Papa e a tensão na Igreja

Papa Francisco - Entre a vulnerabilidade de um abalo e a oportunidade de uma reforma (2)

Não haverá outro caminho senão o da clarificação e transparência, mas se todas as dioceses fizerem o mesmo estudo aprofundado que foi feito na Pensilvânia, a Igreja arrisca ter décadas de notícias e escândalos.

Enquanto houver um único caso suspeito ou a memória viva dos dramas vividos e confirmados, qualquer Papa estará previamente condicionado, como os católicos sentirão vergonha e “raiva” pelos pecados da sua Igreja, como testemunha o padre jesuíta Samuel Beirão em missão nos Estados Unidos.

O papa Francisco reconhece: “Um crime que gera profundas feridas de dor e impotência, em primeiro lugar nas vítimas, mas também em suas famílias e na inteira comunidade, tanto entre os crentes como entre os não-crentes. Olhando para o passado, nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado. Olhando para o futuro, nunca será pouco tudo o que for feito para gerar uma cultura capaz de evitar que essas situações não só não aconteçam, mas que não encontrem espaços para serem ocultadas e perpetuadas".

Max Rossi

1. A história da Igreja é também uma história de pecado e corrupção, traições e fidelidade. De tensões que geram ruturas e reformas, umas inclusivas outras fraturantes. A Igreja não é monolítica, nunca foi. Mas o tempo mediático amplia as idiossincrasias, dando uma configuração inédita, redefinindo a exigência.

Embora uma minoria, os «inimigos» do Papa e das reformas do Papa – de várias ordens e interesses – sabem como influenciar. A resposta terá de ter uma escala de grande envergadura, com largo espectro para chegar a dimensões eclesiais que têm sido apontadas pela tradição como intocáveis e, por isso, negligenciadas.

Há que defender a transparência, repensar a formação dos agentes, o celibato obrigatório - o episcopado australiano comunicou à Santa Sé que está disponível para discutir o celibato, admitindo-o como voluntário, conforme recomendou o relatório local sobre abusos sexuais -, o papel do laicado e a corresponsabilidade, permitir medidas preventivamente adequadas[1] com a criação de condições para a maturidade afetiva[2], contrariando tabus como o corpo e a sexualidade[3], explorar outras formas de serviço, organização e missão, atenuar a solidão dos presbíteros, promover a participação e responsabilidade dos fiéis desenvolvendo a sinodalidade e a descentralização, criando instrumentos de democratização e desclericalização, das comunidades-base ao topo da hierarquia.

Um processo que terá de contrariar ou inverter séculos de clericalismo, que, embora pareça hoje paradoxal, surgiu como reação instintiva para controlar a corrupção interna e purificar a fé, evitando a intromissão laical – no caso, aristocrática – na vida da instituição e na escolha do Papa.

O modelo centralizador, clerical e vertical deixou de ser adequado, como intuía o Segundo Concílio do Vaticano e como reforça Francisco: “Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar «descentralização".

A constituição apostólica Episcopalis Communio reforça o papel dos bispos em colegialidade. Recorda que o Sínodo dos Bispos tem poder deliberativo e não meramente consultivo. Sendo um organismo essencialmente episcopal, Francisco adverte que este deve assumir-se como “instrumento apto a dar voz a todo o povo de Deus justamente por meio dos bispos”, refletindo comunhão “entre pastores e fiéis". A instância de uma assembleia episcopal – Sínodo – vem de Paulo VI na sequência do Segundo Concílio do Vaticano e junta bispos de todo o mundo, peritos e convidados, para ajudar o Papa quando este solicita. Ao reafirmar o caráter deliberativo de uma assembleia episcopal, o que nunca aconteceu nas realizadas até hoje, Francisco responsabiliza o episcopado e descentraliza o governo da Igreja.

Vatican Media

2. “É impossível imaginar uma conversão do agir eclesial sem a participação ativa de todos”, avisa ainda o Papa, que atribui parte significativa do problema a um clericalismo que leva a silenciamentos, à ignorância, à elitização com “comunidades, planos, ênfases teológicas, espiritualidades e estruturas sem raízes, sem memória, sem rostos, sem corpos, enfim, sem vidas”.

A «autoridade» da Igreja abusa do poder e da consciência, denuncia Francisco, com um clericalismo narcisista que “anula” a personalidade dos cristãos: “O clericalismo, favorecido tanto pelos próprios sacerdotes como pelos leigos, gera uma rutura no corpo eclesial que beneficia e ajuda a perpetuar muitos dos males que denunciamos hoje. Dizer não ao abuso, é dizer energicamente não a qualquer forma de clericalismo".

Já se ouvem críticas ao azimute anticlerical de Francisco. Está a dar razão, em parte, às mudanças desencadeadas pela reforma protestante? Na verdade, a Reforma antecipou mudanças que a Igreja de Roma assumiria mais tarde, na exegese da Bíblia, por exemplo, ou no reforço da palavra bíblica na vida pastoral. O preconceito deixou há muito de fazer sentido. O cristianismo, como um todo que faz cultura e constrói ideias, exige uma reflexão aberta e transversal na sociedade secularizada.

Francisco não hesitou em enaltecer Lutero nos 500 anos das 95 teses. A Igreja no tempo de Lutero “não era propriamente um modelo a imitar: havia corrupção, mundanidade, apego ao dinheiro e ao poder”, disse o Papa, inaugurando um novo tempo para o diálogo entre cristãos. É inquestionável a importância de os cristãos aprenderem com a história.

Na sequência da Reforma no século XVI, da Modernidade e posteriores movimentos migratórios que recriaram a experiência eclesial, surgiram outros os modelos de gestão e múnus pastoral. Para dar apenas dois exemplos – excluindo as dinâmicas neo-pentecostais centradas na figura do «pastor» líder –, como alternativas ao modelo episcopal, mais piramidal, de concentração de poderes no bispo, as igrejas protestantes desenvolveram, inspiradas também nas comunidades judaicas, um modelo presbiteriano baseado num grupo de responsáveis – anciãos – escolhidos ou eleitos entre a comunidade, e um modelo congregacional, mais horizontal e teoricamente corresponsável, chamando toda a comunidade às decisões.

Ao realçar o papel do laicado, o Segundo Concílio do Vaticano lançou na Igreja católica um dinamismo misto, em que uma responsabilização mais horizontal nas comunidades não põe em causa a autoridade do clero, permitindo o desafio sinodal. Na sequência, foram criados novos movimentos e associações que redefiniram o papel dos leigos mantendo, no entanto, a estrutura de organização piramidal e obediente, com o espaço de autonomia muito controlado e orientado. Era a forma de responder à diversidade de experiências de vida comunitária e de fé num mundo globalizado.

Na prática, e salvaguardando as naturais exceções, a corresponsabilidade é sobretudo exercida quando a Igreja católica tem mais dificuldade em garantir presbíteros nas lideranças locais. Ou seja, é a necessidade que determina e não a genuína vontade de delegação e conversão estrutural.

Noutro âmbito, poderia também colocar-se em debate – porque não? – a participação ativa de todos os fiéis na escolha de um bispo ou de um presbítero como pastor de uma comunidade.

As comunidades podem também, sem preconceitos, ter voz na discussão de temas relevantes na vida da Igreja, como Francisco ensaiou com a auscultação transversal dos crentes num contributo pragmático para os trabalhos do sínodo de bispos sobre a família.

Como já se disse, a crise tem contornos de oportunidade e ganha força a ideia de um amplo sínodo da Igreja católica a partir deste momento concreto, com expressão quase conciliar, mobilizando todos os fiéis católicos e não apenas o episcopado ou especialistas «a dedo», bem como crentes de outras confissões cristãs. A nova constituição apostólica para o Sínodo dos Bispos pode sustentar uma iniciativa deste género.

ANGELO CARCONI

3. Parece ter chegado a hora de a “tolerância zero” deixar de ser apenas uma insistente declaração para passar a ser uma realidade católica. Ao convocar os presidentes das conferências episcopais para uma cimeira em fevereiro de 2019, Francisco dá o sinal. Todas as 160 conferências episcopais são chamadas a fazer o trabalho de casa, seguindo o exemplo da Alemanha e promovendo o levantamento da situação, por mais dura que seja. No caso alemão, um relatório pedido pelo próprio episcopado confirma milhares de vítimas de abusos sexuais por parte de sacerdotes entre 1946 e 2014, a maioria rapazes com idade igual ou inferior a 13 anos. Crimes cometidos por quase 1700 sacerdotes. A estimativa pode até ficar aquém, uma vez que se perderem irremediavelmente provas e possibilidades de testemunho ao longo dos anos. Menos de metade dos casos resultou em acusações formais e processos internos. Em muitos, demasiados, a resposta limitou-se à habitual transferência dos padres para outras paróquias, sem consequências na justiça civil.

Georg Ganswein, secretário do Papa emérito Bento XVI, considera que os abusos de menores são o “11 de setembro” da Igreja católica, uma “catástrofe” que “não está associada a uma única data, mas a muitos dias, a muitos anos e a incontáveis vítimas”. À semelhança do alargado impacto do atentado de Nova Iorque na segurança dos cidadãos, assim a Igreja terá de assumir mudanças de amplo espectro. Francisco pretende fazer, sem rodeias e com transparência, a radiografia deste «lado negro».

Georg Ganswein, secretário do Papa emérito Bento XVI

Georg Ganswein, secretário do Papa emérito Bento XVI

Andrew Medichini

Não sendo um sínodo, a reunião dos presidentes das conferências episcopais com o Papa pode refletir também uma forma diferente de ver a catolicidade. Francisco opta por valorizar o papel das igrejas locais[4] na abordagem ao problema, porque é localmente que o problema se mantém e só com a firmeza e intransigência dos episcopados pode pôr-se em prática a “tolerância zero”.

As conferências episcopais reúnem todos bispos de cada país. O respetivo presidente é apenas representante do coletivo, mantendo cada diocese uma autonomia com obediência ao Papa. Manuel Clemente é o atual presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.

Até à reunião com o Papa, espera-se que as conferências episcopais analisem domesticamente o problema dos abusos sexuais e da pedofilia. E é expectável que o C9 – o conselho de cardeias mais próximos do Papa – trabalhe até lá uma estratégia. Sean O'Malley também é um dos cardeais deste conselho[5].

Durante os trabalhos da reunião do conselho em setembro de 2018, onde se decidiu marcar esta cimeira, o Papa aproveitou a homilia numa missa matinal na Casa de Sta Marta, habitualmente vivida em ambiente de grande proximidade com poucas dezenas de pessoas, para criticar quem se dedica na Igreja apenas a “a escandalizar o povo”. Não o referiu, mas pairou a imagem do arcebispo Carlo Maria Viganò, ex-núncio nos EUA, segundo o qual o Papa teria também encoberto o caso do arcebispo-emérito de Washington, Theodore McCarrick, acusado de abusos sobre jovens adultos.

Na mesma homilia, o Papa disse que um bispo deve dedicar-se à oração e ao povo que serve, “sem refúgio nos poderosos, nas elites”, longe de uma “vida aristocrática”, reconhecendo com humildade a condição de “escolhido”. Na primeira fila, como concelebrantes, estavam os cardeais-arcebispos Sean O’Malley e Oscar Rodriguez Maradiaga, coordenador dos trabalhos do C9. Horas depois, ficou a saber-se que Viganò não ficará sem resposta.


[1] Sublinhe-se o documento da Congregação para o Clero – Ratio Fundamentalis –, de 2016, que introduziu historicamente o cuidado dos menores como uma das preocupações na formação dos novos padres, “vigiando” preventivamente os que que pedem a admissão ao Seminário.

[2] Juan Maria Uriarte, ex-bispo de San Sebastian e autor do livro O Celibato (Ed. Paulinas), analisou casos de pedofilia na Igreja. Entrevistado em setembro de 2018 pelo blogue Religionline, defende que “não existe uma correlação positiva entre celibato e pedofilia”, mas admite ser inadequada a formação dos seminaristas para a maturidade nos afetos e no celibato: “Quando o celibato não se vive bem, acentua o carater de poder, de opressão, de controlo das pessoas”.

[3] O corpo e a afetividade são assumidamente a «questão» na formação dos celibatários. Também a CEP elenca cuidados especiais na seleção de candidatos ao sacerdócio, sugerindo “meios de diagnóstico e recolha de informações específicas sobre o caráter e personalidade do candidato”, o cruzamento de informações “junto de outras instituições formativas, onde o candidato tenha estado, de modo a obter um retrato o mais fiel possível do seu quadro psicológico”, a oferta do “apoio psicológico que for necessário para o saudável amadurecimento psicológico e afetivo, tanto no processo de admissão como nas várias etapas de formação”, acordando de maneira sistemática “a história do próprio desenvolvimento psicossexual”.

Na ação pastoral, o princípio é assumido como regra: “As expressões de afeto far-se-ão com grande prudência; isto é, nada se faça em privado que não se possa realizar em público.”

[4] Não é ainda uma mudança na nomenclatura diplomática, limitando o espaço de ação dos núncios apostólicos e atribuindo funções destes às conferências episcopais. A diplomacia vaticana é uma carreira com grande tradição. Uma alteração radical implicaria custos elevadíssimos e alterações nos acordos concordatários.

[5] Dois dos cardeais deste grupo restrito de conselheiros estão também sob suspeita, de abusos ou de encobrimento, e enfrentam processos judiciais: O australiano George Pell e o chileno Francisco Errázuriz. À data em que este texto foi escrito preparava-se já substituição de alguns membros do C9, alegando-se a necessidade de rejuvenescimento.

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