Vacinar Portugal

Covid-19. "Há pessoas que morrem por não estarem vacinadas"

Constantino Sakellarides deixa críticas à atuação da União Europeia na compra de doses.

No dia em que a Direção-Geral da Saúde, o Infarmed e a taks force anunciam a suspensão da administração da vacina da AstraZeneca, Constantino Sakellarides, membro do Conselho Nacional de Saúde Pública (CNSP) e ex-diretor-geral da Saúde, lembra que as vacinas são um "bem escasso" e um "bem vital" e critica a atuação das instituições europeias na aquisição de doses.

“Não esperaríamos que as estações europeias e países europeus se associassem para fazer uma cooperativa inocente de compradores. É de facto, o mínimo dos mínimos que os países europeus podem fazer. O que esperaríamos que fizessem é que se preparassem para controlar a produção. Assegurar que a produção faria deste bem vital um bem menos escasso”, afirma o ex-diretor-geral da Saúde em entrevista à Edição da Noite. E sublinha que “as autoridades europeias do país têm autoridade, ao abrigo da emergência de saúde pública global”.

As razões que justificam esta postura são, para o diretor do CNSP, duas: “A primeira é um certo grau de incompetência, de desconhecimento; a segunda – que é mais delicada – é que nós não estamos ainda na Europa de cidadãos” afirma. E explica: “a primeira obrigação dos governos é promover o bem estar do cidadão, mas parece evidente que esse bem estar não está tão bem representado nas instituições europeias como estão os agentes económicos e financeiros”.

Para Sakellarides, a presidência portuguesa do Conselho da União Europeia deveria fazer “finca pé nesse discurso” e tomar uma posição, em coordenação com os países europeus, para “assumir o controlo da produção da vacina”.

“Pôr isto de uma forma mais crua é dizer que hoje há pessoas que morrem por não estarem vacinadas. É tão simples como isso. A vacina é hoje um bem essencial e a escassez deste bem público é um motivo de grande preocupação”, remata.

Sobre o impacto da recomendação de utilizar a vacina da AstraZeneca apenas a maiores de 60 anos, o ex-diretor-geral da Saúde reconhece que poderá haver um atraso na vacinação das populações mais novas, mas lembra que os grupos de risco são os mais idosos.

“O atraso, apesar de afetar uma população ainda numerosa, não afeta aquelas pessoas que têm maior risco de letalidade associada à doença. Não atrasa a vacinação dos maiores de 60 anos. E essa vacinação de maiores de 60 anos, que é crítica para assegurara uma baixa de letalidade, e portanto não termos pessoas que morrem por não ter vacina”, explica.