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Britânica acorda depois de acidente sem conseguir falar inglês

BBC

Uma mulher britânica acordou um dia sem conseguir falar inglês, a primeira língua, para só perceber alemão, que aprendeu quando era criança. O caso, apesar de parecer insólito, foi explicado pelos médicos como uma consequência do acidente que Hannah Jenkins teve.

Andrew Wilde estava a fazer montanhismo, nos Estados Unidos da América, quando recebeu uma mensagem que o preocupou. A mulher, segundo a BBC, escreveu em alemão, uma língua que o marido não tinha qualquer conhecimento e que a Hannah tinha aprendido a falar desde criança.

O homem percebeu apenas duas palavras: cão e hospital. O instinto de Andrew foi voltar para o Reino Unido, onde ficou a saber que a mulher tinha tido um acidente.

O acidente

Hannah estava a andar de bicicleta quando colidiu com outro ciclista. Do acidente, a mulher não se lembra de nada. O ciclista com quem colidiu disse apenas aos paramédicos que a mulher não ia a mais de 30 quilómetros/hora e que tinha caído no chão inerte.

Foi no Hospital Royal Berkshire que as coisas começaram a complicar-se para Hannah. Ao acordar, sem conseguir entender onde estava e porque estava ali, percebeu também que ninguém estava a falar a mesma língua que ela, acreditando estar a expressar-se em inglês.

"Eu não percebia nada. Parecia que tinha acordado no estrangeiro e não entendia porque é que as pessoas estavam a falar para mim de uma maneira que eu não percebia."

Hannah revelou à emissora britânica.

Uma língua estranha

Os documentos da mulher mostravam que vivia e trabalhava no Reino Unido, e que se chamava Hannah Jenkins. Os médicos estavam confusos sobre o porquê de não saber falar inglês.

Eventualmente, o hospital conseguiu alcançar a irmã de Hannah, Margaret. A mulher recebeu o telemóvel e começou a falar naturalmente com a irmã, a quem perguntou porque é que os médicos não estavam a falar com ela em inglês. "Eles estão a falar inglês", respondeu a irmã.

O acidente terá "apagado" a língua inglesa da cabeça de Hannah, que ficou apenas com o alemão. Esta foi a língua que a mulher aprendeu em criança e que estava a usar para falar com a irmã.

As irmãs foram criadas no Reino Unido por pais poliglotas, a falar inglês e alemão. A mãe austríaca falava quatro línguas e o pai, um professor de língua de Wales, falava sete.

"O alemão foi a minha primeira língua oral. Era uma regra lá em casa - quando falávamos com a família, tinha de ser sempre em alemão, para manter a língua fresca nas nossas cabeças."

Um computador muito sensível chamado cérebro

"Não conseguia perceber que no hospital estavam a falar em inglês. O meu cérebro tinha perdido a habilidade de perceber isso."

Hannah estava a sofrer daquilo a que chamam de perda da segunda língua, de acordo com a BBC, que entrevistou o neurocirurgião Colin Shieff.

O médico explicou que os cérebros são muito sensíveis e que "qualquer coisa que perturbe o 'computador' pode ter impacto na forma de como as palavras saem". Disse ainda que a aprendizagem feita durante a infância é mais provável seja retida; e que as habilidades aprendidas depois são as primeiras "a ir".

Três anos depois

Hannah ficou a saber que o acidente causou-lhe uma lesão cerebral significante, e que levaria anos a melhorar.

Voltou para casa, onde reencontrou o marido. O casal não se percebia e levou meses até que conseguisse comunicar, primeiro por via escrita. Hannah melhorou primeiro a escrita no inglês, e só depois a fala.

Andrew tirou um ano sabático do trabalho para apoiar a mulher e, lentamente, conseguiu recuperar grande parte do inglês. Contudo, hoje em dia e três anos depois do acidente, a língua inglesa ainda não voltou completamente. Tornou-se agora a sua segunda língua.