Revista do Ano 2018

Porque é que assédio é uma das palavras do ano

A votação para “Palavra do Ano” decorre até dia 31 de dezembro e a vencedora será conhecida nas primeiras semanas de janeiro de 2019. Pode votar no final deste artigo.

Assédio, uma palavra que correu as bocas do mundo em 2018. Movimentos como o “Me Too” (“Eu Também”, em português), ganharam destaque e colocaram o tema do assédio sexual na agenda. Em 12 meses foram muitos os casos revelados, com várias figuras públicas à mistura, e que geraram polémica e muitas opiniões diversas. É, por isso, nomeada para “Palavra do Ano”.

"A ausência de um 'não' não indica consentimento", lê-se num cartaz alusivo aos casos de assédio sexual na Universidade de Stanford, na Califórnia.

"A ausência de um 'não' não indica consentimento", lê-se num cartaz alusivo aos casos de assédio sexual na Universidade de Stanford, na Califórnia.

Elijah Nouvelage

Uma simples pesquisa pelo termo revela centenas, se não milhares, de resultados. Casos de assédio que não escolhem país nem posição social e afetam desde desconhecidos às figuras mais conhecidas do público.

O que diz o dicionário?

Assédio é a importunação insistente e/ou agressiva, geralmente com vista à obtenção de algo. Na vertente sexual, descreve um comportamento indesejado de carácter sexual, sob forma verbal, não-verbal ou física, feito com o objetivo de perturbar ou constranger. É ainda um abuso de posição de autoridade ou poder para obtenção de favor sexual de alguém em posição de dependência ou inferioridade.

Afinal, o que é o #MeToo?

Issei Kato

O movimento, originalmente criado por uma ativista afro-americana, proliferou nas redes sociais no final de 2017, depois de Alyssa Milano revelar ter sido vítima de assédio sexual, apelando a outros internautas que respondessem “Me Too” (“Eu Também”) se tivessem passado por uma experiência semelhante.

Tarana Burke é defensora dos direitos civis e fundou o movimento em 2006, com o objetivo de incentivar mulheres a serem solidárias umas com as outras nos casos de assédio sexual. Depois da revelação da atriz americana no Twitter, o termo cresceu. Menos de 24 horas depois, 53 mil pessoas tinham comentado, com milhares a partilhar casos de violação, assédio ou agressão sexual.

No final do ano passado, o movimento acabou por ganhar uma dimensão mundial com a investigação do New York Times sobre Harvey Weinstein.

Weinstein: de produtor a predador

STEVEN HIRSCH / POOL

O que começou por ser uma denúncia por duas atrizes e algumas mulheres desconhecidas do público, tornou-se num caso com dezenas de alegadas vítimas. Na investigação do jornal americano, Ashley Judd e Rose McGowan revelaram o assédio, violência e discriminação sexual de que foram alvo por Harvey Weinstein, um dos produtores mais poderosos de Hollywood.

Durante anos, o empresário alcançou uma série de acordos extrajudiciais para “calar” atrizes e funcionárias, e pôr fim às denúncias. Os rumores já eram antigos, mas ganharam força com a revelação. Nas semanas seguintes, foram sendo conhecidos os nomes de quem diz ter sido assediado por Harvey.

Asia Argento, que se viria a tornar uma das caras do #MeToo, publicou na altura uma lista no Twitter com os nomes das alegadas vítimas. Eram, no total, 82 mulheres “assediadas sexualmente/violadas/molestadas”, onde a própria estava incluída.

O escândalo rebentou, e as consequências não demoraram a chegar. Foi inicialmente obrigado a abandonar a empresa de cinema que fundou, que mais tarde declarou falência, foi afastado da Academia de Cinema de Hollywood que organiza os Óscares, e expulso do sindicato de produtores de Hollywood e da Academia de Televisão dos Estados Unidos. Acabou ainda por ser alvo de um processo pelo estado de Nova Iorque.

Depois de se entregar às autoridades em maio, acabou por sair com pulseira eletrónica e depois de pagar uma caução no valor de um milhão de dólares (cerca de 860 mil euros). Entretanto, uma das acusações de abuso sexual contra o produtor norte-americano foi anulada em tribunal.

O caso de Ronaldo e Mayorga

Foi, porventura, um dos maiores escândalos do ano. Muito se falou depois da revelação de Kathryn Mayorga ao jornal alemão Der Spiegel. Em entrevista, a norte-americana acusou o internacional português de violação e assédio sexual. O caso remonta a 2009, mas só praticamente dez anos depois ganhou destaque.

Segundo a alegada vítima, ter-se-ão conhecido numa discoteca em Las Vegas no verão daquele ano. Na altura com 24 anos, Ronaldo terá convidado duas mulheres para o quarto de hotel onde estava hospedado. O futebolista e Mayorga terão mantido relações sexuais e a certa altura, Ronaldo terá forçado uma prática sexual contra a vontade da mulher.

Kathryn apresentou queixa às autoridades, mas omitiu o nome de Ronaldo por receio das repercussões. Segundo o processo instaurado, o jogador ter-se-á aproveitado do frágil estado emocional para assinar um acordo de mais de 320 mil euros, para que a mulher mantivesse o silêncio.

Apesar de garantir a sua inocência, as acusações contra Cristiano Ronaldo geraram uma onda de reações a nível mundial. No desporto, outros rostos surgiram ligados a acusações semelhantes. O antigo futebolista internacional inglês Paul Gascoigne, de 51 anos, foi acusado de assédio sexual a uma mulher a bordo de um comboio. Arda Turan foi indiciado pelos crimes de posse ilegal de arma, assédio sexual e agressões. Na Neozelândia, o presidente da Federação de Futebol, Deryck Shaw, renunciou ao cargo na sequência de um escândalo de alegado assédio a jogadoras internacionais.

Culpado ou inocente?

Um debate que atingiu o seu auge em 2018 e inflamou as redes sociais, com as revelações e acusações a serem discutidas um pouco por todo o mundo.

Lucy Nicholson

No início do ano, logo em janeiro, ficou a saber-se que o diretor da companhia de bailado de Nova Iorque iria reformar-se na sequência de denúncias de assédio sexual e abusos verbais e físicos. Na mesma altura, o realizador Paul Haggis foi acusado por quatro mulheres de assédio sexual e, em dois casos, de violação. O Los Angeles Times revelou, entretanto, o testemunho de cinco mulheres sobre os “comportamentos impróprios e assédio sexual” de James Franco.

Uma lista sem fim

Ainda no mesmo mês, os fotógrafos Mario Testino e Bruce Weber, referências na indústria da moda, são acusados de assédio sexual por vários modelos. Uns dias depois, Dylan Farrow, filha adotiva de Woody Allen e Mia Farrow, reiterou numa entrevista televisiva ter sido vítima de abusos sexuais por parte do pai quando tinha apenas sete anos. Também o magnata norte-americano dos casinos Steve Wynn foi acusado de agressão sexual por várias empregadas do seu grupo.

Também em janeiro, uma atriz alegou que Steven Seagal a violou em 1993, quando tinha 18 anos, durante uma festa para celebrar o fim da rodagem de um filme, onde tinha tido um papel secundário.

Já em fevereiro, Donald Trump voltou a ser acusado por uma mulher de a ter assediado sexualmente em 2006, em Nova Iorque.

Os grandes escândalos envolveram nomes como Bill Cosby e Roman Polanski, expulsos da Academia de Hollywood pelo alegado envolvimento em casos de abuso sexual e violação. Morgan Freeman, acusado por oito pessoas de assédio sexual e comportamento impróprio, Kevin Spacey, Casey Affleck, Neil DeGrasse Tyson, Larry Nassar e Brett Kavanaugh.

Assédio na política

A 23 de fevereiro, o vice-primeiro-ministro australiano, Barnaby Joyce, anunciou a sua demissão do cargo no Executivo e na liderança do Partido Nacional, na sequência de uma denúncia por alegado assédio sexual. A posição do vice-primeiro-ministro começou a ser questionada, na altura, quando foi divulgada uma ligação amorosa com uma ex-funcionária.

Líder do Partido Liberal, Malcom Turnbull (lado esquerdo). Vice-primeiro-ministro australiano, Barnaby Joyce (lado direito).

Líder do Partido Liberal, Malcom Turnbull (lado esquerdo). Vice-primeiro-ministro australiano, Barnaby Joyce (lado direito).

David Gray

Dois meses mais tarde o vice-ministro das Finanças japonês, Junichi Fukuda, renunciou também ao cargo depois de ser acusado de assédio sexual a várias jornalistas, o primeiro caso do género no Japão depois de lançado o movimento #MeToo.

KYODO Kyodo

Já no último trimestre, um ministro do Governo indiano, acusado de assédio sexual por 20 mulheres, apresentou a sua demissão. Através de testemunhos divulgados nas redes sociais e na imprensa, várias mulheres acusaram M.J. Akbar, de 67 anos, de má conduta sexual quando este ocupava cargos de responsabilidade no setor da comunicação social.

Um gigante tecnológico que abafou casos

Num documento interno dirigido aos funcionários, depois de o New York Times ter referido que a Google tinha abafado alguns casos de assédio sexual, o diretor-geral da empresa explicou o despedimento de 48 funcionários, entre os quais estavam 13 altos funcionários.

Os casos duraram dois anos, período durante o qual a Google os ignorou, acusou o jornal norte-americano. A notícia motivou um protesto de centenas de engenheiros e funcionários do gigante tecnológico, que abandonaram os postos contra o que consideram ser má conduta da empresa no tratamento das mulheres.

A história de Susana, despedida depois de denunciar o diretor

Os casos não acontecem apenas fora do país, e não afetam só as caras mais conhecidas. É o caso de Susana Vieira. Era funcionária do aeroporto da Madeira e foi despedida por ter acusado o diretor de assédio sexual. 16 anos depois, continua à espera de ser reintegrada ou indemnizada. A história foi contada no Vidas Suspensas.

Assédio moral no local de trabalho

Cristina Tavares foi obrigada a carregar e descarregar sempre os mesmos sacos e impedida de utilizar espaços comuns na corticeira Fernando Couto - Cortiças S.A., depois de ter recorrido ao tribunal por um despedimento ilegal, obrigando a empresa a indemnizá-la e a reintegrá-la.

Por castigo, foi obrigada a carregar e descarregar uma palete com os mesmos sacos todos os dias, desde o início de maio, revelou na altura a CGTP, dizendo ainda que Cristina era "proibida de aceder às instalações sanitárias usadas pelos restantes funcionários" e viu ser-lhe atribuída "em exclusivo uma casa de banho com tempo de uso controlado e sem o mínimo de privacidade, de tal modo que foi obrigada a levar de casa um pano preto para impedir a visibilidade para o interior" desse compartimento.

A corticeira, de Santa Maria da Feira, acabou por ser multada em 31.000 euros pela Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT).

Milhares de denúncias em Portugal

A Associação de Apoio à Vítima (APAV) recebe centenas de denúncias de crimes sexuais por ano em Portugal. Só em 2017, foram registadas 621, das quais 175 relativas a crianças. Já o Ministério Público concluiu 93 acusações por importunação sexual, que envolve propostas de teor sexual através de "piropos", atos exibicionistas e constrangimento e instaurou 870 inquéritos, números que têm vindo a aumentar.

Uma em cada cinco estudantes universitárias de Coimbra admite ter tido algum tipo de pressão sexual. Mais de 94% das estudantes dizem que já foram alvo de assédio sexual. O estudo realizado pelo UMAR revela ainda que cerca de 12,3% das estudantes disseram que já tinham sido violadas.

No início do ano, António Lobo Antunes revelou ter sido assediado por um professor quando era estudante. O escritor fez a revelação durante uma sessão do programa Escritores, no Palácio de Belém.

O assédio parece não escolher raça, género, idade ou estatuto. É um problema cada vez maior, mais frequente, e que promete manter-se sob os holofotes enquanto continuar a ser debatido.

A votação para “Palavra do Ano” decorre até dia 31 de dezembro e a vencedora será conhecida nas primeiras semanas de janeiro de 2019.