Artes

05.07.2021

Musibéria, criar arte no meio de Serpa

No local onde antes existia uma antiga fábrica de moagem, junto ao Castelo de Serpa, no Alentejo, há hoje um centro de expressão artística vocacionado, sobretudo, para a música e dança: o Musibéria

Ao longo de 4500 metros quadrados da antiga fábrica, distribuem-se salas reservadas para o ensino da música e da dança, um espaço museológico, vários auditórios e um estúdio, onde já criaram e atuaram centenas de artistas

Este é “um lugar de encontros, de miscigenação de culturas, de cooperação, de possibilidade”, onde “todas as propostas e ações, projetos e programas, se articulam e complementam”, segundo os valores do humanismo e da solidariedade, da cooperação e da interculturalidade, do conhecimento e da criatividade, explica César Silveira, um dos responsáveis da instituição financiada pelo Município de Serpa e por fundos europeus.

Criado com o objetivo de promover a criação artística e o ensino da dança e da música “a partir da matriz cultural ibérica e da sua diáspora”,o Musibéria, no âmbito da planificação da sua atividade anual, “tem como objetivos gerais potenciar o diálogo intercultural e contribuir para a descentralização da oferta artística e educativa.” Já como objetivos específicos, visa “apoiar processos de criação artística; promover a investigação de novas experiências e conteúdos pedagógicos; promover o intercâmbio entre criadores, intérpretes, investigadores e pedagogos; fomentar a aprendizagem em contextos formais e não formais; promover uma programação artística regular e diversificada; editar obras audiovisuais e/ou literárias sobre assuntos artísticos ou educativos e ainda fomentar a cooperação horizontal com instituições de criação, produção, formação e/ou difusão artística e/ou educativa”, refere César Silveira.

Desenvolve assim uma atividade “transversal aos domínios da criação, da formação, da programação, do desenvolvimento pessoal e comunitário e da edição e publicação de obras.”

Uma história que marca Serpa

A história do nascimento do Musibéria remonta aos finais da década de 90, do século XX. A autarquia de Serpa, liderada pelo presidente da câmara João Rocha, desenvolveu um Plano de Reabilitação Urbana do Centro Histórico de Serpa (PRUCHS) que visou promover a recuperação física do centro histórico da localidade, em função da realidade histórico-cultural existente, transformando-se em motor de um processo de desenvolvimento sustentável da cidade e do concelho, conta César Silveira. O PRUCHS identificou e assentou o seu programa em duas linhas mestras de ação, tendo em vista uma especialização de Serpa em dois campos estreitamente ligados à vida cultural do concelho: a música e a arqueologia.

O projeto municipal Musibéria nasce pois como um dos pilares do PRUCHS, tanto na fase de desenvolvimento como na fase operacional, projeto confinanciado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional e pelo Turismo de Portugal.

Uma parte do edifício Musibéria instalou-se na antiga fábrica de moagem estabelecida no início do século XX, por iniciativa da Nova Companhia Nacional de Moagem. Adquirida, em 1942, por Mariano Lopes, comerciante e industrial de Serpa, a sua capacidade produtiva foi amplamente potenciada. Mas na década de 70, este espaço fabril deixou de funcionar e ficou ao abandono até ter sido adquirido, em 2009, pelo Município de Serpa, empenhado em preservar a memória do edifício e da sua anterior atividade.

Dois anos depois, em junho de 2011, o Musibéria é inaugurado, dividindo-se por dois edifícios, um recuperado da antiga fábrica de moagem e outro, novo, dotado de salas para a criação e formação em música e dança, um auditório, um estúdio de som, galerias para exposições e sala para conferências.

Ao financiamento do Município de Serpa, acrescentam-se apoios europeus, sendo a “rede de parcerias institucionais, tanto a nível regional, nacional como internacional, uma âncora e garante que permite ao Musibéria potenciar os seus programas”, diz César Silveira.

Continuar, apesar da pandemia

A pandemia de Covid-19 suspendeu parcialmente as atividades previstas, entre os quais, espetáculos, oficinas, residências artísticas e gravações no estúdio de som. Mas rapidamente se encontraram soluções. “Fomos céleres a migrar para o regime online as atividades formativas, fizemo-lo ainda no decurso do mês de março de 2020”, refere César Silveira. “Gradualmente retomamos as atividades públicas reforçando o compromisso e a confiança do Musibéria com a comunidade.”

Entre os diversos projetos desenvolvidos, destaque para “A minha casa é uma pauta”, resultado da parceria com a companhia de teatro “Lendias d’Encantar” e a Direção Regional de Cultura do Alentejo que permitiu apoiar os músicos da região Alentejo e paralelamente estimular a criação de novas obras musicais.

Esta semana, por exemplo, o Musibéria recebe o guitarrista e compositor, António Eustáquio, que toca guitolão (instrumento da família dos cordofones, baseado na guitarra portuguesa mas com um registo mais grave) para criar e registar um novo álbum.