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Um guia para evitar "gaffes" dos políticos

Phil Noble

Manual contém conselhos como "não diga abertamente o que pensa sobre os direitos das mulheres ou da comunidade LGBT".

O partido no Governo no Japão distribuiu aos seus dirigentes um manual para evitar 'gaffes' na sequência de vários momentos embaraçosos causados por políticos que levantaram protestos na sociedade e levaram vários ministros a demitir-se.

O manual tem normas para evitar frases e posições politicamente incorretas e foi distribuído pelo Partido Liberal Democrata, o maior do Japão e que está no poder há mais de 60 anos.

Alguns conselhos

"Não dê a sua visão pessoal sobre certos episódios históricos controversos" ou "não diga abertamente o que pensa sobre os direitos das mulheres ou da comunidade LGBT" são algumas das regras defendidas, segundo cita o jornal espanhol La Vanguardia.

O documento tem ainda conselhos como "evite comentários que diminuam a importância das vítimas de acidentes e desastres ou sobre doentes e idosos" ou "fuja de piadas e expressões que possam levar as pessoas a rir-se de si".

Nos últimos tempos, uma série de comentários infelizes e embaraçosos de políticos japoneses provocaram protestos na opinião pública e levaram vários ministros a renunciar aos cargos.

Cansados de ver como a incontinência verbal dos seus dirigentes fez estragos nas fileiras do partido, o governante do Partido Liberal Democrático (PLD) do Japão optou por tomar as rédeas do assunto, obrigando os representantes do partido a obedecer a um guia sempre que falem em público.

Evitar mal-entendidos

O "manual de prevenção de erros", que acompanha um guia maior com conselhos para falar em público foi entregue a legisladores nacionais, líderes de câmaras municipais e aos potenciais candidatos à câmara alta nas próximas eleições.

"Os documentos visam instruir [os políticos] para que evitem mal-entendidos. É aconselhado que elejam as palavras com cuidado e que comuniquem com precisão o que querem dizer para que sejam entendidos corretamente", assegurou uma fonte do partido ao diário local Japan Times.

O guia adverte os políticos de que devem estar conscientes de comentários que possam ser mal interpretados e retirados do contexto.

Para evitar a situação, o manual aconselha a fazer discursos monótonos e a usar frases curtas, sem muitas vírgulas nem pontos.

Além disso, o texto enumera os cinco temas sobre os quais deve haver especial cuidado e lembra que, "mesmo quando os encontros são privados, alguém pode fazer fotos ou vídeos".

Gafes atrás de gafes

O guia parece ter sido feito à medida de políticos como o ministro das Finanças, Taro Aso, um dos pesos pesados do executivo japonês, já que, aos 78 anos, soma "gafes" atrás de "gafes.

Em 2008, quando era primeiro-ministro, Taro Aso pediu aos pensionistas "mariquinhas" que cuidassem melhor da sua saúde para aliviar a carga do Estado, e, cinco anos depois, defendeu que as pessoas mais idosas "deviam apressar-se a morrer" para aliviar os gastos com a Saúde.

Já em 2017, Taro Aso considerou que, embora Hitler não fosse bom, "a sua motivação era correta" e, em fevereiro passado, culpou as mulheres que não tiveram filhos pelo declínio demográfico.

Também o ministro dos Jogos Olímpicos de 2020, Yoshitaka Sakudarea, fez declarações infelizes - que, aliás, levaram à sua demissão, em abril - sobre as pessoas afetadas pelo terramoto e tsunami de 2011, que provou o desastre de Fukushima.

As reações

A iniciativa de publicar este manual não recolheu propriamente louvores nem entre os partidários do PLD nem entre a oposição.

Segundo disse Ichiro Ozawa, antigo líder de um partido da oposição ao diário The Mainichi, o problema não são os erros, mas sim a ideologia subjacente.

Também alguns partidários do PLD consideraram àquele jornal que o facto de ter de publicar um manual desta natureza mostra "o estado patético das coisas".

Lusa

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