Pandemia

"Nível 2020: Em atualização"

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Lourenço Medeiros

Lourenço Medeiros

Editor de Novas Tecnologias

Quando soube que íamos fazer uma série de Grandes Reportagens sobre o impacto da pandemia na nossa sociedade, por defeito profissional, pensei imediatamente no que temos chamado o salto tecnológico. O tema foi aprovado sem hesitação.

O problema é como se faz uma Grande Reportagem sobre algo tão importante e transversal e ao mesmo tempo tão vago. Tão vago que levei muito tempo, mesmo com a ajuda de alguns dos melhores jornalistas deste país, para encontrar um título que não fosse tão óbvio e gasto como o salto tecnológico.

O início surgiu naturalmente, boa parte do que vem depois é a minha sorte habitual. Mas como sempre, a sorte faz-se, e com trabalho. O início vem mesmo de uma outra reportagem que já tinha feito sobre as consequências do teletrabalho no PO CH, o Programa Operacional Capital Humano. Porque tinha muitas solicitações para dar exemplos de adaptação, desta ou daquela empresa, ao teletrabalho, pensei numa alternativa menos falada.

Daí a ideia de um organismo que é pura burocracia, não no mau sentido, mas porque o trabalho deles consiste em avaliar candidaturas e distribuir muitos milhões de euros para educação e formação, tanto de adultos como de jovens. Ou seja, há de facto todo um trabalho burocrático que tem que ver com as normas que regem os fundos, o dinheiro não pode ser atirado à rua, mas é muito importante para o país e afeta centenas de milhares de pessoas.

Quando foram para casa, chegaram a aumentar a produtividade

O caso deles é de certa forma exemplar e típico. De um momento para o outro tiveram que se adaptar ao teletrabalho sem terem o equipamento e a formação adequadas. Mesmo assim, quando foram para casa, chegaram a aumentar a produtividade.

Já há um grupo de trabalho interministerial a estudar medidas que poderão ser uma revolução no funcionalismo público. A Cristina Jacinto do PO CH está nesse grupo e explica que o governo quer colocar 25 % dos funcionários públicos em teletrabalho, de forma permanente.

Quando fiz a primeira reportagem no PO CH soube-me a pouco, tinha agora a oportunidade de ouro para mostrar a luta que muitos funcionários públicos travaram e de que quase não se fala.

De conversa em conversa, e o que vou contar levou semanas, além das óbvias entrevistas com responsáveis, acabo por entrar em casa de um dos trabalhadores do PO CH para ver como as coisas funcionam.

Um testemunho para o que aconteceu de bom e de mau

O Miguel trouxe a experiência da adaptação repentina, mas não apenas do pequeno milagre que foi, incluiu as dificuldades de ter toda a família em casa. Como faz parte da Comissão de Trabalhadores, tem informação detalhada sobre as preocupações, e até queixas, dos seus colegas. É um testemunho importante para o que aconteceu de bom e de mau.

A mulher do Miguel, a Rita, é professora e, ao mesmo tempo, mãe de dois rapazes em idade escolar, alunos de outros. Acrescenta não um mas dois pontos de vista fundamentais nesta história. Todos sabemos a adaptação que professores e alunos tiveram que fazer, tão importante que lhe dei a palavra final.

Queria também uma empresa que não tivesse apenas trabalho de escritório, ou seja, não queria um banco ou uma seguradora onde a experiência seria mais ou menos a mesma do PO CH.

Queria uma empresa de frutas e legumes

Andei vários dias a dizer que queria uma de frutas e legumes até me lembrar de um caso que, por uma questão de proximidade, conhecia bem. A Ikea não vende frutas mas mobiliário e objetos de decoração. Mais uma vez, dando um salto de semanas, venho a saber que a Ikea fecha o ano fiscal em Agosto e que nessa altura iriam ser tomadas decisões em relação ao futuro dos métodos de trabalho no grupo.

Ainda por cima, e eu já contava com isso, ao contrário de muitas empresas, na Ikea são bastante transparentes e dispuseram-se imediatamente a participar. Fui com o Odacir Júnior e com o António Simões gravar imagens de uma loja vazia, do escritório, e até do armazém a funcionar para as vendas online antes do verão, para memória, já com a perspectiva de voltar quando tivessem decidido o que iam fazer.

Até um drone nosso andou a voar no escritório e no armazém, foi bem divertido. Existem imagens disto tudo que talvez nunca sejam vistas.

Valeu a pena, não só o funcionamento online foi exemplar, venderam mais de 66 milhões de euros em Portugal, como foram tomadas decisões que implicam até converter, com obras mesmo, os escritórios para uma nova realidade de trabalho.

Esse espaço será quase como um centro de encontro e criatividade quando têm que funcionar cara a cara, deixando para a casa de cada um as tarefas mais solitárias e burocráticas.

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O uso do velho telefone fixo aumentou e muito durante o confinamento

Tinha que falar com quem me pudesse consubstanciar o que se passou em números, daí a entrevista na SIBS, que viu o uso do Multibanco registrar uma quebra de 50% aumentando depois sobretudo os pagamentos online.

A Presidente do .PT confirma, com conhecimento de causa, que muitas empresas fizeram questão de usar ou mudar para o domínio de topo nacional. É importante dar uma imagem de proximidade aos clientes.

A Anacom, pela sua natureza, é mais uma destas instituições que têm meios para tirar o pulso ao país, no caso específico à forma como usamos as comunicações, em casa, no telemóvel, em dados ou por voz.

É curioso que não foram só os dados como seria de esperar, ficámos a saber que o uso do velho telefone fixo aumentou e muito durante o confinamento, mas está a voltar ao normal, quase inexistente.

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Os altos e baixos no comércio online

Uma pesquisa online levou-me a descobrir os muito prestáveis investigadores do Marketing Future Labs que têm feito inquéritos regulares a pedido da Confederação da Indústria Portuguesa.

Mais dados reais, neste caso o que se passou e quais as opiniões de quase um milhar de empresas, quase dois terços a recorrerem total ou parcialmente ao teletrabalho.

Na mesma lógica, mas também porque me tinham já sugerido em conversa que os centros de distribuição de encomendas seriam importantes nesta história, fui parar à Correos, uma empresa que é 51% da Correos espanhola e 49% da portuguesa Rangel. Não queria ir direto aos gigantes da distribuição mundial, não que a Correos seja pequena, mas tendemos a ir sempre aos mais conhecidos.

A Correos já me entregou muitas encomendas feitas online sem que eu soubesse nada desta empresa. Não só tive boas imagens, como fiquei a saber os altos e baixos que aconteceram no comércio online por quem os sente directamente no dia a dia.

Importante também perceber o que se passou com o material informático. Como era de esperar com o confinamento e o teletrabalho os portugueses só não compraram o que não havia em stock.

Daí a J.P. Sá Couto que representa quase 70 marcas, além de ter modelos de computadores específicos para a educação (não, não pararam no Magalhães). O negócio cresceu com a crise, viram reforçado o seu papel até no mercado internacional, venderam cerca de mais 25% em computadores do que em período homólogo e mais 70% em equipamento multimédia. Consideram que os países emergentes estão a ser forçados a dar um salto tecnológico quase sem tempo para pensar.

Tentar olhar para o futuro

Mas além de perceber o que se tinha passado, precisava de tentar olhar para o futuro, aquele exercício que passamos a vida a tentar fazer.

Acontece que sendo muito falível não é de todo coisa impossível e há quem se dedique a isso. Foi assim que dei comigo, finalmente no Ceiia (Centro de Excelência para a Inovação da Indústria Automóvel) em Matosinhos onde queria ir há anos e onde espero voltar amiúde em reportagem.

Muito para além do que o nome indica, aqui também se estuda o que se vai passar com as cidades, com os transportes, quer em termos de protótipos quer mesmo em termos sociais e foi a vez de falar com a investigadora Catarina Selada, que se dedica a estudar os caminhos das smart cities.

Diria que, embora com conhecimento da causa, é o que eu consideraria uma optimista em relação ao futuro. Vê na pandemia uma oportunidade para melhorarmos as cidades, a própria sociedade, que passada a dor poderá ser mais verde, mais eficiente e mais inclusiva.

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Velho companheiro de lutas cruzadas em relação à tecnologia não podia deixar de ouvir o Gustavo Cardoso, investigador do ISCTE e do Obercom, um estudioso de renome internacional que já entrevistei várias vezes ao longo da minha carreira, sempre pela mesma razão.

Dedica a sua vida ao estudo da nossa relação com os Media e com a Internet, era obrigatório nesta reportagem e tal como com outros, tenho pena que não vejam o total da entrevista, ficou tão longa como a reportagem. É uma conversa preciosa sobre nós, e sobre o que aí pode vir.

Ficou de fora, por já não haver tempo, a constatação, na opinião dele, de que os próprios noticiários têm que mudar a abordagem do tratamento da pandemia, sob pena de provocar o desinteresse dos espectadores numa época em que a informação que têm prestado é essencial.

Agora vou confessar que houve quem não me desse a desejada entrevista para este trabalho, o pior, o que quase me envergonha, é o caso da Autoridade para as Condições de Trabalho.

Fazia todo o sentido, queria saber se tiveram queixas para além das que pude constatar, em relação ao teletrabalho que foi difícil, penoso mesmo, para muitas pessoas.

Fazia todo o sentido mas o pedido de entrevista foi liminarmente recusado, depois de muita insistência o máximo que consegui foi que aceitassem perguntas por escrito, algo quase inútil em TV mas que considerei importante mesmo assim.

Aceitaram as perguntas mas simplesmente nunca responderam. Eu entendo que este tipo de instituição deve também prestar informações aos cidadãos. Por alguma razão consideraram que, mesmo com semanas para o fazer, esta reportagem não era o meio indicado.

Tentei a minha sorte também com um dos gurus da moda, que muito respeito, o israelita Yuval Harari, mas tem uma máquina de tal forma montada e tantas solicitações que nem se deram ao trabalho de me responder.

A visão optimista do futurista ou futurólogo

Talvez fosse uma forma de equilibrar a visão optimista do futurista ou futurólogo que de facto aceitou participar.

O Gerd Leonhard vive a estudar e comunicar a sua visão do que estamos a viver e sobretudo do que aí vem. Para referência, penso que só tem um livro editado em Portugal “ Tecnologia versus Humanidade - O Confronto Futuro Entre a Máquina e o Homem “ da Almedina.

Quem quiser conhecer bem o que faz, o melhor mesmo é ir ao YouTube onde encontra imensas palestras gratuitas com o seu pensamento. Não o conhecia pessoalmente e revelou-se ainda mais simpático e disponível do que o que parece. Cerca de uma hora depois do meu pedido por e-mail já estava a responder-me com a sua total disponibilidade, sem se esquecer de mencionar o que me repetiu muitas vezes, que Lisboa é a sua cidade favorita.

Ainda pensei em ir ao seu encontro no estúdio que tem em Genebra na Suíça (é alemão de origem) mas percebemos que seria demasiado complicado, iria perder dias de viagem que na fase do trabalho em que estava eram preciosos.

Havia naquele momento um seríssimo risco de escolhermos um dos muitos voos que foram cancelados. Acabámos por usar o óbvio, uma videoconferência que, para que a qualidade fosse melhor, ele próprio gravou no estúdio e depois enviou o ficheiro, limpo das habituais perturbações na comunicação via Internet. Foi uma curta mas inesquecível conversa.

É sem dúvida o protagonista de alguns dos melhores momentos desta reportagem, com ideias otimistas em relação à sociedade futura, mas muito consciente do que custa uma mudança social como a que estamos já a viver.

Não posso fechar esta longa tentativa de abrir um pouco o livro do que deu origem a esta reportagem sem referir a equipa. Fica aí a ficha técnica, mas acredito que nenhum deles levará a mal se mencionar o Odacir Junior, companheirão de muitas histórias, em vários países, sempre bem disposto, sempre prestável e simpático e sempre com a qualidade de imagem e a criatividade que podem constatar.

O António Simões (4kFly), responsável pelas muitas imagens de drone, e até com rodas nos pés, uma pessoa tão solicitada que é extremamente difícil conseguir um espaço na agenda dele, mas que desta conseguiu fazer tudo o que lhe pedi. Andou de Matosinhos a Almada passando por longas viagens solitárias porque o seu horário não se coadunava com o meu e do Odacir.

O Ricardo Tenreiro, que me aguentou duas semanas inteiras, pegou no meu texto e nas fantásticas imagens e cozinhou aquilo tudo para que respirasse, que tivesse ritmo e fosse agradável de ver, sem deixar de ser informação.

Como um joalheiro pegou no material em bruto que lhe entregámos, puliu, esculpiu, acrescentou música e ambientes para tornar tudo aquilo numa peça visível. É um luxo e um privilégio trabalhar com todos esses que estão aí abaixo, naquilo a que chamamos de ficha técnica mas que é também artística.

Só há um nome que quis ficar de fora, porque de facto só ajudou em poucos mas importantes momentos, o Rogério Esteves que fez alguns dos poucos planos que só me lembrei depois de o Odacir já ter partido para outra reportagem, bem mais perigosa, com o sorriso de sempre.

Ficha Técnica Completa:

  • Jornalista: Lourenço Medeiros
  • Repórter de Imagem: Odacir Júnior
  • Imagem Drone 4kFly
  • Edição de Imagem: Ricardo Tenreiro
  • Grafismo: Sérgio Maduro
  • Produção Editorial: Diana Matias
  • Colorista: Rui Branquinho
  • Pós-produção áudio: Octaviano Rodrigues
  • Legendagem: SPELL
  • Coordenação: Amélia Moura Ramos
  • Direção: Ricardo Costa; Marta Brito dos Reis

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