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Milhares de peruanos protestam contra políticos corruptos

EDUARDO CAVERO

Milhares de pessoas manifestaram-se na quarta-feira no Peru contra os políticos do país, num protesto motivado pelos escândalos de corrupção e pela crise desencadeada pela moção para destituir o Presidente que é votada esta quinta-feira.

A mobilização na capital, Lima, mas também noutras cidades do interior do país, teve lugar na véspera de um dia crucial para o futuro político do Peru, dado que o Congresso, controlado pela oposição, com a maioria absoluta do 'fujimorismo', vai votar esta quinta-feira uma moção para destituir o Presidente do país, Pedro Pablo Kuczynski.

Os manifestantes exigiram a dissolução do Congresso, com novas eleições gerais e até uma nova Constituição, se os parlamentares decidirem destituir o Presidente, argumentando que a maioria das formações políticas ou os principais líderes estão envolvidos no caso da construtora brasileira Odebrecht, no centro do maior escândalo de corrupção da América Latina.

Sob o 'slogan' 'Deixem os corruptos irem', a marcha, que percorreu as principais ruas do centro histórico de Lima, também foi uma advertência para uma eventual rutura da ordem democrática.

Isto porque o Congresso tramita, num caso separado, acusações contra quatro juízes do Tribunal Constitucional e contra o procurador do país, Pablo Sánchez, que também podem terminar em destituição.As organizações sociais e grupos da sociedade civil que convocaram a manifestação acusaram o partido 'fujimorista' Fuerza Popular, liderado por Keiko Fujimori, filha do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000), que se encontra preso, de perpetrar um golpe de Estado encoberto para se apoderarem dos diferentes poderes.

Nesse sentido, os manifestantes usaram 'slogans' como "Nem golpe nem pacto com os corruptos" ou "Keiko, aceita, não és Presidente", em referência à derrota frente a Kuczynski nas eleições do ano passado, por uma diferença de apenas 40.000 votos.

À frente do protesto estava Avelino Guillén, o procurador que investigou os casos de violações de direitos humanos e de corrupção pelos quais Fujimori foi condenado a 25 anos de cadeia, e que apoiou Kuczynski nas últimas eleições.

O Congresso vota esta quinta-feira a moção para destituir o chefe de Estado peruano por "incapacidade moral permanente" por Kuczynski ter alegadamente ocultado as suas ligações à construtora brasileira Odebrecht.

A acusação sustentou que o chefe de Estado peruano "faltou à verdade" ao negar, em repetidas ocasiões, qualquer ligação à Odebrecht que revelou, na semana passada, ter feito pagamentos de mais de 782.000 dólares entre 2004 e 2007 à Westield Capital, empresa de Kuczynski.

Durante esse período, Kuczynski desempenhou o cargo de ministro da Economia e de primeiro-ministro no Governo do Presidente Alejandro Toledo (2001-2006).

Tanto o Presidente peruano como a Odebrecht argumentaram que os contratos são legais e foram negociados exclusivamente com o empresário chileno Gerardo Sepúlveda, que administrava a Westfield Capital enquanto Kuczynski era ministro.

O caso Odebrecht afeta quase toda a primeira linha política do Peru devido aos milionários subornos pagos entre 2005 e 2014 em troca de adjudicações de grandes contratos de obras públicas, além de financiamentos às campanhas eleitorais dos principais candidatos.

A ser aprovada a destituição, que requer o voto a favor de 87 dos 130 deputados, a chefia de Estado do Peru deverá ser assumida por Vizcarra ou, se este declinar, por Aráoz.

Se os dois vice-presidentes renunciarem, o líder do Congresso que, atualmente, é o fujimorista Luis Galarreta, terá que assumir a presidência e convocar de imediato novas eleições gerais, as quais devem ser realizadas no prazo máximo de um ano.

Lusa

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