Papa e a tensão na Igreja

Papa Francisco - Entre a vulnerabilidade de um abalo e a oportunidade de uma reforma (3)  

Como dizer este pontificado? Quantos dias são cinco anos e meio? Quantas conversas, olhares e gestos? Se afeto e proximidade são linguagem, não há compêndios que digam Bergoglio o suficiente para se perceber o alcance de cada momento de sensibilidade ou de cada silêncio de escuta.

13 de março de 2013

13 de março de 2013

Max Rossi

1. Em 2017, o autor deste texto ensaiou com o jornalista António Marujo uma leitura deste pontificado. O resultado foi um livro com 338 páginas, 453 notas e outras centenas de fontes e referências bibliográficas (1). Ter mais notas do que páginas é também sintoma da incapacidade de dizer o que está sujeito à interpretação, como reconheceu o presidente Marcelo Rebelo de Sousa na apresentação da obra. O papa Francisco é testemunha e exemplo de como o ponto de vista condiciona a leitura. Para uns, já passou muito tempo sem avanços consideráveis. Para outros, foram de exorbitância. E há quem entenda que não faz mais, porque não pode. Estaremos perante dessintonias entre o tempo interpretado, o tempo percecionado, o tempo de expetativa, o tempo do possível e o tempo mediático, mais acentuadas em instituições históricas, alicerçadas em modelos de organização verticais, de reação lenta, pressionadas pela velocidade que precipita e fratura para abrir novas vias.

Nessa publicação ousamos falar numa revolução imparável, porque assim entendemos o percurso de Francisco. Há mudanças, acertos, reconsiderações e atualizações na Igreja e, pela Igreja, também no mundo, que têm este Papa como rosto e protagonista. Esses dinamismos estão numa marcha imparável. Não necessariamente irreversível, mas numa imparável expectativa. Parar estes dinamismos levará a uma rutura, porque a eleição de Francisco começou a desenhar já um caminho sem retorno iniciado no Segundo Concílio do Vaticano.

Praça de São Pedro, Vaticano (13 de março de 2013)

Praça de São Pedro, Vaticano (13 de março de 2013)

Eric Gaillard

2. As clivagens, que começaram por ser discretas, com o tempo vão sendo visíveis. Meia hora antes do fumo branco, naquela noite de 13 de março de 2013, a conferência episcopal italiana protagonizou uma gaffe sintomática ao libertar um comunicado no qual felicitava a eleição de Angelo Scola, cardeal próximo de um movimento considerado conservador na Igreja. Quando foi anunciado o nome de Bergoglio, alguns dos que estavam na primeira linha da multidão concentrada na praça de São Pedro não conseguiram esconder a deceção e rapidamente saíram depois de uma saudação tímida. Naquela noite, enquanto se festejava à chuva na praça de S. Pedro com agitadas bandeiras de países sul-americanos, ouviam-se comentários nos corredores do Vaticano, nos cafés em volta e na sala de imprensa. Havia quem dissesse que os cardeais tinham «perdido a cabeça» ao escolher Jorge Mario Bergoglio.

É este o ambiente que acompanha o papa Francisco desde o início. Começou como um cisma «mudo», e, tal como no cinema, chegou já à fase colorida dos efeitos especiais e das fakenews. Quatro cardeais assumiram o protagonismo nesta demanda frente a Francisco, pondo em causa o pensamento pastoral do pontífice numa subtil forma de o acusar de heresia. Agosto de 2018 registou mais um «abalo» cismático com a denúncia do ex-núncio apostólico nos EUA, que, se não foi orquestrada pela ala conservadora, rapidamente se revelou instrumento de um ataque que aparenta ter o mesmo epicentro.

Francisco assumiu as dores da gasta e pesada estrutura administrativa e simbólica da Igreja católica. E não o fez apenas por teimosia pessoal, feitio ou defeito. As reuniões preparatórias do Conclave que o elegeu apontaram esse caminho. Ele segue um «programa». Provavelmente, alguns dos cardeais que dizem agora que Francisco está ir longe demais ou anda lento demais, não tinham a consciência do que significaria este desafio no tempo e no espaço que é o do hoje. É preciso retomar 2013, a situação de crise aguda em que se encontrava a Igreja, a frustração e a espera desenhada entre os católicos, para entender este pontificado. Esperava-se uma mudança e Francisco é visto como a resposta.

No dia 13 de março de 2013, o Papa Francisco pediu "fraternidade" na Igreja, dirigindo-se aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano. Pouco depois de ser eleito, o novo líder da Igreja Católica surgiu na varanda da basílica de São Pedro.

No dia 13 de março de 2013, o Papa Francisco pediu "fraternidade" na Igreja, dirigindo-se aos fiéis reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano. Pouco depois de ser eleito, o novo líder da Igreja Católica surgiu na varanda da basílica de São Pedro.

Stefano Rellandini

3. O cenário político internacional nos anos seguintes também veio reconfirmar a pertinência de Bergoglio na cadeira de Pedro. O Papa argentino, formado entre jesuítas, caminhante nas villas miseria, é voz e pulsar alternativo num mundo em mutação, com medos e assimetrias, construtor de desigualdades, impulsos virtuais e complexados. A assertividade nas palavras, associada à simplicidade desconcertante das opiniões, na pressa das viagens ou no improviso de uma audiência, vão elevando Francisco à concretização de uma espera, em Igreja e no mundo, um «messias mediático» como antevia em 1999 o sociólogo Ignacio Ramonet.
Há o risco de os cristãos ficaram pela «rama» sem perceberem a profundidade. Revisitemos, por exemplo, Fátima, onde realinhou e recentrou a devoção. Ou, como disse frei Bento Domingues, virou tudo do avesso. Terão crentes e devotos percebido o que disse Francisco na Cova da Iria?
O essencial que «comanda» o Papa argentino, dos discursos às cartas e exortações, implica não perder o foco. E o foco é o evangelho, que em Bergoglio pressupõe dois caminhos: misericórdia/inclusão e discernimento/consciência.

(1) Papa Francisco – A Revolução Imparável, 2017, Edição Manuscrito