Artes

13.04.2021

Mare Liberum. Integrar os jovens através da arte

Juntar o mar e a arte, e mudar. Esta é a ideia inspiradora do projeto Mare Liberum, que envolve 91 jovens, entre os 12 e os 21 anos, que cometeram crimes e que cumprem medidas tutelares em três centros educativos

Desenvolvido pela Aporvela – Associação Portuguesa de Treino de Vela e a CUSCA – Cultura e Comunidade e com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, este projeto visa a reinserção destes jovens na sociedade e na comunidade educativa, através do estímulo físico (a navegação) e artístico (oficinas de escrita criativa e do teatro).

A participação em sessões de navegação na caravela Vera Cruz, e em oficinas de escrita criativa, fotografia, cinema e teatro, com o mar, o horizonte e a liberdade como temas centrais, contribuem para que estes jovens se reencontrem, aprendam a trabalhar em equipa, ganhem confiança e autoestima.

Fruto de todo este trabalho foi o espetáculo “Monstro em Mim”, apresentado em palco já duas vezes: a primeira, na Caravela Vera Cruz, em outubro de 2019, e a segunda na Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito da mostra Isto é PARTIS, em janeiro de 2020.

Entre os jovens residentes no Centro Educativo Navarro de Paiva, em Lisboa, um dos centros participantes no Mare Liberum, I., de 17 anos, já frequenta as aulas do Curso Profissional em Artes de Espetáculo-Interpretação, no Instituto de Desenvolvimento Social (IDS). Conta como a apresentação pública da peça “Monstro em Mim”, influenciou a sua decisão: “Pedi mais de mim e vi de que era capaz”. Depois do espetáculo, várias pessoas lhe disseram como tinham gostado. “Eu comecei mesmo a pensar nisso, a lembrar-me daqueles momentos, e decidi que ia para teatro”.

Com o apoio da equipa artística da CUSCA (Catarina Aidos e João Custódio), I. fez uma apresentação em vídeo, em que interpreta um excerto de “Angel City”, de Sam Shepard – e candidatou-se a duas escolas: Dom Pedro V, nas Avenidas Novas, e IDS, no Largo da Luz. Entrou nas duas, acabando por escolher o IDS.

Para João Custódio, I. “foi-se apaziguando com ela mesma” durante este processo criativo. “Foi canalizando as recompensas que ia tendo pelo seu desempenho e hoje é uma miúda que venceu em todos os aspetos. É um orgulho imenso para nós porque sentimos que fizemos algo para que isso acontecesse, mas a maior parte é genuinamente dela”.

A medida tutelar de I. já terminou e crescem os seus planos para o futuro: “Já estou a pensar ir para a Faculdade de Teatro e Cinema, na Amadora, quando acabar a escola”.