Plástico nosso de cada dia

Um problema de todos nós

Christopher Kim Pham

Christopher Kim Pham

Investigador IMAR/Okeanos, Universidade dos Açores

Foi em 2012, enquanto analisava imagens de jardins de corais filmadas a 300 metros de profundidade, que tive pela primeira vez consciência do problema da poluição por plásticos nos oceanos.

Quanto mais explorava aquela área do mar profundo do arquipélago dos Açores, mais lixo de origem humana encontrava; naquele caso concreto o mais observado eram as linhas de pesca e outros objetos de plástico. O que deveria ser um local pristino no remoto Atlântico, revelou-se completamente alterado pela presença humana.

Sem dúvida alguma as descobertas daquela época marcaram o meu futuro, sendo que a partir daí a maior parte do meu trabalho científico tem-se baseado em perceber a escala deste problema nos diferentes ecossistemas marinhos dos Açores e os impactos para a vida marinha. Através de vários projetos, tanto nacionais como internacionais, a minha equipa e eu temos vindo a recolher muita informação sobre as quantidades de plástico presentes no ambiente marinho e as suas interações com os organismos que o habitam.

Para obtermos ainda um melhor resultado, durante estes anos temos trabalhado de perto com o Governo Regional dos Açores para desenvolver diversos programas de monitorização que ajudarão a reunir informação de forma a seguir este problema e avaliar o sucesso das medidas políticas que estão a ser tomadas a nível nacional, europeu e mundial.

Uma parte importante do nosso trabalho é a colaboração em programas de educação ambiental com o Observatório do Mar dos Açores (OMA), que tem feito grandes esforços de consciencialização dos mais pequenos e dos adultos, tanto na ilha do Faial como nas restantes ilhas.

Até agora, os nossos resultados demonstram que os Açores estão localizados numa área crítica do Atlântico onde existe acumulação de lixo marinho flutuante que tem origens muito variadas. Temos vindo a encontrar altos níveis de ingestão de plástico em organismos que são chave para o equilíbrio dos ecossistemas.

Ainda mais chocante é o facto encontrarmos tartarugas marinhas e grandes cetáceos também emaranhados em lixo marinho. Os itens de plásticos, incluindo os microplásticos, reveleram estar presentes nos vários ambientes marinhos, desde o oceano profundo, na superfície da água a flutuar, e arrojados nas zonas costeiras à volta do arquipélago.

Estes elementos chegam até às nossas ilhas carregando com eles um problema adicional: poluentes e metais pesados que são adsorvidos por estes fragmentos plásticos e que podem ser libertados novamente, tanto no ambiente como nos animais que os ingerem. Num âmbito de trabalho colaborativo com outros laboratórios portugueses, temos evidências que a exposição ao plástico nalguns animais até é identificável através da análise da gordura.

Os resultados obtidos até à data demonstram que o plástico é um problema global que afeta também as regiões remotas. O facto de cada vez ouvirmos falar mais deste problema é reflexo da sua gravidade e de que estamos a enfrentar um momento crítico. Portanto, as respostas têm que ser imediatas em todos os níveis da nossa sociedade; deixemos de olhar para outro lado, o problema do lixo que chega ao mar é um problema de todos nós.

  • O 16.º episódio do "Polígrafo SIC"
    25:04