Revista do Ano 2017

O aviso de João Lourenço

"Ninguém é suficientemente rico que não possa ser punido, ninguém é pobre demais que não possa ser protegido". O aviso de João Lourenço, deixado a 26 de setembro, na cerimónia de tomada de posse que o consagrou como Presidente da República de Angola, reforçou o optimismo interno. Quarenta anos depois, o país olha para um "novo pai". As eleições deste verão, as primeiras sem Eduardo dos Santos, colocaram no poder um antigo general que não perdeu tempo a impôr mudanças. Há quem fale numa "pequena revolução". Outros receiam que seja apenas uma "dança das cadeiras".

"O que eu quero"

"...Sou um jovem como tu,

Quero a vida ver sorrir

Viajar, ter amigos, ver Luanda a florir

Ver o pôr do sol do nosso país"

A canção de André Mingas é um mantra para muitos jovens angolanos. Em Maio do ano passado, quando Aline Frazão subiu ao palco da Chá de Caxinde, no centro de Luanda, "O que eu Quero" soltou as vozes da audiência.

Na pequena sala de concertos cantou-se sobre ditadura e corrupção, sobre futuro e liberdade.

Nessa altura, Luaty Beirão e os outros 16 activistas ainda estavam presos, condenados a penas pesadas, por se terem juntado para ler um livro. As epidemias de febre amarela e paludismo duravam há um ano e matavam centenas de pessoas, todos os dias. Nos hospitais públicos faltavam médicos, enfermeiros, camas, material hospitalar, medicamentos. Enquanto isso, Isabel dos Santos causava indignação nas redes sociais. Através da conta do Instagram, a filha mais velha do presidente pedia aos angolanos doações para combater a malária. A mulher mais rica de África acabaria por doar 28 mil euros a um hospital pediátrico.

Nessa altura, Angola preparava-se para celebrar quatro décadas de independência. Sobre a guerra fraticida de quase três décadas (500 mil mortos, um milhão de deslocados), tinham já passado 14 anos. Alimentada pelo petróleo, Angola registava um dos maiores crescimentos económicos do mundo, mas mantinha-se líder nos índices de mortalidade infantil. Dos 25 milhões de habitantes, quase 20 milhões viviam em situação de pobreza.

As Nações Unidas classificavam o país como um dos mais desiguais na distribuição de rendimentos e a Transparência Internacional colocava Angola entre os 20 países mais corruptos do mundo.

Em 2015, a quebra do preço do petróleo levantou bandeiras vermelhas num país onde a diversificação económica nunca passara do papel. A moeda angolana, o Kwanza desvalorizava quase 50%. A inflacção ultrapassava os 40%. Os preços dos bens de primeira necessidade disparavam para valores que poucos conseguiam pagar.

Nas várias províncias que a SIC visitou em Maio e Junho do ano passado (Luanda, Lubango, Benguela, Lobito) o estado social é um conceito desconhecido. Há fome, doença, pobreza extrema.

"Não podemos olhar sempre para o mesmo pai", explicaram-nos num dos musseques do Lobito. "Estamos cansados da governação do MPLA, queremos mudança".

As eleições de 23 de Agosto de 2017, as primeiras sem José Eduardo dos Santos, são um dos acontecimentos políticos mais significativos no país desde o fim da guerra civil.

O ex-ministro da Defesa, João Lourenço, é o novo inquilino do Palácio da Cidade Alta. "Ninguém é suficientemente rico que não possa ser punido, ninguém é pobre demais que não possa ser protegido", avisa o antigo general na tomada de posse, a 26 de setembro.

Desde esse dia, o novo presidente pôs em prática aquilo a que o músico Luaty Beirão chamou "uma pequena revolução". João Lourenço exonerou responsáveis em áreas chave, do petróleo aos diamantes, passando pelas empresas públicas de comunicação social e bancos estatais. Houve mudanças nas chefias militares, no comando da polícia e nos serviços secretos. Isabel dos Santos foi afastada da administração da petrolífera estatal Sonangol, a maior empresa do país. Outros dois filhos de José Eduardo dos Santos foram exonerados da gestão da televisão pública de Angola.

O clima é de optimismo, mas há quem receie que se trate apenas de "uma dança de cadeiras". Vários analistas prevêm que João Lourenço não consiga desafiar "as redes de conluio que o levaram ao poder".

José eduardo dos santos, que durante 38 anos anos se sucedeu a ele próprio, foi considerado, pela revista Forbes, o segundo pior presidente africano a seguir a Teodoro Obiang, da Guiné Equatorial. Deixou o poder com uma pensão vitalícia de 90% do salário, direito a habitação, verba para manutenção e apetrechamento de residência, viatura, e motorista a expensas do Estado. Terá protecção económica e imunidade judicial. Uma lei aprovada dois meses antes das eleições faz de Eduardo dos Santos "Presidente da República emérito".

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