Vacinar Portugal

Covid-19. “Os países têm o direito de se proteger"

Jorge Soares considera que as críticas ao "passaporte sanitário" são "injustificadas"

A Comissão Europeia apresentou esta quarta-feira a proposta para o chamado “passaporte sanitário”, um documento que pretende certificar que o viajante está inoculado contra a covid-19. No entanto, a proposta está a gerar polémica e há especialistas que afirmam que este certificado apresenta “questões éticas” e de privacidade.

Jorge Soares, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e presidente e Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, considera “injustificada” a polémica e diz não ver problemas de ética associados a este documento.

“Eu não vejo qual é a dificuldade em as pessoas dizerem “já fui vacinado”, que os países aceitem que a vacinação implica o determinado período de tempo em que a pessoa está protegida e, como tal, entrando noutro país também não está a ser um fator de risco”, afirma em entrevista à Edição da Noite.

O especialista lembra que em países fora do espaço Schengen, dando como exemplo os Estados Unidos, fazem no controlo das fronteiras, para além da apresentação do passaporte, “fazem-lhe uma perguntas, tiraram-lhe uma fotografias” e ainda é necessário fazer um registo das “impressões digitais dos cinco dedos de cada mão”.

“Os países têm o direito de se proteger. Até há um ano as preocupações estavam todas relacionadas com a segurança, não estavam relacionadas com a segurança sanitária. Portanto agora o que se adicionou foi uma outra coisa”, acrescenta.

Jorge Santos lembra que este documento é facultativo e tem como objetivo evitar outros mecanismos de contenção do vírus – como a realização de um teste à covid-19 dentro de um período de 72 horas ou ter de ficar em quarentena. O professor destaca também que a toma da vacina pode não corresponder a uma inoculação certa.

“Quando nós dizemos que uma vacina tem uma eficácia de 90% ou 95%, significa que em cada 100 pessoas que receberam a vacina dez ou cinco não ficam imunizadas, não ficam protegidas. Se passarmos esse passaporte ou certificado a 100 pessoas, há cinco que têm, como se fosse, uma espécie de passaporte falso. Mas isso é um risco que tem de se correr sempre. Não vejo aí que haja grande problema”, conclui Jorge Santos.

Para além disso, o especialista alerta que é preciso “bom senso” para perceber “as limitações para este tipo de documento”. Uma das questões que identifica é o tempo de proteção que a vacina concede e outra é que “as grávidas não fazem vacina”, assim como as crianças e adolescentes. “Não passa pela cabeça de ninguém que os pais não possam viajar com os filhos”, sublinha.