Revista do Ano 2018

Porque é que Extremismo é uma das palavras do ano

Atentados, ataques, manifestações de intolerância, racismo, xenofobia e homofobia. São algumas das palavras que descrevem “extremismo”, uma ideologia que continua a crescer e a infiltrar-se nos países ocidentais. Está, por isso, nomeada para “Palavra do Ano” de 2018.

São cada vez mais frequentes as manifestações de intolerância e radicalismo, nomeadamente no espaço europeu. 2018 foi palco de um crescente extremismo que parece não dar tréguas e tem gerado preocupação no panorama mundial.

Mohammed Salem

O que é o extremismo?

O extremismo, ou radicalismo, é uma doutrina que advoga a adoção de medidas extremas como forma de resolução de problemas sociais, políticos e outros. É ainda uma atitude de zelo extremo na defesa de crenças ou opiniões, geralmente acompanhada de intolerância e fanatismo.

Nas redes sociais ou fora delas, o extremismo tem ganho um peso cada vez maior no quotidiano do cidadão comum, quer seja pela abundância de manifestações de apelo ao ódio ou atentados que provocam dezenas ou centenas de mortos.

Período negro em França

Vincent Kessler

Ao longo dos anos, França tem sido um dos países europeus mais atingido por manifestações de extremismo. Em 2015, foi alvo de um dos piores atentados de sempre no país, quando nove 'jihadistas' mataram 130 pessoas e feriram mais de 350. Com milhares de suspeitos numa “lista negra” por radicalismo islâmico, aquele que foi um dos períodos mais negros em França parece ainda não ter chegado ao fim.

No início de 2018, um francês de origem marroquina roubou, a 23 março, um automóvel em Carcassonne, no sul do país, tendo baleado o passageiro e o condutor do veículo, matando o primeiro e ferindo gravemente o segundo, um cidadão português. Depois disso, atirou contra quatro polícias, ferindo um deles.

Já na cidade de Trebés, o mesmo homem entrou num supermercado gritando "Allah Akbar" e afirmando ser um "soldado" do Daesh. Ali, matou um dos funcionários do supermercado e um cliente. O homem matou ainda um tenente-coronel e feriu dois elementos da força especial de intervenção francesa, ligada à polícia nacional. O ataque foi reivindicado pelo Daesh.

Os ataques terroristas ocorreram em Carcassonne e Trèbes e provocaram cinco mortos, incluindo o autor do ataque, Radouane Lakdim, de 25 anos. Fizeram ainda 15 feridos, incluindo o cidadão português Renato Silva, de 26 anos, que foi baleado na cabeça e esteve mais de um mês hospitalizado.

Dois meses depois, a 12 de maio, um cidadão francês, nascido na Chechénia e sinalizado por radicalização, atacou à facada vários transeuntes na zona da Ópera de Paris, gritando "Allah Akbar". Antes de ser abatido pela polícia, acabou por matar uma pessoa e ferir outras quatro. O ataque também foi reivindicado pelo Daesh.

Em abril, o único sobrevivente do grupo responsável pelos atendados de novembro de 2015 em Paris, Salah Abdeslam, foi condenado a 20 anos de prisão pela participação num tiroteio com a polícia belga. Pouco tempo depois, o procurador antiterrorismo francês anunciou que cerca de 40 condenados por terrorismo seriam libertados das prisões francesas durante os anos de 2018 e 2019, considerando que a reentrada na sociedade dos não arrependidos um "grande risco".

Ao longo do ano, as preocupações não diminuíram, apesar de o país começar a regressar ao normal. As cerimónias do Dia da Bastilha, celebrado com um colorido desfile militar em Paris, presidido por Emmanuel Macron, estiveram sob fortes medidas de segurança.

Em novembro, seis pessoas foram detidas pelas autoridades francesas por suspeitas de planearem um "violento" ataque contra o Presidente de França, Emmanuel Macron. Praticamente um mês depois, um homem disparou sobre várias pessoas num mercado de Natal em Estraburgo, provocando pelo pelos cinco mortos. Chérif Chekatt estava sinalizado por radicalização e foi abatido dois dias depois pelas autoridades.

Vaga de atentados pelo mundo

O radicalismo estende-se a todo o mundo, e foram vários os ataques que marcaram o ano de 2018, quer pelo número de mortos e feridos que provocaram, quer pelas ideologias que os suportaram.

Casos como os do condutor que avançou sobre peões numa cidade alemã, o ataque com uma arma branca a agentes da polícia em Liège e o tiroteio numa festa de Carnaval em Manchester.

O vídeo do condutor que colidiu contra as barreiras do Parlamento britânico na tentativa de abalroar peões chocou o mundo. Ainda mais perto, o ataque terrorista a uma esquadra de Barcelona um ano depois dos atentados também em Barcelona e Cambrils, em que morreram 16 pessoas.

No Egito, o Daesh reivindicou o atentado armado a um autocarro de peregrinos cristãos coptas que fez sete mortos. No Afeganistão, foram muitas as pessoas que morreram em resultado de ataques por bombistas suicidas.

Já em dezembro, um atentado no interior de uma catedral brasileira fez pelo menos seis mortos.

Os alertas contra o ódio e a intolerância

Ódio, discriminação e intolerância foram algumas das palavras mais usadas em 2018.

Em ano de eleições presidenciais, o Brasil destacou-se pelos sucessivos alertas contra a intolerância de Jair Bolsonaro, atual presidente do país. Na Alemanha, as muitas manifestações de extrema-direita que juntaram milhares de pessoas geraram grande preocupação a nível internacional.

O Parlamento Europeu está preocupado com o crescimento de grupos neofascistas e neonazis na União Europeia, e por isso apelou à sua proibição. Um receio que também chegou ao Vaticano. O Papa Francisco alertou, em várias ocasiões, para a intolerância em relação às diferenças étnicas, religiosas ou nacionais, que “estão a voltar e a espalhar-se".

Um problema que também atinge Portugal. O aviso é da Amnistia Internacional, que lançou um relatório sobre problemas de direitos humanos, nomeadamente a discriminação de pessoas afrodescendentes, comunidades ciganas e lésbica, gay, bissexual, transgénero e intersexual. O primeiro-ministro, António Costa, apelou à mobilização contra o "populismo, a xenofobia, o protecionismo e os extremismos", que se combatem com "a verdade" e se "vencem com resultados".

Foram muitas as manifestações de extremismo que aconteceram ao longo dos doze meses de 2018. Para o próximo ano, anunciam-se mudanças que podem ser o início de um novo período na luta contra estas ideologias.

A votação para “Palavra do Ano” decorre até dia 31 de dezembro e a vencedora será conhecida nas primeiras semanas de janeiro de 2019.

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