A esperança de um novo pacemaker para tratar a insuficiência cardíaca

Uma equipa de investigadores da Universidade do Porto está a desenvolver um projeto inovador para tratar insuficiências cardíacas graves

Em Portugal existem cerca de 250 mil doentes com insuficiência cardíaca. Cinco a 10% são potenciais candidatos à chamada terapia de ressincronização cardíaca que utiliza pequenos aparelhos (pacemakers) para normalizar a contração do coração. Mas cerca de um terço destes doentes mais graves não responde favoravelmente a esse tratamento com os pacemakers existentes.

O grupo liderado pelo cirurgião Adelino Leite-Moreira, diretor do Departamento de Cirurgia e Fisiologia da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e chefe do Serviço de Cirurgia Cardiotorácica do Centro Hospitalar Universitário São João, está a desenvolver uma investigação para criar um novo pacemaker.

O objetivo é criar um aparelho mais eficiente dos que atualmente existem e que seja também eficaz nos doentes que não têm resultados com o tratamento atual, apresentando “uma elevadíssima mortalidade, comparável às formas mais letais e agressivas de cancro”, afirma Leite-Moreira.

Com o projeto Sequential Cardiac Resynchronization Therapy (SECRET), apoiado em cerca de 370 mil euros pela Fundação “La Caixa”, em parceria com a Fundação para a Ciência e para a Tecnologia (FCT), o médico espera ajudar estes doentes, “bem como desenvolver um conjunto de tecnologias ligadas à criação do dispositivo e abordagens cirúrgicas inovadoras para a implantação do mesmo que irão certamente ter reflexos noutros dispositivos médicos e no tratamento de outras patologias”.

Um novo método para estimular o coração

A principal função de um pacemaker é regularizar a frequência cardíaca (o número de vezes que o coração bate por minuto). Em algumas situações, essa atividade pode estar diminuída ou bloqueada, e o pacemaker permite mantê-la dentro dos valores normais. Contudo, o tipo de pacemaker em que a equipa de Leite-Moreira está a trabalhar “é mais complexo, pois permite sincronizar o batimento cardíaco, nomeadamente a contração dos ventrículos esquerdo e direito e a sua sequência de ativação elétrica, de forma a que o coração funcione de uma forma mais eficiente, o que é crucial em situações de insuficiência cardíaca”, explica.

Esta investigação, que conta também com apoios da Unidade de Investigação e desenvolvimento Cardiovascular (UnIC) da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e do Centro Hospitalar Universitário São João, procura assim desenvolver “um novo método de estimulação do coração” para os casos dos doentes (um terço) que não respondem de forma favorável à terapia com os atuais pacemakers.

Atividade “imprópria para cardíacos”

Iniciada em 2019, a pesquisa sofreu algum atraso devido à pandemia, mas agora está de volta a 100%, assegura o médico.

Envolvendo entre 15 a 20 pessoas, inclui médicos de várias especialidades, como cirurgiões cardíacos, cardiologistas e anestesiologistas, um médico veterinário, pessoal técnico especializado e investigadores com várias formações, como biólogos, engenheiros e bioestatistas. Uma equipa que Leite-Moreira vai coordenando, conciliando a sua atividade clínica de cirurgião cardiotorácico, de investigação, docência e direção de Departamento Universitário como professor catedrático. “Não é fácil”, diz. Mas, “como se costuma dizer, quem corre por gosto não cansa.”

Conta com “o apoio e entusiasmo da equipa brilhante” que dirige e na qual diz delegar “muitas responsabilidades” e, a nível pessoal, “com o apoio incondicional” da família, da “esposa e três filhos maravilhosos, que são sem dúvida o meu grande alicerce e o meu porto de abrigo seguro”, sublinha.

É isso que lhe permite prosseguir a atividade profissional com que sempre sonhou e que junta uma “componente humana forte, com a possibilidade de ajudar o próximo e salvar vidas, e uma componente técnico-científica complexa e desafiante”, atividade essa “exigente, stressante e ‘imprópria para cardíacos’, brinca, sublinhando, no entanto, que “a sensação de realização pessoal por cada vida salva não tem preço” e que não trocaria a sua vida profissional por qualquer outra.