SIC 25 Anos

Noite ao relento

Em janeiro de 1993 - tinha a SIC escassos três meses de vida e eu apenas 22 anos -, uma ordem de despejo pôs na rua 650 pessoas que viviam no chamado Lar Panorâmico de Camarate, no concelho de Loures. Pessoas que tinham ali sido alojadas quando vieram das ex-colónias depois do 25 de abril, e outras que, entretanto, tinham ido para ali viver.

Quando chegou a ordem do tribunal, sem outro local para onde irem, ficaram ali mesmo na rua com os seus haveres.

No próprio dia do despejo, foi-nos pedido, a mim e ao repórter de imagem Jorge Ramalho, que passássemos a noite ao relento com os desalojados. Foi uma experiência que nunca esqueci. As pessoas ali na sua fragilidade, sem teto, com tudo o pouco que tinham – mobílias, eletrodomésticos, roupas… - todo o recheio das casas de repente colocado no meio da rua. Poucos, com exceção das crianças mais pequenas, idosos e doentes conseguiram abrigo da Segurança Social.

Dos que ficaram, poucos terão conseguido dormir naquela noite, mas vimos pessoas recolhidas a ensaiarem o descanso possível, deitadas em arcas de madeira ou sentadas em sofás.

De manhã, houve uma imagem que me marcou particularmente (uma imagem que associo à força de seguir em frente na adversidade). Um homem a fazer a barba e a olhar-se num pequeno espelho pendurado nem sei onde, preparando-se para ir para o trabalho.

A aparente normalidade da rotina diária justaposta à anormalidade desesperante, por certo, daquela situação.