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"Ler histórias de embalar ajudou-me a sobreviver na prisão"

Conheça a história de Lewis Hardy, condenado a dois anos de prisão.

Nascido e criado em Plymouth, Inglaterra, Lewis Hardy envolveu-se numa luta enquanto estava bêbedo em 2013 e foi condenado a dois anos de prisão em Dartmoor, por danos corporais graves.

Desde novo que tinha dificuldade em lidar com a sua agressividade.

A partir do momento em que foi para a prisão, percebeu como o ambiente seria duro. Apesar disso, Lewis conseguiu manter-se longe de conflitos.

"Temos que nos manter firmes e estar sempre a tentar descobrir como nos distanciarmos desse tipo de coisas”, confessa Lewis à BBC.

Apesar do "azar" por ter sido detido, considera-se um sortudo por se ter inscrito num programa chamado "Storybook Dads" (Pais contadores de histórias). Foi isso que o fez aguentar a vida na cadeia, garante.

O programa oferece uma oportunidade aos presos de gravarem histórias de embalar num estúdio, que são depois enviadas para as suas famílias, em CD ou DVD.

“Assim que caminhava pelas portas, era relaxamento puro, sentia-me seguro”, recorda Lewis.

Para a sua família produzia uma por semana. Lia histórias como "O Grúfalo” de Julia Donaldson ou bandas desenhadas da Marvel a partir da biblioteca da prisão, segurando as imagens à frente da câmara. Chegou até a desenhar as suas próprias bandas desenhadas e a enviá-las para os seus filhos.

Com o passar do tempo, Lewis percebeu que as histórias eram úteis em casa, para a sua companheira e para os seus dois filhos. “A minha companheira estava a ter dificuldade em acalmá-los à noite”, diz Lewis, uma tarefa que se tornou mais fácil com as histórias de embalar.

“Parecia que eu estava no quarto com eles enquanto fechavam os olhos”, conta Lewis com base no relato dos filhos.

Além disso, ficou satisfeito por saber que os filhos sentavam-se por vezes juntos a ouvir as histórias quando tinham saudades do pai.

Além de gravar as suas próprias histórias, Lewis aprendeu igualmente a editar as gravações feitas por outros prisioneiros.

Lewis não lia para os filhos

Lewis não lia muito para os filhos, de 4 e 6 anos, antes de ser preso.

O "Storybook Dads" lembrava-o da sua própria infância.

“A minha mãe costumava ler para mim. E, quando aos 9 anos descobri que era disléxico, comecei a ler até o meu mau comportamento começar na adolescência", admite.

Perceber o impacto que estas histórias tinham em casa incentivou Lewis a fazer mais. Não só as histórias maravilhavam as crianças, como também faziam algo por si próprio.

“É difícil explicar os sentimentos que se tem na prisão”, diz Lewis. “Nunca se tem um carinho de ninguém, um aperto de mão, sente-se falta do amor que se vê nos olhos dos filhos, começamos a sentir-nos cada vez mais frios”.

Estudou produção de rádio e sonhava escrever peças para o meio. Enquanto trabalhava para alcançar esse objetivo, era também voluntária na prisão de Channing Wood e ajudou a montar lá uma estação de rádio.

Com ela os presos “abriam-se" em relação à dor que sentiam por estar longe dos filhos, a culpa por não estarem presentes em datas importantes, como aniversários, primeiros passos ou primeiros dias na escola. Sharon assistiu a telefonemas para casa que acabavam em lágrimas quando os presos percebiam vida familiar que lhes estava a passar ao lado.

"É um ambiente machista, não se pode mostrar nenhuma fragilidade. Por outro lado, o nosso estúdio é estimulante e encorajador - entram em contato com o seu lado de pai. Sair daquela imagem machista por um breve período de tempo fá-los sentir-se vulneráveis", refere Sharon à BBC.

Foi assim que a ideia do projeto surgiu. Seria uma forma de os presos manterem laços familiares ao mesmo tempo que adquiriam competências na área da produção de media, que poderiam ajudá-los a reconstruir as suas vidas fora da prisão e, consequentemente, reduzir o risco de reincidência.

Sharon Berry criou o projeto de caridade em 2003 na prisão de Dartmoor. A primeira sala onde foi montado o estúdio de gravação era uma cela vazia.

Dezesseis anos depois, cerca de 100 prisões trabalham neste projeto, gerando entre 5.000 e 6.000 histórias por ano. O projeto está também presente em algumas prisões femininas, sob o nome de "Storybook Mums" (Mães contadoras de histórias).

Vida depois da prisão

Cinco anos depois de deixar a prisão, Lewis não voltou para trás das grades. Parou de beber e teve mais um filho no ano passado.

A companheira e os três filhos de Lewis Hardy

A companheira e os três filhos de Lewis Hardy

Facebook Lewis Hardy

Voltou ao seu trabalho na área da construção de vedações e ramificou-se em serviços de cuidados de propriedade. Nos períodos em que o trabalho era escasso, chegou ainda a colaborar novamente com o projeto.

Começou também a praticar boxe num ginásio amador para combater a sua agressividade.

Lewis Hardy a praticar boxe

Lewis Hardy a praticar boxe

Facebook Lewis Hardy

Com o seu filho mais velho está a trabalhar na coleção de Harry Potter. Ainda não chegaram às secções sobre a prisão de Azkaban mas, quando o fizerem, planeia usá-las de pretexto para que o seu filho não siga as suas pisadas.

"Vou dizer a verdade sobre a prisão, como é horrível", diz Lewis.

E também lhe dirá como o prazer da leitura o ajudou a mudar de vida.

Ler para os filhos continua a ser uma das suas atividades favoritas.

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