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"Talibã americano" libertado ao fim de 17 anos - mas a América duvida do seu arrependimento

John Walker Lindh tem 38 anos e subsistem dúvidas de que tenha renunciado à ideologia extremista que o levou ao Afeganistão.

O "Talibã americano" John Walker Lindh é esta quinta-feira libertado aos fim de 17 anos de prisão. Mas há quem se inquiete porque não aparenta ter renunciado à ideologia extremista que um dia o levou até ao Afeganistão.

Capturado no final de novembro de 2001 durante a ofensiva militar conduzida pelos Estados Unidos após os atentados de 11 de setembro, deixou hoje a prisão de alta segurança de Terre Haute no Indiana (norte dos EUA), aos 38 anos.

John Walker Lindh aos 11 anos

John Walker Lindh aos 11 anos

Nasceu no seio de uma família católica, mas converteu-se ao Islão na adolescência, que passou perto de São Francisco, na Califórnia.

Aos 17 anos partiu para o Iémen para estudar árabe e foi depois para o Paquistão onde se juntou aos talibãs em 2001, quatro meses antes do 11 de setembro, para, segundo o próprio, lutar contra a Aliança do Norte do comandante Massud.

Esteve durante várias semanas num campo de treino da Al-Qaeda, onde aprendeu a manusear armas e explosivos.

Após a sua captura, ficou detido com outros talibãs numa prisão perto de Mazar-i-Sharif, no norte do Afeganistão.

(O momento da detenção captado pela CNN)

Aí foi interrogado por uma agente especial da CIA, Johnny Spann, que morreu horas depois num motim nesta prisão.

Lindh foi o "preso #001" e Spann o primeiro norte-americano morto na "guerra contra o terrorismo" lançada por George W. Bush.

John Walker Lindh levado para a prisão de Mazar-i-Sharif por um combatente da Aliança do Norte a 1 de dezembro de 2001.

John Walker Lindh levado para a prisão de Mazar-i-Sharif por um combatente da Aliança do Norte a 1 de dezembro de 2001.

Reuters

Dúvidas sobre o arrependimento de Lindh

John Walker Lindh ficou ferido neste motim e foi então enviado para os Estados Unidos, onde foi julgado e condenado a 20 anos de prisão, em outubro de 2002.

Em tribunal, afirmou que nunca pegou em armas contra o seu próprio país, mas reconheceu ser culpado de ter "prestado serviço aos talibãs" e de ter combatido com armas ao seu lado.

No final do processo, admitiu ter cometido "um erro" ao juntar-se ao grupo islâmico extremista e condenou "inequivocamente" o terrorismo.

Mas há quem duvide.

Segundo a diretora do Centro para a Segurança Nacional na Universidade Fordham, Karen Greenberg, Lindh "dedicou todos os anos que passou na prisão a estudar os textos islâmicos".

Em 2017, a revista Foreign Policy citava um relatório do Centro Nacional Contra o Terrorismo que afirmava que em março de 2016 Lindh "continuava a exaltar a guerra santa mundial e a escrever e traduzir textos extremistas violentos".

E o especialista em extremismo da Universidade George Washington, Alexander Meleagrou-Hitchens, afirma num relatório de 2018 que Lindh se tornou "próximo de Ahmad Musa Jibril [também conhecido como Abu Khaled] o mais influente pregador salafita-jihadista americano vivo".

Segundo a cadeia de televisão norte-americana NBC, Lindh terá declarado, numa carta escrita à mão em fevereiro de 2015 em resposta às questões colocadas por um jornalista, que o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) estava a fazer "um trabalho incrível".

O registo na madrassa Arabia Hassani Kalan Surani Bannu, no Paquistão.

O registo na madrassa Arabia Hassani Kalan Surani Bannu, no Paquistão.

Reuters

Americanos consideram que Lindh continua a ser uma ameaça para a sociedade

A libertação antecipada, por bom comportamento, é acompanhada por uma série de condições para os próximos três anos.

As suas atividades na internet serão vigiadas em permanência; não poderá comunicar online noutra língua além do inglês e não poderá entrar em contacto com extremistas ou consultar "conteúdos que veiculem o extremismo ou opiniões terroristas".

Lindh conseguiu obter a nacionalidade irlandesa, como pretendia, em 2013, mas está proibido de viajar para o estrangeiro sem autorização de um juiz.

Muitos americanos consideram que o ex-combatente islâmico continua a ser uma ameaça para a sociedade e consideram um problema não existir um programa federal que vigie os antigos condenados para impedir que voltem a cometer atos de violência.

"Devemos considerar as implicações em matéria de segurança para os nossos cidadãos e as comunidades que acolherão estes indivíduos como John Walker Lindh que continuam a fazer a apologia da violência extremista", escreveram os dois senadores Richard Shelby e Maggie Hassan numa carta ao responsável das prisões federais, Hugh Hurwitz.

Alison Spann, filha do agente da CIA morto no motim na prisão no Afeganistão em 2001, pediu a Donald Trump para impedir a libertação antecipada, afirmando que Lindh "não é um prisioneiro arrependido".

"O combatente americano da Al-Qaeda deveria cumprir toda a sua pena, que não é comparável àquela que vivem inúmeras famílias que pagaram o preço da luta contra o terrorismo dos radicais islâmicos", escreveu na carta endereçada ao Presidente dos Estados Unidos.

A família de John, a mãe Marilyn Walker, o irmão Connell, a irmã Naomi e o pai Frank Lindh, à porta do tribunal em 2002.

A família de John, a mãe Marilyn Walker, o irmão Connell, a irmã Naomi e o pai Frank Lindh, à porta do tribunal em 2002.

Hyungwon Kang / Reuters