Plástico nosso de cada dia

O que mudar num mundo de plástico?

Arnd Wiegmann

Rita Sá

Rita Sá

ANP|WWF – Responsável do Programa Oceano e Pesca

Nas últimas décadas, o plástico tem tido um papel relevante na economia global das sociedades modernas.

As excelentes propriedades funcionais aliadas ao seu baixo custo, resultaram num aumento exponencial da produção global do plástico. A sua persistência e a elevada resistência são características benéficas para determinadas utilizações destes materiais, mas são também as que o tornam nocivo quando rejeitado de forma descontrolada para a natureza. Segundo dados de 2017, a produção mundial de plásticos atingiu cerca de 348 milhões de toneladas, prevendo-se que duplique nos próximos 20 anos e estimando-se que atualmente cerca de 8 milhões de toneladas cheguem aos oceanos todos os anos.

A visão da WWF é uma economia e uma sociedade que tenham tolerância zero para a poluição por plásticos, pelo que esta preocupação tem sido o foco de vários relatórios produzidos recentemente e orientados para diferentes atores de forma a efetivar uma ação e responsabilização conjunta e alinhada de todos os intervenientes da cadeia de valor dos plásticos, motivando uma ação conjunta e concertada contra este tipo de poluição.

Dando continuidade ao trabalho desenvolvido por estas iniciativas globais e pretendendo contribuir para a sua consolidação no combate à poluição por plásticos, a Associação Natureza Portugal que trabalha em associação com a WWF (ANP|WWF) quer chamar a atenção para a vulnerabilidade de Portugal continental para este tipo de poluição. Estes materiais constituem a maior percentagem de resíduos recolhidos no ambiente nacional, na forma de macroplásticos (descartáveis e artes de pesca) e microplásticos, em praias, rios e em espécies aquáticas. Infelizmente, não têm sido ainda avaliados e quantificados os seus impactos ecológicos, sociais e económicos.

Sabemos por exemplo que no sul de Portugal, em 160 aves marinhas analisadas e pertencentes a 8 espécies diferentes (entre as quais, garças, cegonhas, gaivotas, gansos-patola, flamingos), 22,5% dos indivíduos continham plásticos nos seus tratos gastrointestinais. Através de outro estudo ao longo da costa portuguesa, ficamos a saber que em 288 aves analisadas (16 espécies diferentes), 12,9% continham plásticos. Também já sabemos que as espécies de peixe estão também sujeitas à ingestão de microplásticos durante o seu ciclo de vida, e um estudo conduzido em 2015, analisou 263 peixes da nossa costa e de 26 espécies de interesse comercial, dos quais 32,7% possuíam microplásticos no seu trato digestivo. Outro estudo, no estuário do Mondego, mostrou-nos que em 3 espécies de peixes de interesse comercial analisadas (robalo, sargo e linguado), 38% dos indivíduos apresentavam microplásticos no seu trato gastrointestinal.

Apesar dos vários estudos desenvolvidos demonstrarem a presença de microplásticos no ambiente e em espécies aquáticas em Portugal continental, existem ainda muitas questões em aberto, lacunas no conhecimento e incertezas em relação aos seus impactos diretos nestas espécies, nos ecossistemas e na saúde humana, em particular, em relação aos de menores tamanhos. Por outro lado, a exposição humana aos plásticos, nomeadamente de pequenas dimensões (micro e nano), pode ocorrer através da inalação acidental de partículas de fibras sintéticas, ou por exposição oral através da ingestão de alimentos contaminados. Estes estudos estão ainda a ser avaliados pela comunidade científica e apesar de se verificar a sua presença em várias espécies consumidas, água engarrafada e alimentos (mel e sal), existem incertezas sobre os riscos associados ao seu consumo que impossibilitam informar a sociedade de forma efetiva e com a clareza científica necessária.

E qual é o nosso papel na colaboração com a comunidade científica? O sector das embalagens é o mais relevante da produção mundial de plásticos, sendo responsável por cerca de metade dos resíduos plásticos gerados globalmente. Estas têm geralmente uma vida útil muito curta (uma média de 6 meses) e cujo uso muitas vezes é limitado a uns breves segundos (como invólucros de alimentos ou garrafas de plástico). Isto contrasta com os materiais plásticos usados, por exemplo, na construção civil ou na indústria automóvel, que poderão ter uma vida útil média de cerca de 35 anos. O sector das embalagens e de uso único é, portanto, o sector dominante na questão da geração de resíduos e perdas para o ambiente, devendo ser o foco da análise principal da problemática da poluição por plásticos e aquele que deve repensar de imediato a sua contribuição para a mesma. E é nesse sentido que todos podemos ter um papel nas nossas escolhas como consumidor e cidadão ativo, exigindo alternativas às empresas e aos governos, mas sempre com base em conhecimento e evitando erros propagados por desinformação.

A prevenção e o controlo efetivo da emissão de plásticos deverão ser considerados uma prioridade em todo o território nacional e as medidas a implementar deverão estar alinhadas amplamente com os vários sectores que compõem a cadeia de valor dos plásticos, através de abordagens colaborativas em áreas como a legislação, políticas, fiscalização, investigação, investimentos e capacitação, educação e sensibilização pública. Estas recomendações estão alinhadas e ao abrigo da implementação de diretivas regionais, nacionais e internacionais que têm sido implementadas, ou que estejam em vias de implementação, para transição para uma economia azul que diminua a poluição marinha associada aos produtos de plástico.

Não existe uma solução única para o problema complexo (e global) deste tipo de poluição no ambiente, na sociedade e na saúde humana, mas todas as ações concertadas, mesmo que pontuais e implementadas em pequena escala, ou direcionadas para um sector em particular, irão fazer com que a nossa pegada em plástico no ambiente seja amplamente reduzida.

Este é um assunto demasiado urgente de ter resposta e que exige mudanças de hábitos de todos (consumidores, empresas e governos) e para isso precisamos que todos sem exceção se juntem e contribuam para vivermos num mundo menos plástico.

  • O 16.º episódio do "Polígrafo SIC"
    25:04