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HRW acusa Bolsonaro de celebrar "ditadura militar que causou sofrimento indescritível"

Alberto Pena

Presidente do Brasil informou que restabeleceu as comemorações militares do golpe de 31 de março de 1964.

A organização Human Rights Watch (HRW) criticou esta quarta-feira a decisão do Presidente brasileiro de restabelecer as comemorações do golpe militar de 1964, acusando Jair Bolsonaro de celebrar "uma ditadura militar que causou um sofrimento indescritível" a milhares de brasileiros.

"Bolsonaro critica com razão os governos de Cuba e Venezuela por violarem os direitos básicos dos seus povos, mas, ao mesmo tempo, ele celebra uma ditadura militar no Brasil que causou um sofrimento indescritível a dezenas de milhares de brasileiros", disse José Miguel Vivanco, diretor para as Américas da organização de defesa dos direitos humanos.

"É difícil imaginar um exemplo mais claro de um padrão duplo", acrescentou.

Bolsonaro, ex-capitão do Exército eleito Presidente no ano passado, informou, através do seu porta-voz, o general Otávio Rêgo Barros, que restabeleceu as comemorações militares do golpe de 31 de março de 1964, data em que as Forças Armadas depuseram João Goulart, Presidente democraticamente eleito, para impor uma ditadura que governou o Brasil até 1985.

Citando dados da Comissão da Verdade, criada para investigar os crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a ditadura militar, a HRW afirma que, ao colocar novamente a comemoração desta data no calendário do Exército, Bolsonaro celebra o facto de 4.841 representantes eleitos pelo povo terem sido destituídos dos seus cargos políticos naquela época.

A organização também frisou que reconhecer este dia é comemorar o facto de que durante a ditadura brasileira cerca de 20.000 pessoas foram torturadas e pelo menos 434 pessoas foram assassinadas ou desapareceram.

A HRW lembrou que ninguém nunca foi responsabilizado por esses abusos, já que o Brasil aprovou uma lei de amnistia irrestrita e citou o caso de Vladimir Herzog, um jornalista brutalmente torturado e morto em 1975 pela ditadura brasileira.

"Estou indignado", disse Ivo de Herzog, filho do jornalista assassinado, à Human Rights Watch.

"Comemorar o golpe é ofensivo. É uma tortura para as famílias dos mortos", acrescentou.

Também o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz, criticou os que comemoram com saudosismo o golpe militar de 1964.

"Num cenário de crise económica, com quase 13 milhões de desempregados, é preciso olhar para a frente e tratar do que importa: o futuro do povo brasileiro. Comemorar a instalação de uma ditadura que fechou instituições democráticas e censurou a imprensa é querer dirigir olhando para o retrovisor, mirando uma estrada tenebrosa. Não podemos dividir ainda mais uma nação já fraturada: a quem pode interessar celebrar um regime que mutilou pessoas, desapareceu com seus inimigos, separou famílias, torturou tantos brasileiros e brasileiras, inclusive mulheres grávidas? Não podemos permitir que os ódios do passado envenenem o presente, destruindo o futuro", disse.

Bolsonaro defendeu repetidamente o histórico do regime militar durante os seus quase 30 anos como congressista.

O chefe de Estado brasileiro já disse publicamente que a ditadura cometeu um erro ao torturar as pessoas quando deveria tê-las matado e repetidamente referiu-se a um dos piores torturadores da ditadura como um "herói".

Em 2009, ele chegou a pendurar um cartaz na porta do seu gabinete no Congresso com os dizeres: "Quem procura ossos é um cachorro", em referência à busca dos restos mortais de supostos membros do grupo guerrilheiro do Araguaia, que desapareceram após serem emboscados por membros do Exército brasileiro.

Recentemente, o Presidente brasileiro elogiou o ex-ditador paraguaio Alfredo Stroessner, que classificou como "um visionário, um estadista".
Bolsonaro também disse publicamente que as ditaduras na América do Sul "pacificaram" a região.

Lusa

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