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Covid-19. "A política da Europa no campo das vacinas tem sido um desastre completo"

José Milhazes considera que a "balbúrdia" na União Europeia abre espaço para a propaganda russa.

A Rússia iniciou conversações com os representantes do Governo alemão para a venda da vacina Sputnik V. Esta vacina ainda não recebeu a luz verde da Agência Europeia do Medicamento (EMA), mas o Governo de Moscovo já está a preparar o terreno para a produção do fármaco na Europa. Mesmo sem aprovação do regulador europeu, a Hungria já está a administrar a Sputnik V.

José Milhazes, comentador da SIC, acredita que estas conversações são “uma tentativa de marcar terreno para quando a EMA der o sim à vacina”. Em entrevista à Edição da Noite, o comentador lembra que ainda não estes acordos preliminares não têm definidos quaisquer prazos de entregas ou número de doses que produzidas.

“Não se pode dizer que a vacina russa possa ser comprada aos milhões porque dentro da própria Rússia não existem bases industriais e produtivas para esse fabrico”, diz Milhazes referindo que a vacinação no país está a ser mais lenta do que o esperado.

A aprovação da vacina Sputnik V pela EMA “poderá ser uma ajuda, mas não será nenhum milagre”, considera Milhazes. O comentador afirma que a política europeia para a vacinação tem sido um “desastre completo”, e que isso abre caminho a Moscovo para “utilizar a Sputnik V como arma de propaganda”.

“A Rússia está a utilizar a Sputnik V como arma de propaganda, mas a tarefa russa está a ser facilitada pela balbúrdia que está a acontecer na Europa no campo das vacinas. Se, na Europa, existisse uma resposta coordenada e mais eficaz de produção de vacinas próprias ou aprovadas, então a propaganda russa não iria funcionar. A propaganda russa funciona muito mais do que aquilo que se esperava exatamente devido à incompetência dos dirigentes europeus e não tanto à arte propagandística de Moscovo”, afirma.

Putin queria ser o primeiro a apresentar a vacina

A vacina russa tem levantado várias questões entre a comunidade científica. O anúncio foi feito em agosto de 2020, tendo sido a primeira vacina contra a covid-19 a ser apresentada.

“Putin não poderia permitir que alguém inventasse uma coisa antes da Rússia”, diz Milhazes. O comentador lembra, no entanto, que “a primeira tentativa [de publicar os ensaios] na revista The Lancet falhou. Só à segunda tentativa é que foi olhada com maior seriedade pela comunidade cientifica europeia”

A relação entre a Rússia e a Europa está cada vez mais tensa e a aprovação da vacina é uma das razões. O comentador da SIC explica que “Moscovo está a acusar a EMA de estar a travar este processo” e de que há interesses das agências farmacêuticas europeias por trás. Por outro lado, a EMA “queixa-se que a Rússia não apresenta toda a documentação necessária e a tempo, nomeadamente no que diz respeito à metodologia dos testes da vacina Sputnik V”.