Saúde Mental

"A ponta do iceberg": o impacto "significativo" da covid-19 na saúde mental de crianças e jovens

Elva Etienne

Rita Rogado

Rita Rogado

Jornalista

Uma em cada sete crianças foi afetada pelos confinamentos e mais de 1,6 mil milhões sofreram perdas ao nível da educação. O que é preciso mudar?

As crianças e jovens deverão sentir o impacto da covid-19 na saúde mental e no seu bem-estar durante "muitos anos", avisa a UNICEF, depois de um estudo a pessoas de mais de 20 países. Um em cada cinco jovens sente-se deprimido e com pouco interesse. A economia pode perder quase 390 mil milhões de dólares por ano.

"Uma ponta do iceberg"

As emoções de milhões de crianças, jovens e famílias de todo o mundo foram alteradas com a pandemia. Só daqui a alguns anos é que se poderá avaliar o real impacto da covid-19 na saúde mental, nas relações sociais e na economia. No entanto, as previsões são de que um em cada cinco jovens entre os 15 e os 24 anos se sintam com pouco interesse e deprimidos.

O inquérito internacional, conduzido pela UNICEF e a Gallup e previsto no relatório "A Situação Mundial da Infância", foi feito a cerca de 20 mil crianças e adultos de 21 países.

Uma em cada sete crianças foi afetada pelos confinamentos e mais de 1,6 mil milhões de crianças sofreram perdas ao nível da educação. A perturbação de rotinas, da educação, do lazer e preocupações com a saúde e o rendimento familiar estão a deixar os jovens com medo, revoltados e preocupados com o futuro.

O relatório "A Situação Mundial da Infância 2021 - Na minha Mente: promover, proteger e cuidar da saúde mental das crianças" é uma reflexão alargada sobre a saúde mental no século XXI.

"Com os confinamentos e todas as restrições relacionadas com a pandemia, as crianças perderam anos fundamentais das suas vidas longe da família, dos amigos, das escolas, das brincadeiras, elementos-chave da própria infância", disse, numa nota enviada às redações, a diretora executiva da UNICEF Henrietta Fore.

"O impacto é significativo e é apenas a ponta do iceberg. Mesmo antes da pandemia, demasiadas crianças eram sobrecarregadas com o peso de problemas de saúde mental não resolvidos (...). Não está a ser dada a devida importância à relação entre a saúde mental e os resultados da vida futura", acrescentou.

"A alteração drástica das rotinas, dos hábitos – que inclui as aulas presenciais, o convívio com os amigos e familiares e, também, os desafios socioeconómicos e emocionais das famílias – veio trazer mudanças consideráveis. Mas, a saúde mental já era um desafio anterior à pandemia que veio adensar-se com esta realidade", alega a diretora executiva da UNICEF Portugal, Beatriz Imperatori.

Saúde mental das crianças, adolescentes e cuidadores

As últimas estimativas da Organização Mundial de Saúde referem que mais de um em cada sete adolescentes entre os 10 e os 19 anos têm um distúrbio mental diagnosticado. Quase 46 mil adolescentes suicidam-se anualmente. O suicídio é uma das cinco principais causas de morte neste grupo etário.

Segundo o relatório, apenas 2% dos orçamentos públicos na área da saúde são atribuídos a despesas com a saúde mental.

Economia e as perturbações mentais

As perturbações mentais diagnosticadas prejudicam a saúde, a educação e a evolução das crianças e jovens. É o caso do Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade, autismo, transtorno bipolar, transtorno de conduta, depressão, ansiedade, distúrbios alimentares, incapacidade intelectual e esquizofrenia.

Um novo estudo da London School of Economics revela que a economia pode perder quase 390 mil milhões de dólares por ano devido a perturbações mentais que levam à deficiência ou à morte entre os jovens.

O que é preciso mudar?

As emergências de saúde, como a covid-19, são um dos fatores que influencia a saúde mental de crianças e jovens. Além disso, o relatório aponta também para a combinação entre a genética, a primeira infância - a parentalidade, escolaridade, exposição a violência ou a abuso -, a pobreza e crises humanitárias.

O relatório, que conclui que não há investimento "significativo", apela aos Governos e a parceiros dos setores público e privado para se comprometerem, comunicarem e atuarem em relação à saúde mental das crianças, jovens e prestadores de cuidados. Entre as medidas estão:

  • investimento na saúde mental em todos os setores;
  • integração e ampliação das intervenções, como programas parentais que promovam a capacidade de resposta, a prestação de cuidados e o apoio à saúde mental;
  • "quebra do silêncio" sobre a saúde mental para garantir que são ouvidos.

"A saúde mental é uma parte da saúde física. Não nos podemos dar ao luxo de continuar a vê-la como se assim não fosse", disse Henrietta Fore, diretora executiva da UNICEF

"Durante demasiado tempo, tanto nos países ricos como nos pobres, temos visto muito pouca compreensão e muito pouco investimento num elemento crítico para maximizar o potencial de cada criança. Isto precisa de mudar", acrescentou.

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