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Microplásticos no Ártico podem acelerar derretimento do gelo

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Entrevista a João Sousa, UICN

Engenheiro biotecnológico de formação, João Sousa trabalha na União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), na Suíça, onde há 5 anos coordena o programa de combate à poluição causada pelos plásticos no meio marinho.

Ao todo, o engenheiro português gere projetos de proteção ambiental no valor de 14,5 milhões de euros. Um deles debruça-se sobre os impactos dos microplásticos no Ártico. Resultados preliminares da investigação em curso indicam, por exemplo, que a presença de microplásticos influencia a formação e derretimento do gelo.

As partículas de plástico mais escuras absorvem a luz do sol e convertem-na em calor. Ao aquecerem, derretem o gelo à volta delas, reduzindo o efeito albedo. O albedo terrestre representa a fração da radiação solar incidente na Terra que é refletida para o espaço, e varia consoante a superfície.

Numa estrada asfaltada essa fração pode ser de apenas 5%, enquanto que na neve pode chegar aos 95%.

Os cientistas têm alertado para que estamos a viver a sexta extinção em massa.

Os resíduos de plástico são o principal fator de ameaça para alguma espécie, ou são apenas mais um fator de pressão que pode ter um impacto negativo e agravar outros problemas?

O plástico é um termo genérico para uma extensa família de polímeros. Os resíduos plásticos mais comuns são resíduos de embalagens. Representam 86% de todos os resíduos plásticos.

Os resíduos plásticos são o principal fator de ameaça para várias espécies. Estão documentadas entre 400 a 700 espécies diretamente ameaçadas por plásticos.

Os impactos podem ser variados, dependendo da espécie. Começamos agora a perceber o potencial cumulativo em termos do impacto dos plásticos. Este mês iremos publicar a primeira pesquisa em que relacionamos a poluição plástica e possíveis impactos na dinâmica de formação do gelo, com impacto nas alterações climáticas.

De que forma é que os microplásticos que também existem no Ártico contribuem para as alterações climáticas?

Estamos a dar os primeiros passos na investigação. Apresentei os primeiros resultados na Academia Real de Ciências em Estocolmo, na Suécia, na semana passada.

Os microplásticos, dependendo da concentração, não influenciam a temperatura do gelo, mas alteram a salinidade à superfície do gelo.

Esta salinidade tem influencia nas trocas gasosas entre a atmosfera e o oceano abaixo do gelo com possíveis implicações na absorção de dióxido de carbono. Dependendo da concentração e da cor, os microplásticos podem também reduzir o efeito Albedo. Uma menor refração da luz solar resulta na conversão dessa luz em energia calorífica.

Das investigações que tem acompanhado a nível internacional, quais os principais impactos dos resíduos plásticos nas espécies e ecossistemas?

São variadas. A começar pelos impactos diretos por ingestão. Nos animais causam infeções, cortes, sufocamento, desnutrição, toxicidade. Nas plantas e corais, redução de luz, contaminação química.

Os plásticos são ainda vetores de vírus e outros agentes patogénicos, vetores de espécies invasoras (introduzidas em ecosistemas sensíveis), emitem gases com efeito de estufa e outros compostos ao longo da sua vida útil e posteriormente.

Uma dessas investigações foi nos Açores que são um arquipélago que, à primeira vista, não associamos ao problema do lixo plástico.

As espécies e o mar dos Açores estão a sofrer impactos significativos?

O AZORLIT foi o primeiro projeto que desenvolvi na UICN com o incrível apoio da Universidade dos Açores e o Observatório para o Mar dos Açores (OMA). Na altura os resultados não eram alarmantes, mas requeriam atenção.

O projeto foi executado de forma a termos dados de base sobre a contaminação em 12 espécies comerciais de peixe. A intenção era voltar a fazer essa pesquisa passados 4 a 5 anos. Está na altura de o fazer e aguardamos financiamento. Relativamente a outras espécies, com certeza que haverá impactos.

Os Açores têm uma biodiversidade incrível e os cetáceos não estarão mais protegidos nos Açores do que noutros locais.

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