Como estamos a viver a pandemia

Lamento profundamente não conseguir abraçar uma amiga que acabou de perder a mãe

Susana Vera

O testemunho de Sandra Costa, formadora

Sinto-me exausta.

Embora adore estar em casa, estou consumida por ter que gerir as emoções de uma criança de 9 anos, que a determinada altura chegou a questionar-me se estava a ser castigada.

- Castigada? Perguntei intrigada. Respondeu-me num tom melancólico justificando que lhe estávamos a tirar muitas regalias, como correr com o cão na praia, brincar com os amigos, ir ao cinema, entre outros. Senti que lhe devia uma explicação e expus-lhe, o que sei sobre a situação que estamos a viver a nível mundial. A criança ficou em pânico com a ideia de eu sair de casa e pede-me recorrentemente que, por favor, nem às compras vá.

Há alguns dias recebi o telefonema que ninguém ambiciona, informando-me que uma prima enfermeira testou positivo. O mesmo acabou por acontecer ao marido, sendo que ambos têm uma menina de 6 meses. Senti um ligeiro pânico, o qual, associado ao número crescente de contágios já começa a ter uma intensidade considerável.

Dou por mim à noite a pensar nos muitos alunos órfãos que tive, questionando-me como estarão. Ligo-lhes com regularidade e levo-lhes comida e outros bens, sendo que me sinto terrível por nem os conseguir abraçar. Envolvo a minha filha nestes acontecimentos, porque considero fundamental que cresça atenta aos outros.

Lamento profundamente não conseguir abraçar uma amiga que acabou de perder a mãe. Vi-a à janela e senti-me totalmente impotente.

Tenho uma vizinha idosa cujo único filho está em Angola. Falo com ela todos os dias assegurando que não lhe falta nada e tratando de tudo aquilo que consigo.

Penso, todos os dias, na minha prima mais velha, que é médica e está a trabalhar desalmadamente em Inglaterra. Explicou-me, num tom resignado, que lhe é muito difícil ter que chegar a decidir quem fica com ventilador, ou quem, por outro lado, perde a vida. Sinto que este tipo de tomada de decisão deixa marcas profundas na existência de um ser, e adorava conseguir contrabalançar esse sentimento.

Ouço as palavras que não me agradam: “Esta doença é horrível”. Sinto que estamos a sobrevalorizar o impacto emocional global que tudo isto terá. Só lhe posso dizer que a amo pois é tudo o que está ao meu alcance.

Verifico através de comunicados nas redes sociais que os consultórios privados (na sua grande maioria) encerraram por, penso eu, considerem que é perigoso para o/a Doutor/a. Isso revolta-me. Há uma semana que estou atormentada com uma dor de dentes fortíssima. Foi, ainda que doente, necessário continuar a limpar a casa, gerir refeições, lavar roupa e passar a ferro.

Desesperei à procura de um/a dentista que conseguisse disponibilizar-se para me ajudar, o que provou ser um verdadeiro desafio. Consegui uma venda suspensa de um antibiótico numa farmácia, comprometendo-me a apresentar a receita o quanto antes. Finalmente (5 dias transatos) consegui ser vista por uma especialista a cerca de 30 Km de casa. Senti-me profundamente grata por saber que ainda há, na especialidade de medicina dentária, quem esteja disposto a correr riscos em prol do conforto e bem-estar alheio. Fui tratada primorosamente. Continuo a sentir que não lhes agradeci o suficiente!

Por outro lado, acompanho as aulas on-line da minha filha e sinto orgulho no trabalho excecional que os professores estão a desenvolver. Todo o conceito de ensino se reinventou do dia para a noite. Esse esforço é louvável e tem imenso mérito. Parabéns! Lamento que nem todas as pessoas consigam ver este cenário do ensino pelo mesmo prisma que eu.

O meu marido continua a trabalhar e agradeço-lhe a preocupação e o todo o cuidado que tem quando regressa a casa, de forma a evitar qualquer possível contágio.

Tenho ainda um pequeno espaço comercial que, por força das circunstâncias se encontra encerrado. Enviei uma mensagem à arrendatária a dizer que não tinha que se preocupar com a renda do mês de abril. Sei que tirei um peso de cima de uma família adorável, que está certamente a passar um mau bocado.

Ensinei a minha filha a plantar uma horta que já começa a dar “frutos” e espero, honestamente, que de toda esta situação se consiga também extrair o fruto da solidariedade, de fazer o bem sem olhar a quem.