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Detido fundador de ONG grega acusado de auxílio à imigração ilegal

Cerca de 240 migrantes resgatados do mar esperam no porto de Motril, Espanha.

PEDRO FEIXAS

O fundador da organização não-governamental (ONG) grega Emergency Response Centre International, que está a ser investigada por tráfico de pessoas, foi detido pelas autoridades gregas na quarta-feira, na ilha de Lesbos.

Além do fundador da Emergency Response Centre International (ERCI), Panos Moraitis, um empresário especializado em segurança marítima em zonas de conflito, outros quatro ativistas estão presos há um mês: os responsáveis das operações de regaste e finanças da organização, bem como dois voluntários estrangeiros, o irlandês-alemão Sean Binder e a refugiada síria Sarah Mardini, a quem foi concedido direito de asilo na Alemanha.

Panos Moraitis fundou a ERCI no final de 2015, acumulando as funções humanitárias com as de presidente da Aspida, uma empresa de serviços de segurança marítima, da qual se demitiu a 3 de setembro.

A polícia grega acusa os detidos de facilitarem a entrada na Grécia a centenas de migrantes entre agosto de 2016 e janeiro de 2018; de espionagem, por acompanharem as comunicações da guarda costeira grega e do Frontex, bem como de lavagem de dinheiro através da ONG de resgate humanitário.

Os detidos negam as acusações e, segundo o advogado de Mardini e Binders, nem sequer se encontravam na Grécia quando aconteceu a maioria dos delitos em que terão participado, segundo a polícia grega.

No início de setembro, 60 organizações humanitárias europeias de vários países pediram a libertação dos detidos, considerando que a acusação dos ativistas "é o caso maius recente de uma tendência europeia de criminalizar a solidariedade".

Em 2015, quando estalou a crise dos refugiados, centenas de ONG instalaram-se nas ilhas do mar Egeu para ajudar as pessoas que chegavam. As autoridades gregas, citadas pelo The Guardian, estimam que existam 114 ONG e 7.356 voluntários baseados em Lesbos e falam de uma "indústria", acusando as ONG de serem um "fator de atração" da imigração ilegal.

Uma das detidas, Sarah Mardini, celebrizou-se em 2015 quando, juntamente com a irmã, a nadadora olímpica Yusra Mardini, arrastou a nado uma embarcação à deriva, onde ambas seguiam com mais uma dezena de refugiados.

Ambas obtiveram asilo político na Alemanha e Sarah foi convidada pelo então presidente norte-americano, Barack Obama, a fakar sobre a crise dos refugiados perante a Assembleia Geral das Nações Unidas.

A irmã, Yusra, participou nos Joos Olímpicos do Rio, na equipa de refugiados, e converteu-se na embaixadora da boa vontade mais jovem da ONU.

No dia 11 de setembro, Panos Moraitis disse à Lusa que estava "surpreendido" com a situação, mas adiantou igualmente que estava também na mira das autoridades e disponível para se entregar. Contestou, no entanto, as acusações considerando antes que as organizações de salvamento e assistência aos refugiados estão a servir de "bodes expiatórios" para as autoridades gregas.

Garantiu ainda estar "de consciência tranquila", já que todas as atividades que a ERCI desenvolvia eram "legais".

"É tudo muito estranho", frisou, explicando que os trabalhadores e voluntários da ERCI colaboraram desde o início com a investigação, apresentando-se voluntariamente junto das autoridades e fornecendo as informações pedidas.

A ERCI geria vários programas, desde busca e salvamento marítimo a serviços médicos e educativos.

Na altura, a agência Lusa contactou também a polícia grega para obter mais informações sobre o caso, mas o gabinete de imprensa recusou dar detalhes, escudando-se na legislação de proteção de dados pessoais.

Lusa

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