Educação

31.05.2021

No Gulbenkian Aprendizagem, ninguém fica para trás

Denise e Sidney continuaram ambos em ensino presencial, mesmo enquanto as escolas se mantiveram fechadas
MARCIA LESSA

Com o projeto GAP – Gulbenkian Aprendizagem, dezenas de mentores estão no terreno a ajudar milhares de crianças e jovens a recuperar aprendizagens perdidas durante a pandemia. E às vezes é preciso tão pouco…

Denise e Sidney já andam na escola com outro ar. Denise, a pré-adolescente de olhar doce e personalidade reservada, parece outra, a rir, no meio das amigas. Sidney, com o rap a correr-lhe nas veias, é naturalmente mais expansivo mas com o regresso dos colegas à escola já se pode voltar a distrair no meio do recreio e a perder a noção do tempo sem que deem por ele.

Durante os meses de confinamento, Denise e Sidney andavam com um ar mais desamparado nos corredores desertos e nos recreios abandonados da Escola Básica Maria Keil, em Loures. Filhos de “trabalhadoras essenciais”, em 2021 continuaram ambos em ensino presencial, mesmo enquanto as escolas se mantiveram fechadas. Em 2020, no primeiro confinamento, o caso já foi diferente. Ficaram em casa, que remédio, e o isolamento, a falta de apoio dos professores e do estímulo dos colegas de turma puxaram-nos para trás, em termos de aprendizagens. Foi essa a razão (entre outras) para estarem agora a ter o apoio da Inês Gomes, a mentora da Teach for Portugal que duas vezes por semana se junta a eles e os tenta ajudar a ir mais longe a português, através do programa GAP – Gulbenkian Aprendizagem.

“O gostinho de estar a viver um conto de fadas”

Inês entrou neste processo por mero acaso. Formada em Filosofia, a fazer uma pós-graduação em Arte da Escrita e a pensar fazer mestrado numa área de ensino, não tem contas em redes sociais. A sua vida passa mais pelos livros. Mas no natal de 2020, um primo pediu-lhe, como presente, para aderir ao Instagram e seguir a sua conta. Não imaginava que o pedido a faria receber uma mensagem a encaminhá-la para a campanha de seleção de mentores da Teach for All e à possibilidade de fazer parte do projeto GAP – Gulbenkian Aprendizagem. Passou todo o processo de seleção “com o gostinho de estar a viver um conto de fadas, que me estava a direcionar para o que queria, para algo de significativo”, conta hoje, já com 41 crianças e jovens a seu cargo. Dá-lhes apoio na disciplina de português, ajuda-os a recuperar aprendizagens, a perderem medos, a ganharem confiança, a terem esperança.

“Ajuda a brincar com as palavras”, explica Denise, naquela quarta feira de março que, ainda confinados, Denise, Inês e Sidney se juntaram na biblioteca da escola para ler um excerto do livro A Árvore, de Sophia, e encontrar uma solução para o facto de a aldeia estar a ser engolida pela sombra.

“Quem apanha um autocarro errado é estúpido?”

Para continuar a história começada por Sophia, Sidney não se aventurou pela poesia, como faz sempre que pode. Em cinco linhas sem sinais de pontuação, sugeriu pragmaticamente que se podasse a árvore. Já Denise, que encetou a página com um “era uma vez”, acabou por propor que se expandisse a ilha. Nenhuma das opções estaria certa nem errada. O objetivo era estimular a criatividade, porque “o confinamento não fecha só a porta da escola – fecha também a porta da imaginação”, sobretudo a crianças que “nunca saíram da sua comunidade”, explica a mentora, a quem uma das crianças, que vive com vista para o Tejo, perguntou um dia “o que é um rio?”

Além da criatividade, Inês também estimula, através de jogos, a leitura, o encadeamento de ideias, o começar e acabar frases para que não percam o sentido. Também considera muito importante abordar a questão da dificuldade, do medo do desconhecido, do erro, desmistificar a ideia de que “quem erra é estúpido”. “Quem apanha um autocarro errado é estúpido? E quem puser uma meia diferente da outra, também é estúpido?”, pergunta-lhes Inês.

Tudo tem um certo enquadramento, um contexto. Quando, na primeira sessão, a mentora pediu aos dois pré-adolescentes para partilharem coisas que gostassem de fazer, coisas que gostariam de fazer melhor e coisas para as quais não tinham jeito nenhum, foi surpreendida com um comentário, no final: nenhum adulto antes dela tinha admitido não saber fazer qualquer coisa. É por isso fundamental, diz, transmitir que ali não há escrutínio. Ali, errar é possível e a dúvida é bem-vinda. Só assim se consegue seguir em frente e melhorar.

Denise, que suspira por ir a França e aprender a falar francês, quer ser médica. Para Sidney, o futuro passa pela música – quer ser cantor. Inês está junto deles para os ajudar a recuperar na disciplina de português, mas também a perceberem que podem ambicionar sempre mais e a contrariar o seu meio, que nem sempre permite que tenham perspetivas longas. Nem de propósito, o lema da escola, pelo qual passam todos os dias, parece feito à medida: Investir no presente, acreditar no futuro.