Apoio Social

13.05.2021

Refugiados conseguem nova vida através do “Incorpora”

Não falavam português, não conheciam ninguém e não tinham qualquer meio de subsistência quando chegaram a Portugal, há quatro anos. Mãe e filho, refugiados do Zimbabué, tiveram de enfrentar muitas dificuldades até receberem o apoio da Misericórdia de Vila do Conde e conseguirem trabalho, através do Programa Incorpora, da Fundação "la Caixa", em colaboração com o BPI e IEFP

Em 2017, uma mãe de 42 anos desembarcou em Lisboa com o seu filho para fugir da insegurança em que viviam no Zimbabué desde a morte do marido. Apesar de ter recebido ajuda do Conselho Português para os Refugiados (CPR), foram muitas as dificuldades que tiveram de enfrentar. “Tinha de falar uma língua diferente, não tinha nenhum parente ou amigos na Europa”, conta M. “Uma vez foi-me negado o acesso a uma casa de banho e o pior foi da parte de outros africanos de países de língua portuguesa. Conheci um homem que me prometeu ajudar a conseguir um emprego e acabou por ser o meu pesadelo. Fomos resgatados desse homem pela assistência social. Enfrentei muitos desafios em todos os lugares em que trabalhei e fui vítima de discriminação.”

A sua vida começou a melhorar quando se mudou para o Porto em outubro de 2020 e resolveu contactar com a Santa Casa da Misericórdia de Vila do Conde.

M. "sem qualquer rendimento e possibilidade económica, foi acolhida pelo Serviço de Atendimento e Acompanhamento Social (SAAS)” daquela instituição, conta Marina Pinheiro, técnica do Programa Incorpora.

M. e o seu filho R. foram então encaminhados para o Incorpora, no âmbito do qual, no ano passado, lhes foi prestado apoio “ao nível da inserção socioprofissional.”

O jovem R. que sublinha o facto de a sua “vida ter mudado para melhor” após o contacto com o Serviço Social da Santa Casa da Misericórdia em Vila do Conde, arranjou emprego num armazém, através do Programa Incorpora. “Tenho um contrato de seis meses e o trabalho é muito fácil”, diz.

A mãe, trabalha hoje num supermercado, o que considera uma “grande honra”. Elogia a equipa Incorpora da Misericórdia de Vila do Conde que a ajudou a “chegar onde estou”, diz, frisando: “Nunca me senti tão especial, o meu ambiente de trabalho agora é profissional e saudável, ao contrário de antes. Os meus colegas de trabalho na padaria gostaram de mim e estou mostrando as minhas melhores capacidades, apesar da minha dificuldade linguística. Há muito tempo que não me sentia assim feliz.”

Mais do que mudar, “ajudar a encontrar vida”

“O Incorpora, em colaboração com o BPI e o IEFP, surge como uma resposta social inovadora na história de uma Instituição com mais de 500 anos”, que é a Misericórdia de Vila do Conde, diz Marina Pinheiro. “Assim, reveste-se de um serviço complementar às respostas sociais já existentes, permitindo que as pessoas mais frágeis tenham a oportunidade de transformar as suas vidas com recurso à incorporação no mercado de trabalho. Atrevemo-nos a dizer que mais do que transformar vida, muitas das vezes, junto destas pessoas que se encontram à margem e na periferia, precisamos de os ajudar a encontrar vida”, sublinha, notando: “E fazê-lo nesta atitude de incorporar (IN (Dentro) +CORPORE (corpo)), implica um movimento de trazer para dentro do corpo social, conferindo a todas estas pessoas uma forma tangível aos olhos de todos os que por eles passam no caminho.”

Para Marina Pinheiro, trata-se de uma “aventura poética, de todos os profissionais Incorpora, dar corpo a quem vive confinado no medo.” O que os técnicos procuram, nestes casos, é “validar os sofrimentos e os medos que estas pessoas nos trazem, numa atitude empática, mas simultaneamente valorativa.” Através da planificação de um itinerário para a sua integração laboral, vão “obrigando a que saiam do casulo e desconfinem dos medos, permitindo que o potencial de cada um ressurja.”

Este é o trabalho desenvolvido pela equipa da Rede Nacional de 57 entidades sociais que trabalham diariamente para a integração socioprofissional de públicos mais vulneráveis, mas é “também o trabalho junto de uma Rede Social (Vila do Conde/Póvoa de Varzim), que diariamente encaminham e articulam com o serviço Incorpora, e do tecido empresarial que assume uma atitude de responsabilidade social e corporativa”, salienta Marina Pinheiro.

Ao longo de três anos, desde a assinatura do protocolo entre a Fundação “la Caixa” e a Misericórdia de Vila do Conde, já foram ali atendidas cerca de 500 pessoas.

No ano passado, o Incorpora Portugal integrou 1333 pessoas no mercado de trabalho.

O desafio de sensibilizar as empresas para a inclusão

A pandemia trouxe atrelada consigo uma panóplia de desafios que obrigou os técnicos “a sair do casulo e a termos a capacidade de nos reinventarmos” para incorporar mais gente. A prática de visitar presencialmente as empresas, foi posta de lado, dando-se início a um novo modelo de trabalho e articulação com as empresas, “especialmente recorrendo às vias telemáticas (Zoom, Teams, Whatsapp)”, explica Marina Pinheiro, acrescentando que foi o recurso às plataformas digitais que permitiu manter a relação com empresas incorpora “e estabelecemos novos laços,captando e gerindo oportunidades de trabalho, acompanhando as empresas no decurso dos processos de recrutamento e seleção, prestando todo o apoio de assessoria necessário.” No que respeita à prospeção de mercado, “houve igualmente a premência de repensar a estratégia, sendo que a nossa metodologia de trabalho com a captação de novas empresas para a rede Incorpora, se prendeu com o facto de analisar as oportunidades que emergiam em pleno COVID-19 e as empresas que, em vez de despedir colaboradores, tiveram necessidade de reforçar os seus recursos humanos.”

“São inúmeros os incentivos provocados na vida de cada técnico que se dedica a este projeto”, refere Marina Pinheiro. Um dos principais desafios consiste na “transformação dos beneficiários Incorpora, cujos padrões de comportamento e pensamento se encontram enraizados, depois de tantos anos a viverem resignados a uma condição.” A mudança de comportamento e pensamento revela-se “tarefa árdua e, tantas vezes, testando a tolerância e capacidade à frustração de quem trabalha com algumas tipologias de beneficiários.”

Quanto ao trabalho com as empresas, “o desafio é quotidiano e persistente no frenesim dos telefonemas, emails, reuniões e oportunidades emergentes, procurando responder com celeridade às ofertas, realizando o matching com o perfil dos beneficiários”, afirma, notando a necessidade de “sensibilizar o mundo laboral para a inclusão” daqueles que se encontram em situação de exclusão social.