patamar inatingível (para não exagerar) nos próximos 50 anos, capitão que, no somatório dos quatro jogos, terá sido quem teve rendimento mais elevado – pena foi que, mais uma vez, agora com os belgas, se tenha portado nos antípodas daquilo que se exige a um futebolista com o seu estatuto, no final desse jogo - e Pepe, mesmo do alto dos seus 38 anos, também esteve acima de todos os outros, qual exemplo para quem quer fazer do futebol forma de vida.

Mas, de verdade, o que é que recordamos, para lá de ambos, do Euro-2020? A fenomenal defesa de Rui Patrício frente aos gauleses, aqueles minutos supersónicos de Rafa com a Hungria, a confirmação de que Palhinha é um “6” que joga em qualquer clube, o azar de João Cancelo, traído pela Covid, a lesão grave de João Félix, a justificar “ida à faca”, o desgaste com que se apresentaram, especialmente, Bernardo Silva e Bruno Fernandes, eles que tão importantes são na dinâmica e criatividade da equipa, mais os incríveis autogolos no jogo com os alemães.

Porém, como resultado da participação no Europeu, a seleção é obrigada, e por inerência do cargo Fernando Santos – atendendo a tudo o que já se ouviu, mas estas reações são normais nas derrotas, não há ninguém melhor para o cargo -, a mudar de vida. O talento abunda (basta fazer contas e rapidamente se conclui que há, pelo menos, 40 futebolistas com ADN de seleção principal), mas isso não chega. É fundamental uma outra atitude competitiva, que imponha respeito aos adversários e os obrigue a sentir o poderia da equipa, são necessárias outras dinâmicas, se se quiser mais audaciosas, de ataque (não há outra forma de o afirmar) que contrariem o futebol demasiado expectante tantas vezes exibido, e que os futebolistas tenham aquelas ganas que também ajudam a vencer jogos – os espanhóis dizem que é preciso ter-se outra coisa, mas a educação impede-me que o possa transcrever.

Sim, o Mundial é a etapa que se segue. Não ver Portugal na competição seria um insulto ao próprio futebol, mas é preciso muito mais do que aquilo que se viu na Rússia e agora. Participar só por participar quando se tem tanta qualidade é muito curto. E se Fernando Santos tiver de cortar cerce, mudar o sistema ou deixar de fora algumas “vacas sagradas” que o faça. Há talento que não pode ser esbanjado, mas esse parâmetro não chega para que uma equipa de futebol possa ser vencedora. E é isso que os adeptos, que continuam a acreditar e a gostar cada vez mais desta equipa, esperam que aconteça no Catar.

ESPANHA OU ITÁLIA NA FINAL…COM A INGLATERRA

Voltando ao Europeu – peregrina a ideia de realizar jogos em 11 cidades!!! -, qual foi o jogo menos interessante dos oitavos de final? Claro: o Bélgica-Portugal! A primeira parte foi qualquer coisa de entediante e o segundo tempo só teve alguma emoção porque os portugueses arriscaram tudo (sem organização, mas arriscaram), mas os belgas… Por isso, quando vejo jogar Dinamarca ou Rep. Checa, que não são da primeira linha do futebol mundial, acho que o caminho do jogo é mesmo aquele que estas equipas defendem.

E que dizer da Itália de Mancini? O “catennacio” está morto e enterrado, pois para a frente é que é o caminho! E que orgia de futebol espetáculo nos proporcionaram os jogos Croácia-Espanha e França-Suíça… Mas, não é isso que todos queremos do jogo? Golos, ousadia, alguma dose de loucura, futebolistas no máximo da sua expressão profissional. E temos, também, a Inglaterra. Que é, desde sempre, repito, um dos candidatos da minha lista. Liderada por Sterling, Kane, Maguire e Walker, e onde pontifica uma legião e jovens muito talentosos: Grealish, Mount, Foden, Rice, Bellingham ou Saka.

Olhando o quadro dos que estão apurados, se dependesse de mim, a final teria a Inglaterra frente à Espanha – por uma questão de coração e simpatia, pois tenho nos espanhóis muita gente de quem gosto – ou Itália, uma vez que, independentemente dos percalços vividos frente à Áustria, a sua cara de hoje nada tem a ver com aquela em que defender é que era importante. Se for assim, com estas seleções, o futebol sairá muito, mas mesmo muito beneficiado.

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