04.05.2021

Mais Esperança

“Incorpora”, Caritas e arqueologia, juntos para criar emprego em Beja

Viviam na rua, excluídos do mercado de trabalho. Hoje, integram a equipa que participa em escavações arqueológicas, em Beja. No âmbito do programa Incorpora, com o apoio da Cáritas Diocesana de Beja e do Projeto Arqueologia das Cidades de Beja

José B. e Luís C., com um passado ligado a consumos de álcool e a doença mental, viviam em situação de sem-abrigo até começarem a ser acompanhados pela Cáritas Diocesana de Beja e serem acolhidos na Comunidade de Inserção, uma instituição que recebe e acompanha pessoas em situação de vulnerabilidade grave, entre as quais, vítimas de violência doméstica, ex-toxicodependentes ou ex-alcoólicos. No início deste ano, foram integrados no Programa Incorpora, da Fundação “la Caixa”, desenvolvido em colaboração com o BPI e o IEFP.

Com a retoma dos trabalhos arqueológicos, no passado mês de março, visando a construção do “Sítio do Fórum Romano de Beja”, a coordenadora do Projeto Arqueologia das Cidades de Beja, Conceição Lopes, solicitou duas pessoas ao Programa “Incorpora” para serem entrevistadas na empresa responsável pela execução dos trabalhos.

Luís e José foram contratados, passando a receber um salário e os respetivos benefícios sociais.

Antes, passaram por um longo período de reabilitação e estabilização do ponto de vista emocional e psicológico “com o suporte e acompanhamento da Equipa Técnica da Comunidade de Inserção, em articulação com a rede comunitária e parceiros sociais na área da saúde mental e formação profissional”, esclarece Márcio Guerra, técnico de acompanhamento do “Incorpora” na Cáritas Diocesana de Beja. “Neste processo é importante que haja uma relação de grande proximidade que permita aferir das competências, gostos e motivações pessoais dos participantes e a partir desse ponto, definir um itinerário personalizado de inserção laboral”, sublinha.

Quando chegou à Comunidade de Inserção da Cáritas de Beja, José tinha a expectativa de conseguir arranjar trabalho logo, conta. Como isso não foi possível, resolveu ir tirar o 9.º ano num curso do Instituto de Emprego e Formação Profissional de Beja, por proposta da equipa da Cáritas, “nunca perdendo a esperança de vir a trabalhar mesmo que fosse como servente na construção civil, por ser a área profissional de maior experiência”, diz. Terminado o 9.º ano, foi então encaminhado para o programa “Incorpora”. “Fui atendido e acompanhado, e criei objetivos através de um percurso de procura de emprego.” Fez também o curso “+ competências”, muito difícil no início “porque nunca tinha mexido num computador e as perguntas também eram um pouco difíceis, mas consegui ultrapassar com muita dedicação e a ajuda da equipa.”

Construir-se através da arqueologia

Até que, em março, lhe propuseram participar nos trabalhos de arqueologia na Praça da República. ”Foi a melhor coisa que me podia ter acontecido, porque estava sem trabalhar e sem rendimentos. Nunca tinha trabalhado na arqueologia mas os conhecimentos da construção civil, ajudaram-me a ultrapassar algumas dificuldades. Com a ajuda da professora Conceição Lopes e do Daniel tenho aprendido muito sobre a história de Beja e adoro muito o que faço, e sinto-me acompanhado pelo “Incorpora” e pela Cáritas.”

“A integração foi fácil, porque em Arqueologia, pela natureza própria do trabalho, no qual todos fazemos de tudo e onde a qualidade do trabalho depende da entreajuda e da compreensão daquilo que fazemos uns e outros e das decisões que tomamos, cada um de nós tem um papel importante na leitura dos arquivos da terra”, diz Conceição Lopes.

Como membros da equipa, como participantes e aprendizes, Luis e José “têm acesso a toda a informação que se recolhe e a todo o conhecimento que se produz na escavação e ao modo como se faz a recolha e o registo.” Cada um, “no seu modo e gosto, se disponibilizou para as tarefas que necessitamos de realizar e ambos se foram ajustando à medida que iam compreendendo o sentido de andar ‘a cavar terra, a recolher cacos e desenhar muros’ e foi muito gratificante assistir à importância que a escavação tomou na sua vida”, refere a diretora do projeto.

“As coisas que em paralelo decorrem, como conhecer os ovos moles que o arqueólogo Daniel traz de Aveiro, ou a conversa em francês que o senhor Luís Coelho tem oportunidade de desenvolver com o arquiteto Francesco e a tradução que faz para o colega, podem parecer de pouca importância mas a sua importância num processo de capacitação e aquisição de competências é significativo”, nota.

Já em setembro de 2015, através de uma parceria entre a Cáritas Diocesana de Beja e o Projeto Arqueologia das Cidades de Beja, tornou-se possível a participação de vários utentes voluntários nas escavações arqueológicas que visavam a limpeza de todo o logradouro do Conservatório e Templo Romano de Pax Julia, bem como na Casa da Moeda do Século XV.

O projeto Arqueologia das cidades de Beja pretendeu associar, desde o início, valências inscritas nos princípios da ciência cidadã e, claramente, nos da Arqueologia Social Inclusiva, explica Conceição Lopes. “Privilegiando uma abordagem que objetiva o encontro do conhecimento do passado com a cidade atual e a conjugação de ambos numa perspetiva de participação e desenvolvimento da comunidade, é um projeto que assume “como observação fundamental a dinâmica de interação entre os habitantes da cidade e o espaço urbano e, nessa medida, os processos de recriação e reciclagem do espaço muito para além das intervenções veiculadas por ideologias de poderes.” A comunidade “é um elemento ativo nesse projeto de construção.

“Fizeram-me ver que havia um futuro”

A sensibilidade social por parte de toda a equipa de arqueólogos e da própria empresa, foi essencial agora para acolher estes dois homens. A arqueologia possibilitou “integrar pessoas com características especiais, cujo progresso tem sido notório e de grande orgulho para todos os envolvidos”, observa Márcio Guerra.

Todo o processo contou com um acompanhamento de proximidade, considerado como uma “grande vantagem”, tanto para o “Incorpora”, como para “as empresas a que a ele recorrem” e que sabem da existência de uma rede de técnicos que acompanham as pessoas.

A integração de José e de Luís “demonstra que existe espaço na sociedade para que pessoas em situação de sem abrigo, acolhidas em alojamentos temporários ou de emergência, podem ser chamados a contribuir para a sociedade, passando de beneficiários de apoios sociais, para contribuintes do sistema público”, salienta Márcio Guerra.

“Quando fui acolhido na Comunidade de Inserção da Cáritas Diocesana de Beja cheguei sem expectativas de emprego e muito menos de vida. Com a ajuda de toda equipa técnica fizeram-me ver que havia um futuro e uma hipótese de me levantar de novo. Ao fim de quatro meses fui encaminhado para o “Incorpora” para poder começar a trabalhar a minha reintegração no mercado de trabalho e iniciei uma formação no programa + competências que sinto que foi muito benéfico por estar a utilizar a internet com o uso devido e de não estar a utilizar por utilizar” afirma Luis. Quando me foi apresentada a hipótese de integrar os trabalhos arqueológicos, fiquei muito contente, por me sentir prestável, com rotinas e responsabilidades, completamente diferente dos últimos quatro meses, onde me sinto acarinhado, aceite e compreendido pela equipa de arqueólogos, que me têm ensinado também sobre a história romana de Beja.”

Oportunidades para pessoas com vulnerabilidades

Segundo Márcio Guerra, a Cáritas Diocesana de Beja “está perfeitamente alinhada com a missão e método de trabalho do Programa Incorpora que “permite a integração dos públicos vulneráveis independentemente da entidade de origem, tendo por base a possibilidade de mobilidade geográfica no território nacional por parte do participante.”

No âmbito da atuação que desenvolvem, procuram “construir uma relação com as empresas que respeitem o trabalho digno, com direitos”, bem como a legislação laboral em vigor. Tendo em conta que os públicos alvo da Caritas “são pessoas com especificidades e doenças associadas”, Márcio Guerra diz que a ação é orientada no sentido de “que haja efetivamente uma responsabilidade social na adaptação do posto de trabalho a eventuais características dos nossos participantes facilitando a sua integração e gerando oportunidades laborais a pessoas com incapacidades, mães solteiras, desempregados de longa duração, pessoas com mais de 45 anos, entre outros”.

Se os empresários “tiverem em atenção a qualidade da vida laboral dos funcionários, o recurso mais precioso de uma empresa, contribuem decisivamente para a harmonização entre trabalho e família, cujo fator é determinante na produtividade do seu negócio e esse é também o nosso papel no âmbito do programa “Incorpora”.

A nível nacional e em 2020, em plena pandemia, o programa Incorpora estendeu a sua rede a todo o território continental, gerando 1333 novos postos de trabalho em colaboração com 508 empresas. Das pessoas integradas, 105 apresentam incapacidade e as restantes dividem-se por outros grupos com dificuldades de encontrar emprego, entre as quais, pessoas com mais de 45 anos, jovens em risco de exclusão social ou pessoas migrantes.

A Rede Incorpora integra 58 entidades sociais com 113 técnicos, que atenderam 5415 pessoas em risco de exclusão social. Geriu 2573 ofertas de trabalho e visitou 1764 empresas para apresentar o programa.