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"Bacha Posh", a prática afegã que força as raparigas a viver como rapazes

Omar Sobhani

Mangal Karimy, de 13 anos, à primeira vista parece um rapaz normal que vive numa pequena vila, Sanjoor, no Afesganistão, e ajuda o pai na quinta a alimentar o gado e a cortar lenha, mas na realidade é Madina, uma rapariga que não pode escolher e vive como um rapaz.

Até aos 2 anos, Mangal era Madina, uma de sete filhas que foi escolhida para viver a vida como se fosse um rapaz sob a tradição afegã chamada “Bacha Posh”, termo dari (ou persa afegão) que significa “vestida como um menino”.

Mangal sempre se recorda da sua vida a prender o seu cabelo comprido debaixo de um gorro de lã, a vestir um casacão e calças largas, e ajudar o pai a tratar do trigo e da ordenha na quinta em Sanjoor.

Segundo Nadia Hashimi, uma pediatra afegã e autora de um romance best-seller de 2014 que retrata a prática “Bacha Posh”. O Afeganistão é uma sociedade altamente patriarcal, os filhos são muito mais valorizados que as filhas, ao ponto da família se sentir incompleta sem a existência de um rapaz.

Sodaba Ehrari, editora chefe da Agência de Notícias das Mulheres Afegãs (AWNA), que considera que as raparigas são levadas a acreditar, ao longo da sua vida, que são um fardo para a família, entrevistou vários pais de crianças que seguem a prática “Bacha Posh”.

Concluiu que as mulheres, na cultura afegã, “não podem ganhar dinheiro para sustentar a família, nem podem viver sozinhas de todo. São variadas as razões, mas a principal que leva a esta prática de ‘Bacha Posh’ é a sociedade patriarcal.”

A tradição, com vários séculos, diz muito sobre a discriminação que as mulheres afegãs sofrem desde, literalmente, o seu nascimento, e isso é demonstrado através da tentativa de transformar a filha num filho.

Esta transição é temporária e espera-se destas crianças que regressem à sua identidade feminina após atingirem a puberdade, algo que nem sempre acontece de forma fácil ou natural.

Adjacente a esta prática está a crença de que a criança que pratica “Bacha Posh” irá “mudar o destino de forma a que a próxima criança da família seja do sexo masculino.”

Em declarações à CNN, o pai de Magal, Khoda Bakhsh Karimy, disse que caso nascesse, entretanto, um filho, a criança era autorizada a retornar à vida de rapariga. Até lá, ou até que Mangal atinja a puberdade, os pais de Mangal sentem-se felizes com Mangal e com a responsabilidade que ele carrega, como “receber os convidados na nossa casa e oferecer-lhes chá e comida.”

A mãe, Amena Karimy, diz que “tornamo-la rapaz para que pudesse ajudar o pai”, já o pai diz “tornamo-la rapaz para que me pudesse servir água e comida quando estou a trabalhar no deserto”.

Na linguagem Dari não existem pronomes de género como “ele” e “ela”, no entanto, Mangal disse à CNN que prefere ser tratado de acordo com a identidade masculina.

Já os pais acreditam que a identidade biológica permaneceu inalterada, continuando Mangal a ser uma menina e continuando a referirem-se a ele por “ela”.

“Eu amo todas as minhas filhas, mas sem dúvida que amo mais a Madina porque ela ajuda-me nos trabalhos”. “No entanto, essa é a única diferença entre elas”, afirma Khoda.

Nadia Hashimi diz que o amor afegão pelos filhos do sexo masculino é algo que está enraizado, pois numa economia agrocultural do Afeganistão são os rapazes que cortam a madeira, lavram os campos, viajam de forma independente e trabalham fora de casa e, quando casam, as mulheres (e as filhas) acabam por ser absorvidas pela família, tornando a sua existência quase nula.

Para as raparigas, a história é contada de outra forma.

Espera-se que sejam recatadas e que sejam uma ajuda doméstica para a família. Fora de casa, uma rapariga vista a “passear pelo mercado”, por exemplo, ou a “olhar os adultos nos olhos”, teria um comportamento considerado chocante nesta sociedade.

Para os pais, sem filhos do sexo masculino, esta prática é a única forma de contornar estes obstáculos que ditam muitas vezes o poder socioeconómico da família.

Sitara Wafadar

Sitara Wafadar, da província de Nangarhar, também viveu como um rapaz durante mais de 10 anos.

Com seis irmãs e nenhum irmão, Wafadar tornou-se no filho que os seus pais nunca tiveram.

"Desde que nasci que me vestiram roupas de rapaz e tenho trabalhado com o meu pai numa fábrica de tijolos. Tenho sido forçada a fazer tijolos. Também gostava de poder ser uma rapariga na minha família, mas não tenho escolha e tenho de ajudar o meu pai que já está a ficar velho. A minha mãe está fraca e tenho cinco irmãs", afirma Wafadar.

Agora que está prestes a atingir a puberdade, Sitara Wafadar, terá de fazer uma transição suave para rapariga. Começar a cobrir a cabeça, falar com uma voz mais "feminina" e finalmente preparar-se para o casamento.

Após ter passado a sua vida em liberdade, que só é concedida a rapazes, terá de renunciar à mesma e recolher-se de forma recatada no lar.

A prática está envolta em secretismo e apenas os membros da família mais chegada sabem que Wafadar é na realidade uma rapariga.