Plástico nosso de cada dia

Um olhar sobre as histórias dos plásticos

Maria Elvira Callapez

Maria Elvira Callapez

Investigadora Principal, CIUHCT-FCUL

Vivemos num momento de crescente importância e presença de materiais sintéticos/plásticos em todas as esferas da vida. E gostemos ou não, eles irão fazer parte do nosso dia-a-dia por muito tempo.

Parece que vivemos numa época de PLASTICOFOBIA

Nos dias que correm, o plástico é visto por alguns como um material problemático. Parece que vivemos numa época de PLASTICOFOBIA. No entanto, vivemos num momento de crescente importância e presença de materiais sintéticos/plásticos em todas as esferas da vida. E gostemos ou não, eles irão fazer parte do nosso dia-a-dia por muito tempo.

Arnd Wiegmann

Para evitar o sentimento populista sobre os produtos sintéticos, é necessário um entendimento adequado desses materiais para alcançar uma imagem positiva e um desenvolvimento sustentável e inovador. Os plásticos têm revolucionado o nosso quotidiano, trazendo muitos benefícios à sociedade.

Agentes de mudança cultural, penetram diariamente nas nossas vidas, no nosso quotidiano sob as mais diversas formas e funções: são materiais únicos, com propriedades e características incomuns, que os tornam ideais para uma grande variedade de usos. São baratos, leves, resistentes, duráveis, resistentes à corrosão, bons isoladores térmicos e elétricos, versáteis...

Mesmo aqueles que possuem uma imagem negativa dos plásticos, utilizando o adjetivo plástico como sinónimo de falso, superficial, trivial, artificial e aliando, no plano cultural, a palavra “plásticos” a “plasticidade” de uma sociedade, caracterizada por certo artificialismo, por padrões comportamentais postiços, destituídos de conteúdo e valores, usam diariamente e inúmeras vezes os objectos de plástico.

Estando o mundo contemporâneo de tal ordem rodeado de plásticos, porque é que o grande público, desde as classes mais favorecidas até às menos favorecidas economicamente, passando por velhos, jovens, rurais e urbanos, não olha para eles como uma classe especial de materiais

Aly Song

O que sabe o cidadão comum sobre os plásticos e as suas vantagens?

Talvez para a maioria, o plástico esteja associado apenas a objetos baratos, que se compram em qualquer loja e em qualquer lugar e também à poluição ambiental (marinha, sacos de plásticos, aterros, etc..). No entanto, estes objetos devem muito à investigação científica e tecnológica.

Com a velocidade do desenvolvimento tecnológico e científico, os plásticos vão desempenhar um papel cada vez mais importante e sofisticado em nossas vidas. Continuarão a servir importantes áreas como a medicina, electrónica, aeronáutica, indústria automobilística, alimentar, vestuário, calçado, entre outras.

O plástico é também um material sintético, feito pelo homem, não é construído pela natureza e, talvez por isso, é muitas vezes considerado a antítese do natural. Mas será o natural sempre melhor? Existem muitos materiais naturais que são tóxicos-chumbo, arsénio, mercúrio, amianto, cicuta.

Tanto o plástico como o aço são feitos pelo homem, mas isso não os torna antinaturais.

Sem dúvida que os plásticos são fruto do enorme esforço, imaginação e investigação de várias gerações de cientistas. Para produzir os materiais sintéticos, o homem pode fazer uma lista de propriedades que gostaria de incorporar num material e, dentro de certos limites, pode personalizar esse material. Porém, tal tarefa exige o maior investimento, seja do químico mais criativo, do físico, do engenheiro, do designer, do historiador, num campo cada vez mais aberto à exploração de novos materiais e aperfeiçoamento dos existentes.

Zainal Abd Halim

Desde os tempos mais remotos que o homem molda polímeros orgânicos naturais. Porém, muitos dos produtos finais eram frágeis para certas aplicações pretendidas. Para a obtenção de materiais mais resistentes, recorria aos metais, cerâmicas, madeira e vidro.

Até meados do século XIX, os artigos mais comuns do quotidiano (pentes, botões, recipientes, objetos decorativos…) eram feitos de produtos naturais, como chifres, cabelos, cascos, conchas de tartaruga, dentes de elefante, etc.

Ao longo dos séculos, o homem foi aproveitando a plasticidade natural de certos produtos como por exemplo o «shellac», «gutta percha», «bois durci» e borracha natural.

Os polímeros que temos vindo a referir não se podiam obter industrialmente por síntese química, tendo por isso aplicações muito limitadas, dado que existiam em quantidades relativamente pequenas e eram demasiado caros.

Esta situação incentivou o desenvolvimento de novos materiais a menores custos, mais disponíveis do que os tradicionais e em maiores quantidades. Por vezes também surgiam problemas nas suas utilizações e tentou-se melhorar as suas propriedades.

Aparecem assim os plásticos semi – sintéticos, como «vulcanite», «parkesine», «celulóide» e acetato de celulose.

A necessidade de encontrar novos materiais e mais baratos

Muitas técnicas tradicionalmente usadas para fabricar objectos de chifre, como a compressão em folhas planas e a moldação em objectos simples, foram mais tarde adaptadas para os plásticos semi-sintéticos.

A necessidade de encontrar novos materiais e mais baratos levou Alexander Parkes a efetuar pesquisas tendo obtido, em 1862, o nitrato de celulose, um plástico semi-sintético, comercialmente conhecido como «parkesine».

Este produto viria a ter êxito comercial apenas 20 anos depois da sua descoberta. Considera-se, no entanto, que o nascimento da indústria moderna de plásticos data de 1862, o ano em que na Great International Exhibition, em Londres, Alexander Parkes exibiu alguns objetos feitos de «parkesine», nomeadamente medalhões, pentes, botões, bandejas, cabos de facas, canetas, caixas e encadernações.

No entanto, no campo dos semi_sintéticos, o exemplo mais famoso é o do norte americano John Wesley Hyatt que “descobriu”, em 1870, o celulóide, um semi sintético, resultante de uma modificação química da celulose.

Este semi sintético “substituiu” o marfim utilizado no fabrico das bolas de bilhar e rapidamente os seus artigos começaram a ser apreciados e utilizados pelas classes mais abastadas durante a faustosa época vitoriana.

O celulóide, apesar de ter encontrado inúmeras aplicações, era inflamável. Na memória de muitos de nós, permanecerá a triste imagem, passada no “Cinema Paraíso”, filme produzido em 1988 por Giuseppe Tornatore, das labaredas de um violento fogo devidas ao incêndio do filme de celulóide.

O celulóide, de acordo com Robert Friedel, conseguiu estabelecer-se através das suas ligações com a indústria cinematográfica emergente, bem como através da sua aplicação a produtos como bolas de bilhar e sua capacidade de produzir bens de novidade, como ganchos para o cabelo e abridores de cartas, disponíveis para um grande público, pela primeira vez.

A grande descoberta foi a baquelite

Depois do celulóide, a grande descoberta foi a baquelite, levada à grande produção em 1910.

Foi no dia 19 de Junho de 1907 que Leo Hendrik Baekeland (1863-1944), um químico norte americano de origem belga (que renunciou a uma carreira universitária, em Ghent, para se dedicar à indústria, nos Estados Unidos da América), anotou no seu caderno de laboratório a reação química que viria a revolucionar o mundo industrial.

Tal como Hyatt, Baekeland andava à procura de um substituto para o “shellac”, um material caro e muito requisitado devido às suas propriedades isoladoras.

Durante as suas pesquisas e trabalhos laboratoriais, por reação de condensação entre o fenol e o formaldeído obteve a bakelite (baquelite), o primeiro plástico, material totalmente sintético, feito pelo homem.

Criado o novo material, muitos outros se lhe seguiram e como em qualquer revolução, alguns encontraram obstáculos tendo vindo a desencadear sentimentos tão ambivalentes e antagónicos, como simpatia e desprezo, amor e ódio!

Já antes de Baekeland, outros químicos tinham tentado esta reacção mas obtinham substâncias duras, difíceis de moldar e por isso com pouca utilidade.

Porém, ao contrário dos seus antecessores, Baekeland percebeu que só impondo condições de temperatura e pressão específicas, conseguia controlar a dureza das suas resinas e portanto moldá-las.

E foi em resultado desse longo trabalho de investigação sistemática que obteve uma resina moldável, insolúvel e infusível – a baquelite - com boas propriedades eléctricas e mecânicas, com potencialidades comerciais, que de imediato encontrou inúmeras aplicações, nomeadamente, nas indústrias eléctrica, de telecomunicações, automóvel e da rádio.

Um dos fundadores da indústria de plásticos sintéticos

Baekeland tem sido considerado um dos fundadores da indústria de plásticos sintéticos e o primeiro empresário com sucesso nesta indústria.

A bakelite tornou-se sinónimo do estilo moderno porque os produtos, aos quais estava ligada (os rádios por exemplo) tornaram-se eles próprios ícones da modernidade.

A partir do aparecimento da baquelite, tanto o período inter-guerras como o pós-guerra assiste à massificação do consumo de plásticos, nomeadamente dos termoplásticos como os aminoplásticos, o poliestireno, o policloreto de vinilo, o polietileno, os acrílicos, o “teflon”, etc. , materiais bastante significativos no período pós II Guerra Mundial foram substituindo os termoendurecíveis, dominantes durante o período Inter-Guerras.

Estes materiais adquirem, assim, maturidade e independência e deixam de ser vistos como “ersatz”, materiais triviais, de segunda categoria, inferiores, de substituição, de imitação e de facto, provam ser os melhores para fins específicos, ganhando a competição com os materiais tradicionais (vidro, ferro, madeira, ligas metálicas, pedra, porcelana, etc.).

Paradoxalmente ou não, os plásticos dificilmente poderão ser destronados porque cada vez mais a inovação científica e tecnológica permite, a um ritmo extraordinário, o desenvolvimento de novos plásticos, novos processos, novas aplicações e com as características que se pretende.

O plástico, por ser visto como um material milagroso e por estar tão presente no nosso quotidiano, porventura só atrai a nossa atenção no âmbito da discussão sobre poluição ambiental, resíduos tóxicos, co-incineração e ser ou não ser biodegradável.

Embora haja preocupações em torno das implicações ambientais do uso de plásticos, algumas legítimos e outras não, um rápido olhar para a história do material revela o outro lado da questão.

Os plásticos foram originalmente inventados para substituir o marfim, essa substância extremamente "natural", cujo uso hoje é responsável pela extinção de grandes mamíferos, como o Rinoceronte Negro.

Como a maioria dos materiais, os plásticos podem ser usados de forma mais responsável e adequada, quando melhor compreendidos. A realidade é que os plásticos rodeiam-nos e continuarão a ser importantes para nossa vida diária. Um entendimento apropriado desses materiais conduzirá a um desenvolvimento sustentável e inovador.

Arnd Wiegmann

Para o plástico do século XXI, não devemos manter os hábitos de desperdícios de produção e consumo de plástico, do século XX.

Temos a tecnologia para fabricar plásticos melhores e mais seguros, a partir de fontes renováveis, ao invés de combustíveis fósseis finitos, com recurso a produtos químicos que causam danos mínimos ou inexistentes no planeta e na nossa saúde.

Temos políticas públicas que incentivam à construção de melhores sistemas de reciclagem e que até responsabilizam as empresas pelos produtos que colocam no mercado.

Actualmente verifica-se que muitos empresários tentam resolver o problema dos resíduos plásticos, aproveitando a energia que há décadas é desperdiçada nos aterros ... O processo consiste numa pirólise para quebrar os polímeros e transformá-los em petróleo bruto sintético e outros hidrocarbonetos.

Embora jovem, a indústria de plásticos alcançou tal grau de maturidade que já se emancipou da indústria química e atingiu uma respeitável estatura.

Os plásticos demonstram a magia da química e da engenharia dos polímeros que possibilita a transformação de substâncias em produtos com propriedades bastante melhores e diferentes para usos práticos.

Haverá certamente muitos novos caminhos para estes novos materiais e cada um será herdeiro de uma riqueza incalculável não havendo fim para a continuação de descoberta de novos materiais neste campo de grandes potencialidades e sempre aberto.

Corroborando as previsões lançadas em 1940 por Yarsley e Couzens, hoje em dia é mais comum perguntar-se que tipo de plástico se vai utilizar para produzir um artigo, em vez de qual o tipo de material que se vai usar.

Sem exagero, os plásticos continuarão a surpreender-nos por muito tempo pois este é, sem dúvida, um campo em constante evolução e progresso.

As questões Ambientais

Os problemas que atraem a maior parte da atenção pública são os vários relatos de espécies que ingerem ou que se emaranham em plástico.

É sabido que existem preocupações crescentes sobre os efeitos dos resíduos de plástico no ambiente e na saúde humana, embora a produção de plástico continue a crescer aproximadamente a 9% por ano.

Como consequência, a quantidade de plásticos produzidos nos primeiros 10 anos do século actual é próxima do total que foi produzido em todo o século XX.

Muitos dos nossos hábitos de consumo, uso e descarte não são sustentáveis, constituindo perigo para o ambiente e saúde mas permanecem muitas incertezas ...

Partilho da opinião de Andrady e Neal (2009) que consideram que a velocidade das mudanças tecnológicas está a aumentar exponencialmente, de modo que a vida em 2030 será irreconhecível em comparação com a vida actual.

Os plásticos terão um papel significativo nessa mudança por terem o potencial de contribuir para avanços científicos e médicos, para aliviar o sofrimento e ajudar a reduzir a pegada ambiental da humanidade no planeta.

Por exemplo, os plásticos provavelmente desempenharão um papel crescente em aplicações médicas, incluindo transplantes de tecidos e órgãos; componentes leves em carros e aeronaves, como os do novo Boeing 787, que reduzirão o uso de combustível; isolamento superior para casas que utilizam tecnologia fotovoltaica, os componentes para gerar energia renovável ajudarão a reduzir as emissões de carbono e as embalagens plásticas inteligentes poderão monitorizar o conteúdo de alimentos em busca de sinais de deterioração e indicar a qualidade dos produtos perecíveis.

Os problemas imputados, hoje em dia, aos plásticos poderão passar para outra tecnologia que venha a substituir os plásticos.

Como uma alternativa aos plásticos convencionais à base de petróleo, têm sido defendidos os biopolímeros cuja matéria-prima é de biomassa renovável, isto é, de recursos renováveis, como açúcar e milho, estando a sua produção a aumentar nas últimas décadas.

Materiais com funcionalidade comparável aos plásticos convencionais podem agora ser produzidos em escala industrial, são mais caros e respondem por menos de 1% da produção de plásticos.

Estudos indicam que a avaliação da eficácia das medidas implementadas para a redução da abundância de detritos de plástico é complicada pela grande heterogeneidade espacial e temporal nas quantidades de detritos de plástico e também pela nossa compreensão limitada das vias seguidas pelos detritos de plástico a longo prazo.

Algumas soluções para os problemas associados à produção e ao uso de plásticos poderão passar por acções combinadas entre a ciência, tecnologia, indústria e governos com vista à implementação de políticas de maior controlo, a nível mundial, por exemplo sobre determinados aditivos (ftalatos), produtos químicos que servem para melhorar o desempenho dos plásticos, particularmente em embalagens de contato com alimentos, produtos farmacêuticos e brinquedos.

Presentemente, as embalagens representam um terço da produção de plásticos sendo que no período de um ano, a maioria delas é descartada, acumulando-se em aterros sanitários e em habitats naturais.

A reciclagem é uma das ações disponíveis para reduzir esses impactos e representa uma das áreas mais dinâmicas da indústria de plásticos. A reciclagem oferece oportunidades para reduzir o uso de petróleo, as emissões de dióxido de carbono e as quantidades de resíduos que exigem descarte.

Ao comparar os plásticos com outros materiais descartáveis, como o papel, os plásticos, por serem quimicamente resistentes, são persistentes no meio ambiente e é essa longevidade que dificulta muito a sua degradação.

A durabilidade dos plásticos facilita o seu uso numa ampla gama de aplicações, originando também preocupações ecológicas quando este material acaba como lixo.

Uma solução, talvez eficaz, contra o lixo plástico, passará pela utilização e eliminação adequadas, particularmente pela reciclagem, vista como uma estratégia para conservar o material.

O lixo, no entanto, é uma questão comportamental que precisa de ser tratada principalmente através da educação e consciencialização do público.

A produção de plásticos tem aumentado dramaticamente nos últimos 60 anos, de cerca de 0,5 milhões de toneladas em 1950 para mais de 265 milhões de toneladas actualmente (PlasticsEurope 2011).

Qualquer cenário futuro em que os plásticos não desempenhem um papel cada vez mais importante nas nossas vidas parece irrealista.