Revista do Ano 2017

O ano do Homem

Eraldo Peres

Pedro Benevides

Editor de Política SIC

Vamos ao óbvio: o homem do ano na política tem um nome incontornável e não é António Costa, é Marcelo Rebelo de Sousa.

Em 2017, apareceu onde era suposto ser visto, disse o que era suposto dizer, ditou as regras do jogo quando ninguém sabia jogar, e chegou a comandar tropas quando estas pareciam estar sem general.

Exemplo de tudo isto é o discurso do 17 de outubro, em Oliveira do Hospital.

Escassas 24 horas depois de uma conferência de imprensa desastrosa do Primeiro-Ministro, o Presidente pegou no microfone e ditou uma página importante da memória deste ano político. Fez a intervenção mais dura do mandato, carregou-a de palavras afiadas para apontar e ferir, sem medo de causar dor a quem parecia estar anestesiado.

O problema é que, por mérito próprio, ou por falta de comparência de quem podia rivalizar com ele no palco político, Marcelo já soa a nome gasto. É a escolha óbvia.

Falemos então da surpresa do ano.

António Costa versão 2017, quem és tu?

Em que mês do ano ficou perdido o mestre da habilidade política?

Onde está o líder que em 2015 fintou o adversário já no tempo de compensação para um remate tão certeiro quanto inesperado, escancarando para si as portas do poder?

Onde está o rosto de uma inédita governação à esquerda com parceiros desconfiados mas leais, que mostrou ao país e ao mundo que os impossíveis ainda não existem na política?

Onde está o alquimista que em 2016 parecia ter encontrado o elixir da longa vida ao combinar elementos imiscíveis numa poção igualmente eficaz com os comunistas de cá e com os eurocratas de Bruxelas?

Esse homem, que nos seduziu durante um bom bocado de tempo, desapareceu este ano e não mais voltou a ser visto.

A partir dos incêndios de Junho foi substituído por uma versão mais pobre e com menos brilho, daquelas produzidas em série e com defeito de fabrico.

De repente, olhámos para António Costa e vimos o político do costume. O que nasceu para gritar as boas notícias de megafone em punho e varrer as más para debaixo do tapete, por não saber o que fazer com elas.

O líder mediano a quem falham as palavras e os gestos nos momentos cruciais. E a quem tudo parece acontecer em catadupa. (Logo a ele que não estava habituado a contratempos.) Da caricatura de Tancos ao drama da Legionella, da trágica segunda vaga de incêndios à trapalhada do Infarmed.

A estes e a outros casos, Costa respondeu mal e respondeu torto. Mostrou o seu lado mais frágil e ainda acabou o ano a deixar que um dos parceiros à esquerda o sovasse em público, a ele e ao PS, com a polémica das rendas das renováveis.

Ironicamente, foram as Finanças e foi Mário Centeno (que tantas dores de cabeça chegou a dar com o caso dos SMS) a salvar o ano terrível de António Costa.

O homem que conhecíamos em Janeiro já não é bem o mesmo que está perante nós neste final de Dezembro.

2017 não lhe fez bem.

  • Doente deitada no chão do hospital?
    2:20