Papa e a tensão na Igreja

Papa Francisco - Entre a vulnerabilidade de um abalo e a oportunidade de uma reforma (4)

O essencial que «comanda» o Papa argentino, dos discursos às cartas e exortações, implica não perder o foco. E o foco é o evangelho, que em Bergoglio pressupõe dois caminhos: misericórdia/inclusão e discernimento/consciência.

Max Rossi

1. Se há revolução no caminho de Francisco é precisamente porque retoma e reafirma o primado da consciência e do discernimento, o desafio maior de qualquer estrutura de pensamento religioso. A exortação Amoris Laetitia, na qual o Papa fala 33 vezes de «consciência», recorre 28 vezes ao termo «discernimento» e conjuga seis vezes o verbo «discernir».

Nunca um documento papal sobre a família tinha valorizado tanto o papel da consciência. Há um caminho individual a fazer por via do discernimento para a formação da consciência, com o apoio e empenho das comunidades, a começar pelos padres.

No nº 303 desta exortação, o Papa apela a que a consciência das pessoas seja “melhor incorporada na práxis da Igreja em algumas situações que não realizam objetivamente” a conceção de matrimónio católico. Em derradeira instância, é a pessoa, em consciência, num processo de acompanhamento e discernimento – que não deve ser confundido com uma tutela –, que reentra na vida sacramental. Isto implica, como se percebe, uma grande responsabilidade dos pastores para a integração e convivência nas comunidades de fiéis, que têm de ser prioritariamente promotoras de um discernimento ativo, como forma de estar na fé e de viver uma misericórdia libertadora.

Mais do que descentralizar processos administrativos, Francisco procura uma Igreja desclericalizada, corresponsável e aberta à misericórdia. Um desconforto para clero e leigos habituados ao sofá das leis e à rotina das normas, numa atitude que contagia crentes e comunidades. É uma dinâmica revolucionária, para uma mudança que começa na atitude. Não se estranhem assim adversários e adversidades do Papa na Igreja.

A velocidade mediática não facilita a fixação da memória. Mas as reformas do papa Francisco são já visíveis e estruturantes, das mudanças nos dicastérios à exortação que permite o acolhimento de divorciados recasados nos sacramentos.

O C9 tem outra em cima da mesa: a nova constituição apostólica para regular o funcionamento da Cúria Romana. E há uma maior presença de mulheres e de leigos em geral nas estruturas de decisão e representação sediadas no Vaticano, cada vez mais internacionais. Pouco se sabe do trabalho da comissão proposta pelo Papa para refletir sobre a possibilidade de as mulheres chegarem ao diaconado, mas nalguns setores imagina-se até a possibilidade de haver cardinalessas, o que obrigaria a rever a tradição do colégio cardinalício e a alterar o Código de Direito Canónico.

Max Rossi

2. A teologia está ao serviço da Igreja e das pessoas, não o contrário. Ao serviço da vida real e concreta, com criatividade pastoral e disponibilidade para o acolhimento, rejeitando a preguiça. Sem beliscar o edifício doutrinário católico, Francisco propõe um reposicionamento: a doutrina deixa de estar a montante, condicionando, mas a jusante, como proposta que não exclui. A montante está o evangelho interpretado e a interpretar, suporte das periferias, itinerário de justiça, de combate à pobreza e à exclusão.

Não fiquemos apenas pelos sapatos do Papa ou pela cruz peitoral. Jorge Mario Bergoglio é um pensador em ato, um «escutador» do mundo, um pároco numa aldeia global, que vê na família a chave da mudança e no exercício da política a possibilidade de uma redenção. “Esta economia mata”, é talvez a expressão que mais vai colar-se à memória futura do papa Francisco, que tendo garantido que nunca foi “de direita”, também nunca afirmou ser “de esquerda”, embora admita ter sido influenciado por pensadores “de esquerda” na sua formação enquanto cidadão.

Em cinco anos e meio, reforçando palavras que lhe eram conhecidas enquanto arcebispo de Buenos Aires, Francisco falou com frequência da necessidade de reabilitar a política, libertando-a dos mercados endeusados do liberalismo económico e financeiro. Fazer política é uma responsabilidade cristã, diz, um gesto de amor, porque há um amor cívico e político: “o amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as ações que procuram construir um mundo melhor”, como “amor à sociedade” e “compromisso pelo bem comum” (Laudato Si nº 231).

Não será difícil vislumbrar os «inimigos» políticos do Papa argentino, que veem na encíclica Laudato Si, com as questões ambientais como pano de fundo, uma espécie de declaração de guerra. Se somos também à medida do que fazemos com os outros, entende o Papa que nos dizemos também na forma como tratamos a Casa Comum, numa ecologia integral.

Max Rossi

3. Vindo da experiência da vida cosmopolita na América do Sul, o papa Bergoglio reforça a dimensão operativa da misericórdia. A misericórdia não se diz, concretiza o evangelho. É, assim, um Papa do sul a falar para o Norte, na defesa do direito «sagrado» ao trabalho e da cidadania. Uma cidadania que não exclui a dimensão religiosa, a necessidade de as religiões, confissões cristãs e qualquer “pessoa de bem” se associarem, pela diversidade, numa causa comum. Na senda de outros papas, Francisco sublinha o diálogo inter-religioso e ecuménico com momentos pragmaticamente inovadores. Juntou em Roma os beligerantes da Terra Santa – de pouco valeu, mas reforçou o único papel diplomático do qual as lideranças religiosas não devem abdicar. Num mundo com uma “guerra aos pedaços”, como repete, insistiu em não relacionar Islão com terrorismo: “Não nos cansamos de repetir que o nome de Deus nunca pode justificar a violência, só a paz é santa, não a violência”, disse na jornada de oração pela paz em Assis.
Em Istambul rezou na Mesquita Azul, sem quaisquer problemas em admiti-lo. No Mianmar registou uma sintonia entre Buda e Francisco de Assis. Em Cuba teve um encontro histórico com Cirilo, o patriarca ortodoxo de Moscovo. Nos 500 anos do início da reforma protestante, foi à Suécia abrir as comemorações e elogiou Lutero dizendo que lhe reconhecia razões para contrariar a Igreja do seu tempo.

Rezar uns pelos outros e fazer coisas juntos, eis a proposta. O resto é apenas forma: “pensemos no poliedro, é uma unidade, mas com todas as partes diversas”. Ecoa a essencialidade desta atitude de Francisco: “As religiões não podem dormir tranquilas enquanto houver uma criança com fome e sem educação”.

Reformar não é um capítulo que se abre e fecha, assim, sem mais. Em Igreja, não tem descanso, nem fim absoluto. Dos serviços de administração central à validação da mulher nas estruturas de decisão, há outra revolução em curso. Este é afinal o Papa que denunciou as doenças da cúria, os vícios episcopais e as castas cardinalícias. Devem ser mediadores e não gestores, muito menos da consciência das pessoas.