Muro de Berlim caiu há 30 anos

30 anos depois da queda do Muro de Berlim "ainda há pessoas traumatizadas"

Berlim, 23 agosto 1961 - mulheres de Berlim ocidental acenam a amigos do outro lado do muro que divide Berlim.

AP

Durante 28 anos, 161 quilómetros de betão e arame farpado separaram, não só geografias, como vidas.

O médico alemão Jochen Buhrmann acredita que, 30 anos depois da queda do muro de Berlim, "ainda existem pessoas traumatizadas, especialmente as que foram alvo de violência psicológica ou física" na República Democrática Alemã (RDA).

Durante 28 anos, 161 quilómetros de betão e arame farpado separaram, não só geografias, como vidas.

A separação dos amigos ou familiares, o dia-a-dia condicionado por um muro, ou as restrições de um regime ditatorial provocaram efeitos negativos que, em muitos casos, ainda não sararam, como disse à agência Lusa Jochen Buhrmann, diretor do departamento de medicina Psicossomática e Psicoterapia das clínicas Hélios.

"A RDA era uma ditadura que afetava todas as pessoas que nela viviam, sobretudo aquelas que eram perseguidas, desintegradas, presas, maltratadas, entre outras".

O médico acrescentou que, independentemente de morarem perto ou longe do muro de Berlim, todas as pessoas na RDA sofriam "restrições" com consequências muito negativas.

Para os poucos que conseguiram fugir e "dar um forte contributo para destabilizar o sistema", o especialista defende que os problemas de adaptação ao lado ocidental foram irrelevantes, apenas "reações de stress" durante a travessia até à República Federal Alemã (RFA).

Durante o período da divisão da Alemanha, o psiquiatra Dietfried Mueller-Hegemann, de um hospital psiquiátrico de Berlim oriental, terá diagnosticado a chamada "doença do muro", detetando indiferença, depressão, mania da perseguição e tentativa de suicídio em vários pacientes.

O médico registou pelo menos uma centena de casos até 1971, altura em que conseguiu fugir para a Alemanha ocidental.

Em 1989, a polícia secreta da RDA, a Stasi, empregava 90 mil agentes e mantinha 175 mil informadores a monitorizar 17 milhões de habitantes, isto é, um espião para cada 64 pessoas.

A informação oficial revela que 40 mil pessoas foram condenadas por crimes políticos durante a existência da Alemanha de Leste, mas os números podem chegar aos 300 mil.

Por outro lado, são também várias as pessoas que sentem saudades da vida no "ost" (leste), uma nostalgia a que ficou associada a expressão "ostalgie", algo completamente normal para Jochen Buhrmann.

"Para cada pessoa, a sua história de vida cria identidade. Isso também se aplica à vida quotidiana na RDA com os seus hábitos, produtos e acontecimentos. Estes foram praticamente eliminados com a unificação. Portanto, não é surpresa que sejam lembrados e desejados", salienta o clínico, revelando ser "muito legítimo."

Lusa

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