Saúde Mental

A sociedade está preparada para lidar com a doença mental?

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Estima-se que 20% da população portuguesa sofra ou venha a sofrer de uma doença mental. Estará a sociedade preparada para conviver com as pessoas que sofrem de perturbações mentais? Fomos tentar perceber.

"O estigma é um problema da área da doença mental em qualquer país"

Ter uma doença mental não é o mesmo que ter um braço partido. E porquê? Porque a primeira não é visível mas a segunda sim. Muitas vezes, os doentes mentais são vistos como menos capazes de executar determinadas tarefas e por consequência são colocados de parte. Em algumas situações, são também rotulados de violentos, mesmo que não tenham episódios de agressividade no seu historial. Em suma, são alvo de diferentes formas de exclusão e desrespeito pelos direitos.

O psiquiatra Vítor Cotovio considera que "o estigma é um problema da área da doença mental em qualquer país". Refere ainda que a sociedade, apesar de atualmente estar mais preparada para lidar com pessoas com perturbações mentais, ainda não está completamente preparada.

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"Muitas vezes parece que as pessoas têm medo. A imagem da doença mental não é contagiosa como uma infeção mas é contagiosa pelo medo de estarmos perante uma coisa que pode representar a falta de controlo e nós sentirmo-nos sem saber o que fazer. Pensamos: será que aquilo me pode acontecer a mim? E então afastamo-nos do outro com medo que aquilo se cole a nós. E às vezes até pomos rótulos, dizemos que o doente mental é violento e que é preguiçoso, e não é", sublinha.

Em entrevista à SIC Notícias, o psiquiatra reforça a importância da literacia em saúde mental e o contacto com casos de sucesso para desmontar o estigma e os estereótipos associados à doença mental. Considera assim que a sociedade devia ter mais contacto com casos de pessoas com perturbações mentais graves que foram tratadas com sucesso.

"Deve haver uma educação para a saúde mental nas escolas, porque são as crianças e os jovens de agora que daqui a 10 anos poderão já não ter estigma. Porque os adultos já o têm", diz Vítor Cotovio.

Uma das temáticas abordadas no programa da SIC E Se Fosse Consigo?, em 2019, foi a doença mental. Testemunhos de doentes com esquizofrenia e depressão mostraram como a sociedade portuguesa ainda não está totalmente preparada para aceitar e conviver com pessoas com perturbações mentais.

As doenças mentais podem ser prevenidas?

Existem fatores que podem contribuir para o aparecimento de determinadas doenças e ferramentas que nos ajudam a ter um estilo de vida mais saudável e, pelo menos, prevenir algumas patologias.

À SIC Notícias, o psiquiatra Vítor Cotovio explicou que, normalmente, "as perturbações mentais são o resultado de uma interação entre fatores biológicos e fatores psicossociais". "No fundo, o que define uma perturbação mental é o sofrimento, a disfuncionalidade, a intensidade e a persistência daquele quadro".

FATORES PSICOSSOCIAIS

"Obviamente que as situações mais reativas, mais de resposta àquilo que são fatores de ordem psicossocial, teoricamente são mais prevenidas se houver um trabalho acerca daquilo que são esses fatores e no fundo, arranjar ferramentas para que as pessoas tenham recursos de alguma autorregulação, de autogestão, para poderem lidar com aquilo que possam ser fatores stressantes e que podem levar a aumentar a ansiedade ou a deprimir.

FATORES BIOLÓGICOS

Nas situações biológicas, é evidente que o marcador biológico pode levar a que a probabilidade de adoecer possa existir mesmo que não existam tantos fatores psicossociais. Mas os fatores psicossociais podem ser fatores precipitantes de descompensação. Portanto, é sempre importante identificar o que podem ser os fatores psicossociais em pessoas de risco biológico, saber que há situações de vida que são mais traumatizantes e ameaçadoras se a pessoa tiver uma maior vulnerabilidade biológica"

Com isto, Vítor Cotovio volta a sublinhar a importância da literacia em saúde mental, na promoção da saúde e nas intervenções de prevenção.

Devemos cuidar da nossa saúde mental porque...

"Se eu tiver menos saúde mental, provavelmente vou ter mais dificuldade em lidar com as minhas doenças físicas e tenho mais dificuldade e menos disponibilidade em relacionar-me bem quer comigo, quer com os outros", começa por dizer o psiquiatra.

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"Se eu tiver mais saúde mental, provavelmente consigo gerir melhor aquilo que se passa no meu corpo, as minhas dores físicas, dores de alma".

Podemos então concluir que sem saúde mental não há saúde física e que o ser humano funciona como um todo.

Hoje em dia ouvimos muitas vezes as pessoas dizerem que vão ao ginásio porque precisam de melhorar o físico. Há as que querem perder peso, as que vão para ganhar massa muscular ou aquelas que apenas querem adotar um estilo de vida mais saudável e menos sedentário.

Mas o que muitas pessoas não devem saber é que, ao ir ao ginásio ou praticar outro tipo de exercício físico, estão também a cuidar da saúde mental. Vítor Cotovio explica que o exercício físico atua como um "medicamento para a nossa saúde mental".

"O exercício físico aumenta e regula substâncias químicas protetoras, que são substâncias tónicas para a nossa saúde mental e elimina as substâncias tóxicas. O mesmo se aplica à alimentação saudável. Se eu me intoxicar de gordura e açúcares, às tantas crio uma desarmonia na minha componente física que tem efeito no meu equilíbrio mental".

Além do exercício físico, existem também outras práticas que ajudam no desenvolvimento de uma boa saúde mental, como é, por exemplo, o caso da meditação e do relaxamento. Tirar 10 minutos por dia para meditar pode ajudá-lo a baixar os níveis de stress e ansiedade, a ser mais paciente e mais tranquilo e a ter qualidade de vida.

As relações com as pessoas também têm um papel crucial. Devemos sempre tentar relacionarmo-nos com pessoas que nos transmitam boas energias e evitar pessoas tóxicas, que transmitam sentimentos negativos, sugere o psiquiatra.

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