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A história da tribo que ataca quem se aproxima e que matou John Chau

Os sentineleses são a tribo mais isolada no mundo e, nos últimos dias, captaram a atenção de muitos curiosos. Depois de matarem um norte-americano que tentava chegar até eles, muitas foram as questões que se levantaram quanto ao estilo de vida desta tribo indígena, quantos são e se alguma vez tiveram contacto com o mundo exterior.

Na semana passada, com recurso a flechas, mataram John Allen Chau, um turista norte-americano que tentava chegar à ilha. As autoridades enfrentam agora a complicada tarefa de recuperar o corpo, que foi enterrado na praia.

"É uma empreitada difícil", disse Dependera Pathak, diretor-geral da polícia das ilhas indianas de Andamão e Nicobar, citada pela agência Lusa. "Vamos ver o que é possível fazer, tendo em atenção a sensibilidade do grupo e os requisitos legais", acrescentando que é preciso "ter atenção para não perturbar" a ilha ou os seus habitantes.

Vivem isolados

Acredita-se que a origem dos sentineleses está numa migração oriunda de África há cerca de 60 mil anos, e serão a última tribo do pré-Neolítico a viver isolada. Vivem numa pequena ilha chamada Sentinela do Norte, nas ilhas Andamão, na Índia, e continuam a resistir ao contacto com forasteiros, atacando quem se aproxima.

Ilha de Sentinela do Norte.

Ilha de Sentinela do Norte.

Gautam Singh

Segundo a Survival International, uma ONG que defende os povos indígenas, esta é uma decisão inteligente por parte da tribo, uma vez que eles não são imunes a doenças comuns, como constipações ou sarampo, e que podem dizimar a sua população.

Contacto com o exterior

Apesar da resistência ao mundo para lá da ilha, já houve contacto com o "exterior".

Indian Coast Guard

A mais antiga comunicação conhecida remonta a 1800, quando o oficial da marinha britânica M.V. Portman chegou à ilha com uma grande equipa, que incluía elementos de outras tribos de Andamão, na esperança de contactar com os sentineleses.

A tribo não se mostrou, mas depois de alguns dias, conseguiram encontrar um casal idoso e algumas crianças que, "em nome da ciência", foram levados para Port Blair. Os adultos ficaram doentes e acabaram por morrer. As crianças foram levadas de volta para a ilha com uma série de presentes.

Na década de 70, as autoridades indianas fizeram várias viagens à Sentinela do Norte, mas não conseguiram mais do que oferecer presentes. Numa das viagens, deixaram na praia dois porcos e uma boneca. A tribo matou os animais e enterrou-os, juntamente com a boneca.

Mas foi em 1991 que parece ter havido um avanço. Quando as autoridades chegaram ao largo da ilha, os sentineleses fizeram gestos para trazerem presentes e, pela primeira vez, aproximaram-se sem armas. O encontro não durou muito tempo - 23 minutos -, com a tribo a fazer gestos e ameaças para se afastarem.

O momento ficou gravado e pode ser visto no vídeo abaixo.

Em 2004, após o tsunami no Oceano Índico, um helicóptero tentou aproximar-se para verificar o bem estar da tribo e foi recebido com flechas.

Lei para não interferir?

Em 1996, o Governo indiano acabou com as viagens de reconhecimento e, no ano seguinte, proibiu qualquer tipo de contacto com a ilha ou com os habitantes da mesma.

As viagens não pararam e, de tempos a tempos, as autoridades voltam à ilha, para fazer o recenseamento demográfico ou, como por exemplo em 2004, para verificar que a tribo não tinha sido dizimada pelo tsunami. As verificações periódicas servem para ter a certeza que os sentinelses estão bem.

Indian Coast Guard

Relatos dizem que a Sentinela do Norte terá sido excluída, este ano, - juntamente com outras 29 ilhas de Andamão e Nicobar - da lista do regime de Áreas Restritas, até dezembro de 2022. A ser verdade, isto iria permitir a aproximação da ilha, sempre sujeita a certas condições, mas sem a necessidade de autorização das autoridades.

Números incertos

Perante a incapacidade de interação, ninguém sabe ao certo o número de pessoas que fazem parte desta tribo.

O recenseamento demográfico é feito visualmente, através da aproximação da ilha. Em 2001, as autoridades contaram 21 homens e 18 mulheres; em 2011, foram vistos 12 homens e três mulheres. O sistema tem claramente falhas e acredita-se que a tribo tenha entre 50 a 100 indivíduos.

Survival International

Estilo de vida desconhecido

A maior parte da informação sobre os sentineleses foi recolhida através dos contactos visuais ao largo da ilha.

De acordo com a Survival International, a tribo caça na floresta e pesca nas águas costeiras. Tem canoas descritas como "demasiado finas para caber os dois pés lá dentro". Estes barcos só podem ser usados em águas rasas.

ANTHROPOLOGICAL SURVEY OF INDIA

Os sentineleses têm dois tipos de casas; cabanas grandes com espaço para várias famílias, e abrigos mais temporários, sem paredes, que já foram vistos na praia e não têm espaço para mais do que uma família.

As mulheres usam cordas à volta da cintura, pescoço e cabeça. Os homens também usam fios e fitas na cabeça, mas têm um cinto mais largo, e carregam lanças, arcos e flechas.

Assim como todos os seres humanos, também o estilo de vida dos sentineleses foi mudando e progredindo. Por exemplo, a tribo já usa metal, que foi aparecendo na ilha ou recuperado de naufrágios.

Do que se pode ver de longe, os sentineleses são "extremamente saudáveis", segundo a organização não-governamental.

"As pessoas que são vistas na costa parecem orgulhosas, fortes e saudáveis."

Christian Caron

Não é a primeira vez que matam forasteiros

John Allen Chau não é o primeiro forasteiro a ser morto pela tribo.

Em 2006, dois pescadores indianos atracaram o seu barco perto da Sentinela do Norte para dormir. Os dois homens acabaram por ser mortos pela tribo quando o barco libertou-se e flutuou até à costa da ilha.

INDIAN COAST GUARD