Como estamos a viver a pandemia

A clara escuridão dos meus dias

O testemunho de Miguel Neto, padre.

Houve tempos, nesse ano longínquo de 2019, em que precisava de estar em silêncio junto D’Ele e não me deixavam. Era o telemóvel que vibrava dando sinal que uma chamada. Acabava por ser interrompida automaticamente, só porque a geolocalização do telemóvel detetava estar numa das Igrejas de Tavira.

Era a idosa que precisava de falar com alguém que lhe fosse amável, que a escutasse e não compreendia porque é que um homem, por ter assumido a missão de padre, está ao fundo da Igreja a olhar para o infinito da permanente presença de Deus na terra dos Homens.

Ou alguém em buscava um simples serviço da Igreja, que possibilita a festa, ou convívio próximo entre familiares e amigos e que marca uma etapa importante da vida dessa pessoa.

Para mim, o importante é o Sinal do Amor de Deus para com cada Homem concretizado num Batismo ou Casamento. Mas para muitos, o importante é que esse seja um dia de festa e que, pelo menos, haja uma “bênção” de Deus.

É verdade, já foi há tanto tempo… Mas há dois meses atrás sentia a falta de estar sozinho com Ele, porque os padres, para além de terem a missão de aproximar todos de Deus, também precisam de estar com Deus.

E, entretanto, tudo mudou. Ainda me lembro do primeiro dia dessa mudança. No início foi por causa de um vírus que desconhecia. Tinha um nome esquisito. E nós, como ainda não tínhamos tirado um curso intensivo de infetologia, achávamos tudo estranho. Não sabíamos muito, mas tínhamos medo, porque víamos que noutros países atacava muita gente.

E se é necessário ficar em casa, vamos ao caminho. Que bom ficar em casa por uns tempos! Talvez uma ou duas semanas, no máximo um mês. Que bom! Vou ter tempo para estar com Ele. Rezar com a serenidade transmitida pela Ria Formosa. Ler o que ainda não li e que se vai acumulando em cima da mesa à espera de tempo. Tempo, que bom! Vou ter tempo para escrever o que ando para escrever há anos e que não consigo acabar. Vou ter tempo para fugir à velocidade dos dias. E nada de vida social! Nada de agenda preenchida com reuniões, encontros, atividades, assinatura de milhares de papéis, deslocações, planificações, respostas a emails, jantares ou almoços, perguntas e mais perguntas e mais perguntas... Que bom, ficar em casa e poder relaxar!

Mas… Sempre, na minha vida, enfim, nas nossas vidas, há “um mas”. E interroguei-me, colocando sempre “um mas” em tudo o que afinal tive de enfrentar: Mas… como será fazer um funeral sem poder agarrar as mãos daquela viúva, que repentinamente ficou sem marido e que chora sem ver ponta de eternidade?

Como será não poder abraçar aquele amigo que partilhava comigo momentos de convivo e alegria e que agora não pode despedir-se do pai, com tempo e serenidade, como se essa dor pudesse durar apenas o instante da presença no cemitério? Como será falar com aquela neta que levou o seu avô ao hospital no início de março e que nunca mais o viu, a não ser agora, transformado num corpo, sem vida humana?

Nunca lhe agradeceu tudo o que lhe deu, tudo o que fez por ela, tudo o que lhe ensinou nesta vida finita, em que tudo pode terminar devido a um ser invisível. A intimidade que procurava com Deus, transforma-se em dureza, em incapacidade, em interrogação, daquelas tão absolutamente interiores, que a resposta não está no livro dos “porquês” que me ofereceram em criança. Porquê? Como?

E se fosse a minha mãe, o meu pai, um dos meus irmãos? Sem despedida. Sem poder agradecer tudo o que me deram. A dor, assim, deve ser insuportável e eu não consigo ajudar a carregá-la. Não posso ser o cireneu que os meus precisam, porque a “cruz” pode estar contaminada. Que aflição por não poder realizar a minha missão!

Espera! Este “mas” inclui também as missas. Eu nunca celebrei missa sozinho. Sei que se pode e deve. Há muitos que fazem. Mas eu nunca fiz. Nunca precisei. Encontrei sempre missa disponível ou algumas pessoas que partilharam a eucaristia comigo. Como será celebrar a Eucaristia sozinho? Quem me responde? Certamente não preciso de fazer homilia! Mas sozinho?!... Estou de frente para a assembleia ou de costas?

Mas se não há assembleia tanto faz. Não consigo e acho que não sei como fazer. Tenho de pensar em alguém que me possa acompanhar. E cá estava “aquele mas”: e se eu contaminar quem está ao meu lado na eucaristia? Será que a Eucaristia pode ser um foco de contaminação em vez de graça? Esqueço tal catadupa de pensamentos e decido pensar na solução: encontrar alguém que me possa ajudar sem a possibilidade de haver contágio. Ok, serão sempre os mesmos três; assim saberemos que o contágio está limitado no número de pessoas, se por acaso vier a acontecer. E as outras pessoas? Os meus paroquianos? Só me resta fazer um direto no Facebook.

Vão dizer que este padre não larga o telemóvel, mas é o que se pode arranjar. E falar para um telemóvel? Bom isso é o menos. É pensar que estou a falar para uma câmara de televisão. Ao menos não tenho ninguém a distrair-me.

Tudo isto aconteceu assim a primeira vez, a segunda vez…. Acontece assim há dois meses. Há um vazio que fica por preencher quando entro na Capela de Santa Luzia para celebrar a eucaristia.

O problema nem é falar para o telemóvel, esse objeto que durante tanto tempo foi visto pelos meus com causa de separação e distração, é agora o único meio de união e comunhão. Nada depende do objeto, mas da forma como o utilizamos.

Até um livro pode ser mau se agredirmos alguém com ele. É algo que talvez tivéssemos aprendido nestes últimos dois meses. Mas a Igreja continua fisicamente vazia. Se há pouco tempo sentia que todos se punham entre mim e Deus, agora sinto que todos precisam de mim para se aproximarem de Dele nas suas casas, nas suas vidas.

Tudo é estranho. É estranho não poder despedirmo-nos adequadamente das pessoas que nos deram tudo na vida. É estranho não haver barulho humano na Igreja quando chego. E, todavia, permanece na minha cabeça esta ideia: esta ausência de vida e de presença fisicamente partilhada, na significa a ausência na vida daqueles que nos são próximos ou que queremos próximos.

E menos ainda, a ausência de Deus. Estamos juntos e em comunhão, porque “o essencial é invisível aos olhos”, mas sensível ao coração.