SIC 25 Anos

Sorrisos rarefeitos

1994, EVEREST

Arribou ao Acampamento base do Everest às costas de 4 sherpas, ofegante e mal adaptado à altitude de 5400m, mas com um sorriso de bem com a vida. Tinha cabelos brancos e aparentava ter mais de 70 anos.

Era uma personagem singular que apelidámos logo carinhosamente "O Velho".

Quando soubemos as razões da marcha de uma semana pelo glaciar de Khumbu, vimos na história do ancião britânico o pormenor perfeito de reportagem entre as expedições acampadas na vertente sul da montanha mais alta do mundo.

Nessa noite houve festa, e na tenda-messe cantaram-se canções de marinheiros ingleses e cowboys americanos e trautearam-se melodias tradicionais nepalesas. Com o sorriso especial, O Velho assistiu sentado numa espécie de trono, a cadeira giratória das experiências da Expedição Médica britânica, da qual era o principal financiador. Doara o equivalente a 80 mil euros porque acreditava que o dinheiro servia uma causa nobre depois da morte da filha única na montanha.

Ainda traumatizado com os jornalistas que publicaram os pormenores mórbidos do desaparecimento da sua alpinista mais querida, O Velho recusou ser entrevistado. Mas por nos mover o seu exemplo, mesmo assim insistimos em abordagens mediadas pelos médicos. Acabámos, contrariados por aceitar o não definitivo, mas voltámos a falar: na lavagem da roupa no riacho de água gelada; e na madrugada do último ataque ao Everest. Nós, acordados às 4 da manhã, para registar o moral dos alpinistas. Ele, por ter idade para dormir pouco. Na tenda-cozinha, tomámos chá e falámos da neve da Escócia e do sol de Portugal.

O Velho partiu discretamente antes de desmontado o arraial do Acampamento Base, e deixou-nos o tal Sorriso de bem com a vida e a postura serena de quem sentia faltar pouco para juntar-se à filha no Reino das Neves Eternas.

Terminámos pouco depois dois meses de trabalho em condições-limite e uma estada a 5 mil metros de altitude, com 50% do oxigénio respirado ao nível do mar, temperaturas diurnas de 30 graus e noturnas de 20 negativos, uma comida por vezes intragável, e cama num glaciar que estalava e ondulava um metro por semana.

O final de anti-clímax ficou resumido na assinatura da reportagem do outono de 1994: "E assim acaba uma aventura portuguesa no Everest! Ventos superiores a 100 quilómetros/hora sopraram para bem longe os sonhos de Pedro Pacheco e mais 18 alpinistas, apanhados pela pior época de alpinismo dos últimos anos nos Himalaias, vencidos pela montanha que os tibetanos chamam Deusa Mãe do Mundo".

2005, KANGCHENJUNGA

Onze anos depois, na primavera de 2005, regressei aos Himalaias com os alpinistas João Garcia e António Coelho (Tozé). Os telefones-satélite e os computadores portáteis mediatizavam já as aventuras himalaianas mas criavam também uma pressão perversa para relatar diariamente as emoções e os obstáculos inesperados.

No Kangchenjunga, a leste do Everest, registei uma conquista marcada por um ato de heroísmo de "Tshinring dai", "aquele que vive muito tempo" nome sherpa por que João se tornou reconhecido entre os amigos nepaleses após a conquista sofrida, em 1999, do Everest.

A 6 mil metros de altitude, João Garcia resgatou o companheiro acometido de uma apendicite aguda, e numa descida contrarrelógio de 48 horas, acompanhou-o pelas dezenas de quilómetros do traiçoeiro glaciar de Yalung até à pastagem de iaques a 4500 m onde pousou o helicóptero-ambulância.

2006, SHISHA PANGMA

Do Outono de 2006 e da cobertura da primeira expedição lusa a um pico de 8 mil metros guardei outro sorriso único e descobri que as lágrimas não congelam a 30 graus negativos.

A expedição ao Shisha Pangma, a montanha do Tibete que os Antigos veneravam como o Trono dos Deuses, tinha os ingredientes do sucesso com a geração de ouro do alpinismo nacional: João Garcia, Rui Rosado, Hélder Santos, Bruno Carvalho e Ana Silva.

Por razões físicas, Ana e Hélder não atingiram o objectivo no dia em que João, Rui e Bruno chegaram aos 8013 metros. Na descida, Bruno morreu a escassos 400 metros da tenda onde ia pernoitar e celebrar a conquista do primeiro cume de 8 mil metros. Regressei com um dilema deontológico maior que o Everest: como contar sem sensacionalismo uma reportagem com fim triste? Como explicar glória e tragédia na mesma história? Como editar as últimas imagens de Bruno, a alma da aventura?

Operado em Kathmandu, Tozé regressou a Portugal com um jornalista enfermeiro. Com um sorriso maior que o cume de 8586 m, João regressou ao Kangchenjunga e conquistou o pico onde reza a tradição tibetana, os deuses da riqueza guardam os 5 Tesouros das Neves Eternas: ouro, prata, cobre, trigo e os livros sagrados!

Ainda hoje penso no alpinista do sorriso permanente que me fechou só uma vez o semblante para pedir a transcrição da frase de Fernando Pessoa revelada no início da escalada: "Nas encostas dos Himalaias só existem as encostas dos Himalaias. É à distância, ou na memória, ou na imaginação que os Himalaias assumem toda a sua altitude, e até um pouco mais."

In Histórias de Uma Revolução, SIC 20 ANOS, Os Bastidores da Informação

  • 100 mortes e 5.170 casos de Covid-19 em Portugal

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    O número de óbitos subiu de 76 para 100 em relação ao último balanço da DGS, enquanto o número de infetados aumentou de 4.268 para 5.170, mais 902 em relação a ontem. A região Norte continua a ser a mais afetada. A ministra da Saúde diz que a incidência máxima da doença deve acontecer no final de maio. Siga aqui ao minuto as últimas informações sobre a pandemia de Covid-19.

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