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Opositores da China denunciam "lista negra secreta" de Pequim

Várias personalidades críticas do Partido Comunista Chinês anunciaram ter-lhes sido recusado visto para Hong Kong, denunciando a existência de uma "lista negra secreta" de indesejáveis que testemunham a influência crescente de Pequim sobre a cidade.

Os académicos de Taiwan Wu Rwei-ren e Wu Jieh-m, da Academia Sínica de Taipé, deviam participar na sexta-feira numa conferência na antiga colónia britânica. Ambos viram rejeitados os pedidos de visto sem nenhuma explicação.

Em outubro, Benedict Rogers, defensor britânico dos direitos humanos, foi impedido de entrar na cidade pelos serviços de imigração, depois de ter aterrado em Hong Kong para, disse na altura, uma visita privada.

O também vice-presidente da comissão dos direitos humanos do Partido Conservador britânico no poder, tinha-se insurgido, semanas antes, contra a detenção de ativistas pró-democracia em Hong Kong.

Nos termos do acordo sino-britânico ao abrigo do qual foi feita a entrega de Hong Kong a Pequim em 1997, o território é uma região semiautónoma que goza de liberdades inexistentes no interior da China. A governação segue o princípio "Um país, dois sistemas", teoricamente em vigor até 2047.

No entanto, muitos sentem que essas liberdades estão a deteriorar-se e que Pequim está em processo de negar esse acordo.

A Lei Básica (miniconstituição) de Hong Kong estabelece que as questões de imigração são da competência das autoridades locais.

Mas, segundo analistas, as decisões dos serviços de imigração são cada vez mais arbitrárias e opacas, tornando-se gradualmente uma questão política.

"As coisas que antes não eram consideradas ameaça, passaram a sê-lo agora", disse Edmund Cheng, professor na Universidade Batista de Hong Kong.

Questionada pelos 'media' a propósito do caso de Bennedict Rogers, a chefe do Governo de Hong Kong, Carrie Lam, recusou explicar o motivo da rejeição do visto, mas deu a entender que em matérias controversas as questões de imigração podiam derivar para a esfera da diplomacia, a qual já está é da competência de Pequim.

"Algumas das fronteiras do [princípio] 'um país, dois sistemas' foram redesenhadas", sublinhou Cheng.

A deputada pró-democracia Claudia Mo considera que Hong Kong está a desistir das suas prerrogativas.

"Tudo isto seria impensável há dez anos, mas está a acontecer", disse.

O taiwanês Wu Rwei-ren acusou o Governo de Hong Kong de ter "uma lista negra", que está a crescer de dia para dia, e inclui académicos.

Para Wu, Pequim quer impedir toda a comunicação entre os taiwaneses e as forças da oposição de Hong Kong "para isolar e desarmar a sua sociedade civil".

Wu é coautor de um livro sobre o nacionalismo em Hong Kong. O académico participou igualmente no movimento "dos girassóis" de Taiwan, quando os estudantes ocuparam o parlamento para protestar contra um acordo comercial com a China.

O outro universitário taiwanês impedido de entrar em Hong Kong, Wu Jieh-min, é igualmente crítico em relação aos governos central chinês e de Hong Kong, e participou em diversos movimentos sociais.

Académicos taiwaneses, deputados e ativistas apoiaram em 2014 a ocupação das ruas pelos democratas de Hong Kong, cujas figuras mais proeminentes viajam frequentemente para Taiwan.

A China, que não apoia a emergência de um movimento independentista em Hong Kong, tem multiplicado as advertências àqueles que ousam questionar a sua soberania.

Os serviços de imigração de Hong Kong recusaram-se a falar sobre a recusa em conceder certos vistos ou a comentar a possibilidade de existência de uma "lista negra".

O ativista taiwanês T. Chang, que editou uma revista em Hong Kong, também disse que recentemente lhe foi negado um visto para a cidade onde ele queria participar num fórum cultural.

"É triste não poder mais ir a Hong Kong", afirmou na rede social Facebook. "A minha ligação com Hong Kong não será cortada por vocês", garantiu.

Lusa